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8 de junho de 2011

sol radiante, lua cheia



Damasceno

Itoculo




Passou o mês de Maio. E mais uma vez, como já vem sendo hábito, a comunidade cristã da paróquia de Itoculo se organizou para rezar o terço na casa de uma família diferente cada noite. Para nós, missionários, era um momento privilegiado de encontro com Maria e de confraternização com os fiéis nas suas casas, nos seus lares... depois do jantar, de foco na mão, saíamos, quais peregrinos, às apalpadelas, pelo meio do bairro até chegarmos ao “presépio” dessa noite... qualquer que fosse a família, ou a parte do bairro onde morava, o ambiente era sempre o mesmo: noite apenas iluminada pelo candeeiro a petróleo ou por uma lanterna de pilhas baratas. Mal se viam as caras dos que iam chegando à medida que o terço não começava. A mobília era meia dúzia de esteiras, a condizer com o capim do telhado. E começava o terço. E quando começava não mais parava. Porque era rezado naquele ritmo corridinho que o povo gosta, quase a cantar. Foi bom.

Talvez encantado e lançado por esse ambiente do Maio de Maria veio-mo à cabeça, já em pleno Junho, uma poesia que partilho agora convosco. Não dizem que “de poeta e de louco todos temos um pouco”? Então cá vai:


Sol Radiante, Lua Cheia

Senhor, tu és Sol
Brilhante, iluminas
Dás beleza às criaturas
Senhor, tu és Sol
Para nós te inclinas
Nos afagas das alturas

Senhor, somos lua
Minguante, deserta
Sem coragem de luar
Senhor, somos lua
Crescente, desperta
Ao calor do teu olhar

Senhor, somos lua
Inunda de ouro
O chão que por ti anseia
Senhor, só Maria
Arca do tesouro
Te acolheu em lua cheia

Mosteiro “Mater Dei”, Nampula
07 de Junho 2011

19 de abril de 2011

Um “A”




Damasceno dos Reis
Itoculo

Um mísero “A”.
Quando não se tem mais nada para dizer, quando faltam ideias, um reles “A” pode servir perfeitamente. Além da frequente falta de imaginação para compor um sermão ou para escrever qualquer coisa de jeito para o blog, também pode acontecer que o tempo nos atraiçoe e decida mirrar quando mais precisávamos dele (ou nós provocamos o Deus do tempo adicionando à agenda um irreflectido e desmedido número de compromissos?), por isso esta é uma opção legítima. Escrever um “A”. Quanto mais não seja, evita-se dizer muitas barbaridades.

Pois bem. Não há tempo para responder aos mails dos amigos? não fique uma eternidade sem dar sinal de vida. Dê uma martelada na tecla do “A” e envie. Sempre estará a fazer uma coisa mais personalizada do que muitos que simplesmente reencaminham PowerPoints ou anedotas do Sócrates. Aliás, muitos PowerPoints são uma autêntica seca e acabamos concluindo que abrir tal ficheiro foi perda de tempo (sobretudo para quem não tem net por cabo nem computador com drezagigabytes).

Podemos aproveitar e ir com o mesmo guião até à capela. E, diante do sacrário, dizemos apenas “A”. Nosso Senhor vai ficar contente. Um “azito” para Ele basta. Conhecem a parábola do pobre que não sabia rezar e que se limitava a declamar o alfabeto, para que depois Deus lhe ordenasse as letras numa oração com pés e cabeça? Não é preciso tanto. Com a colaboração do nosso “A” o Senhor nos dará tudo o resto: o AAAAMOR; a VIDAAAA; etecéterAAAA… Além do mais, depois de sair o “A”, não custa nada meter-lhe à frente um “H”. E assim se obtém uma exclamação com tons de louvor: “AH! Como é grande o nosso Deus!” Este “Ah!” pode até transformar-se num sorriso mais escancarado. Toda a gente sabe que Deus é humor. Também se pode acrescentar um “i”. Assim se exprime a nossa dor e recordamos o mistério da cruz. Um “Ai!” sempre vem a propósito (na semana santa).

Este princípio pode servir até para a vida. Se um dia nos levantamos sem energia para muitas falas, esforcemo-nos ao menos em distribuir um meio sorriso. Um pequeno esforço é suficiente para provocar uma reacção em cadeia e alegrar a alma dos que nos rodeiam. É como a sopa de pedra. O ingrediente pedra é apenas um excelente isco para obter umas boas couves… e um fiozinho de azeite, já agora.

Ok. Já sabem – aqueles meus amigos que estão há anos sem dar notícias – não há justificação para tanto apagão... é só digitar uma letra qualquer e enviar-ma assim mesmo, crua e sem tempero, que eu lá a cozinho. Mas não abusem.

31 de dezembro de 2010

uma faceta da missão

Damasceno dos Reis
Itoculo


Noutras partes do mundo – em Portugal, por exemplo – os assuntos das conversas entre as pessoas no momento mesmo em que se encontram podem variar muito. Dependendo dos acontecimentos recentes, do dia em que se encontram, das pessoas que encontram, etc., qualquer tema pode vir ao de cima. O clima: “Bom dia, hoje está um frio de rachar”; o desemprego: “Boa noite, então o seu filho já conseguiu aquele emprego?”; o desporto: “Olá. E o jogo ontem à noite? 4-0 à Espanha foi uma maravilha…”; a política: “Bah! Os políticos são todos iguais…” e assim por diante. Em Nampula, entre o povo macua, o grande assunto que acompanha a saudação ou a conversa imediata após a saudação inicial é sempre o mesmo: as doenças. Cada um apresenta ao amigo o rol exaustivo das doenças que o afectam a si e à sua família no momento presente. Desde a malária, omnipresente, até à simples tosse, passando pela diarreia, pela dor de coluna ou por uma simples unha encravada, tudo é contabilizado e exibido aos demais. Nas reuniões de formação e programação que regularmente se organizam na nossa missão, já sabemos, a primeira meia hora é sempre para os responsáveis das diferentes comunidades cristãs desfiarem o rosário das suas maleitas. Isto revela como a doença é algo que aflige profundamente este povo. Este lamento quase permanente é talvez a solução possível para quem se habituou a não ter por perto nem postos de saúde, nem medicamentos, nem nada. É uma lamúria que traz algum conforto pelo facto mesmo de ser partilhada com os outros…

Para além destas doenças, digamos, mais convencionais, as pessoas queixam-se também com alguma frequência de ataques de espíritos malignos, de perturbações devidas a forças ocultas e de outros problemas de ordem mais sobrenatural. É um fenómeno que se verifica em todas as sociedades e em todos os tempos. Mas aqui em África talvez isso se faça sentir com mais intensidade. Em muitos casos o que está na origem destes “minepa sonanara” (maus espíritos em macua) não passa de pura superstição e é preciso ajudar as pessoas a entender isso. Leva tempo, e as pessoas sentem-se angustiadas ao deparar-se com coisas que não conseguem entender. Por isso uma parte do trabalho dos missionários desenvolve-se na área da saúde e particularmente na formação sobre as verdadeiras causas e mecanismos das doenças. Mas também é verdade que muitas vezes há situações de fragilidade, de desarranjos psíquicos, etc. que têm a ver com uma autêntica influência demoníaca. O missionário, e mais especificamente o ministro de Deus tem que estar preparado para isso. Deve ter o Evangelho como referência, e Jesus como modelo e força que liberta do mal.

No início deste ano apresentou-se na missão uma senhora que sofria de“majini” (doença de maus espíritos). Como é habitual nestes casos tentamos encaminhar a pessoa para o hospital, procuramos certificar-nos de que não se tratava de alguma malária mal curada, por exemplo. Mas neste caso a senhora já tinha seguido esse percurso, e, esgotadas todas as possibilidades, não melhorou nada. O que lhe estava então a acontecer? Segundo o que ela descreveu, ela era visitada por multidões de espíritos que a queriam obrigar a abandonar a fé católica. Ameaçavam-na e provocavam-lhe torturas de várias espécies para fazer com que renegasse a sua fé e regressasse às práticas pagãs.Tinha já dificuldade em participar com a comunidade na celebração do domingo. Fizemos então uma pequena oração, simples. Leu-se a palavrade Deus e o padre impôs-lhe as mãos. Demos-lhe água benta e instruções para rezar em casa sem desistir. Durante bastante tempo a senhora veio à missão para várias sessões de oração de libertação. Por vezes, enquanto se rezava, reagia com tremores e com uma respiração ofegante,mas aos poucos foi serenando. Decidiu também deixar uma situação de pecado em que vivia, confessou-se e passou a comungar regularmente. Foi dando sinais de novo equilíbrio e alegria de viver. Neste mês de Novembro em que se organizam em toda a paróquia os novos grupos de catequese para o próximo ano 2011, ela apresentou-se com uma lista de crianças a quem irá dar catequese. Ficámos contentes e demos graças a Deus que é fonte da verdadeira saúde em Jesus Cristo seu Filho.

Continuação de um feliz Natal e Ano 2011 cheio do amor de Deus.

27 de outubro de 2010

“a música não se privatiza…”


Damasceno
Itoculo


Todos os domingos, depois de termos celebrado e almoçado nas comunidades, à tardinha, juntamente com a comunidade das irmãs, temos na missão uma hora de adoração ao Santíssimo. Mais do que um preceito, esta hora representa para nós um momento de verdadeiro repouso, revitalizante, no fim de um longo dia de trabalho fora de casa.

Em Itoculo, com a chegada da energia eléctrica (em 2007), começaram a proliferar, um pouco por todas as esquinas, palhotas tipo clube de vídeo e discoteca. A partir de uma certa hora, a malta jovem, e não só, vai toda assistir a algum filme de kung-fu chinês ou de Rambo americano. Filmes com argumentos daqueles em que os diálogos só atrapalham. O máximo que se produz são monossílabos, ou grunhidos, sem necessidade de legendas. Em cada uma destas barracas se tenta vender o peixe o melhor que se pode. A técnica para atrair a clientela é a mesma de sempre. Tentar dar nas vistas, ou melhor, nos ouvidos, falar mais alto que o concorrente. Por isso cada “videoclube” está munido do seu altifalante de alta potência decibélica para se fazer notar, infernizando toda a povoação e arredores. Pelo som não se paga nada, só pela imagem – um metical cada sessão (equivalente a 2 cêntimos de Euro). Num dos seus brilhantes romances, Mia Couto coloca esta sábia sentença na boca de um dos personagens: “a música em África não é para ser privatizada”! hum, hum…

E agora metamos os dois parágrafos anteriores no mesmo saco. É que uma dessas salas de “cinema” encontra-se exactamente em frente da capela onde fazemos a nossa adoração! É uma situação no mínimo insuportável. Ao longo de várias semanas foram-me vindo à cabeça algumas estratégias para pôr cobro a isto. Algumas delas partilhei com o resto da equipa missionária. Outras não.

PLANO A: montar uma aparelhagem e um projector de vídeo no centro paroquial e passar filmes de borla para arrasar de vez com o adversário.

PLANO B: Comprar o espaço à frente da capela e fazer assim com que o espectáculo vá, pelo menos, um pouco mais para longe.

PLANO C: Ir ter com o homem do altifalante e lançar-lhe uma praga de racha pessegueiro (ou cajueiro, para ser mais inculturado). Talvez pudesse combinar com os homens da EDM (Eletricidade de Moçambique) para provocarem um black out um pouco depois do meu oráculo ameaçador.

PLANO D: Escavar um túnel de nossa casa até ao terreno do inimigo e depositar por lá uns explosivos…

Alguns destes planos têm inconvenientes, reconheço. E o pior é que foram detalhadamente engendrados, ponderados, reelaborados... precisamente durante o tempo de adoração ao Santíssimo Sacramento. É um pouco decepcionante, e humilhante até, deparar-se com esta colecção de ideias ao cabo de uma devota hora de meditação. Mesmo assim, graças a Deus. Este conjunto de PLANOS, de A a Z, é o símbolo da minha fragilidade. Símbolo da incapacidade de me abster do ruído exterior para mergulhar no amor silencioso de Deus. Símbolo da minha incapacidade de perdoar, de relativizar, de serenar, não dando azo à irritação. – E é esta a minha oração, Senhor. Por uma fracção de segundos, esta simples constatação se transformou em oração, me ocupou por inteiro a alma, sem que o rapper ou o pop beat do vizinho me perturbassem mais. Por este momento apenas, esta hora de adoração já valeu a pena.

Graças e louvores se dêem em todo o momento.

14 de maio de 2010

uma bênção


Damasceno
Itoculo


A irmã Alice tinha entregue os melhores anos da sua juventude à missão em Cabo Verde e no Senegal. Depois dispôs-se a servir como superiora da sua congregação em Portugal. E, quando o mundo civilizado ditava que a sua idade era a da reforma, aceitou o desafio de abrir uma nova frente missionária para as Irmãs do Espírito Santo: a missão de Itoculo, em Moçambique, no ano 2005. Juntamente com a irmã Carmo Barros foi pioneira de uma nova página da história da sua congregação.

Agora que chegou o momento de mais uma vez pegar na bagagem e partir, agradecemos… temos que louvar o Senhor. A obra que realizou é extraordinária, revela bem como a árvore estava enraizada em Jesus, porque só assim poderia ter dado tanto fruto. Juntamente com as suas irmãs orientou e fez avançar projectos que muito irão contribuir para o desenvolvimento deste povo: o centro nutricional e o lar feminino são apenas os exemplos que mais se destacam. A missão de Itoculo ganhou um outro colorido com a presença das irmãs. Nestes anos a irmã Alice garantiu que nem na casa dos padres faltassem flores e um pouco mais de arrumação estética. Os terrenos da missão foram bem aproveitados para plantação de árvores de fruto, sobretudo papaieiras, e para o incremento do cultivo hortícola que possibilitou uma melhoria significativa da nossa dieta alimentar. A nível pastoral quem mais beneficiou foram os casais. Com persistência a irmã foi reunindo homens e mulheres para os alimentar com a palavra de Deus. Iniciou-se um novo movimento que se espera venha a crescer e a ser gérmen de uma nova maneira de ser família entre os cristãos desta paróquia: é o movimento família de Nazaré.

A irmã Alice sabe que esta missão foi uma bênção para ela. Trouxe Cristo consigo para O anunciar aos irmãos do povo macua, mas também o encontrou já presente no rosto desta cultura, um rosto surpreendentemente belo. Foi aqui que ela viveu um dos momentos mais importantes da sua vida (cada momento da nossa vida é o mais importante, claro): recordamos por exemplo que foi aqui que recebeu o sacramento da unção dos doentes juntamente com outras pessoas de idade avançada, numa bonita celebração realizada no dia do doente este ano.

Na celebração de homenagem à irmã Alice, realizada há poucos dias com a comunidade cristã, a irmã Rosenir, actual superiora, quis acentuar a dimensão de envio. Não se tratou de uma despedida, mas de um envio. A irmã Alice é uma bênção, e queremos entregar/re-enviar essa bênção missionária a quem tiver a sorte de a receber.

26 de dezembro de 2009

Nawawani & Tekela

Damasceno
Itoculo


A comunidade cristã de Nawawani, aqui há uns dois ou três anos, teve um comportamento pouco cristão, o seu coração perdeu a capacidade de bombear o sangue do amor fraterno que brota do lado de Cristo… pode-se dizer que teve um colapso cardíaco e morreu. Era uma comunidade pequena, com alguma dificuldade em funcionar com a vitalidade duma comunidade normal. Encontrar ali alguém capaz de escrever, ler e, por conseguinte, apto a ensinar catequese ou a dirigir uma celebração dominical era tarefa praticamente impossível. Até aqui nada de especial, é coisa que acontece a algumas pequenas comunidades, que com o tempo e por várias razões (êxodo de cristãos para outras terras, por exemplo) começam a definhar. Quando é assim a solução passa por pedir ajuda a alguma comunidade vizinha. Neste caso a comunidade vizinha era Tekela. Concordou-se que a melhor solução seria unir as duas. Juntas passariam a formar uma única comunidade, mais forte. Ao princípio tudo parecia correr bem: escolheu-se um lugar “neutro”, a meio caminho onde se pudesse construir a capela, limpou-se o terreno e preparou-se tudo para iniciar a construção. De repente, de um dia para o outro, os de Nawawani abandonaram tudo.
O caso foi apresentado em Conselho paroquial e nenhum dos animadores, apesar da experiência e do conhecimento dos mecanismos da cultura macua, parecia entender aquela ruptura de Nawawani. Foi marcada uma nova reunião com os membros de ambas as comunidades, com os animadores maiores da paróquia e nós próprios, os padres. Mas a posição de Nawawani revelou-se ainda mais irredutível: nunca aceitariam caminhar juntos com os de Tekela… e as razões apresentadas para esta decisão tinham a ver apenas com superstições, suspeitas de feitiço e pouco mais.
– Como é possível seguirmos o Senhor Jesus, o Senhor da paz e da misericórdia, de costas voltadas para os irmãos, incompatibilizados com eles?
Fomos perguntando, mas não obtivemos resposta nem sinal de vontade em construir Igreja. Esgotadas todas as tentativas de conciliação, de apelo ao bom senso, foi cada qual para sua casa. Consequentemente Nawawani deixava de pertencer à comunidade Paroquial, à Igreja Católica, enquanto não justificasse ou mudasse o seu comportamento.
Passaram-se os anos. E o filho pródigo voltou, há poucos dias. Sinceramente arrependidos, vieram pedir à Paróquia a reintegração e orientações concretas para regressar à comunhão com os irmãos e vizinhos da comunidade de Tekela. Foram admitidos sob condição: Por enquanto a comunidade de Nawawani é Tekela. Tudo tem que passar por ali. A catequese, actividade importantíssima que, juntamente com a celebração dominical, dá vida à comunidade, é em Tekela. As condições foram aceites e assim que houve oportunidade realizou-se uma grande festa, uma celebração eucarística com a participação das duas famílias desavindas e agora reconciliadas.

Este Jesus de paz tão pequenino é realmente capaz de vencer o pecado tremendo do ódio, da guerra, do desentendimento entre as pessoas, entre irmãos. Temos que o deixar encarnar e têm que ser os cristãos a dar o primeiro sinal de uma nova fraternidade.

Feliz Natal 2009

22 de abril de 2009

furos e Avé-Marias


Damasceno
Itoculo
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Escrevo alguma coisinha só para contrariar o monopólio do Raul (o gás com que está agora há-de passar).
No outro dia viajando para Nacala tive um furo. Nada de extraordinário, não fosse o facto de também o pneu suplente ter o mesmo problema. Ainda assim, a situação não seria desmesuradamente grave, tendo em conta que hoje em dia os prontos-socorro estão ao alcance de um telemóvel. Só que, mal digitei os primeiros números, a bateria foi-se! Um azar nunca vem só. Antes de começar a pedir boleia, dirigi-me às palhotas das redondezas para contratar alguma alma “caridosa” que, por um preço razoável, pudesse ficar de olho no carro enquanto eu levava o pneu à oficina. Assim que saí da estrada passou um carro conhecido que me teria dado boleia se me tivesse visto. Isto doeu-me sobretudo quando, depois de meia eternidade à torreira do sol, me apercebi que dos raríssimos carros que passavam nenhum dava sequer sinais de abrandar (a estrada ali era boa e proporcionava velocidades desportivas)...

Enfim, decidi que podia rezar o terço para não dar o tempo por completamente perdido. E – não sei já em que Avé-Maria foi, mas foi no primeiro mistério – eis que um carro novinho em folha, de homem com dinheiro, atendeu a minha prece. Depois de lhe agradecer, o condutor respondeu-me que a sua intenção era cumprir o evangelho de Jesus e socorrer os irmãos. Tratava-se de um cristão, mas não de um qualquer. Era da Igreja Evangélica Assembleia de Deus. – Mas porque é que a Mãe de Deus, neste milagre, me foi enfiar no carro de um herege? – perguntava o meu preconceito.

Depois de mais uns quantos dedos de conversa ecuménica, fiquei também a saber que o homem era um alto quadro a trabalhar no ministério das finanças. Talvez por isso cheirava tanto a luxo, quer o carro quer o fato dele. Na despedida convidou-me a visitá-lo no local de trabalho. Se calhar a Providência também previu isto! Ter amigos nas finanças vem mesmo a calhar!

7 de fevereiro de 2009

aprender com os mansos


Damasceno
Itoculo


O povo macua é um povo manso. Pode dizer-se.
Naturalmente também são capazes de se zangar e de limpar o sebo ao vizinho e, de vez em quando, a população pode atingir um certo estado de efervescência face a alguma situação de injustiça ou de calamidade. Mas, de um modo geral, são todos muito calminhos.
Esta propensão para a tranquilidade reflecte-se na forma como vivem e sentem a sua pertença a uma religião. O fanatismo e o extremismo religioso que grassam noutras sociedades, e no mundo global, passam completamente ao lado por aqui! Numa família é muito frequente o pai ser da religião tradicional, o filho ser cristão, a mulher ser muçulmana, a filha ser protestante… etc. Uma salada russa onde as religiões convivem pacificamente. Inclusive, todos participam nas festas e cerimónias da religião do vizinho com a maior das naturalidades.
Para a construção do nosso centro paroquial toda a areia foi extraída do terreno do xehe Amorani, que é uma espécie de bispo dos muçulmanos desta área de Itoculo. Na festa da inauguração do centro foi ele um dos principais convidados de honra, claro.
Ainda não há muito tempo – contam os missionários mais velhos – era possível, numa área de primeiríssima evangelização, as pessoas que queriam iniciar a sua caminhada catecumenal terem por catequista um muçulmano! Isto porque calhava ser este um dos poucos minimamente alfabetizados lá do sítio. Gentilmente se disponibilizava para auxiliar o padre até ao momento em que algum catecúmeno ou cristão fosse capaz de ler o catecismo e assumir o ministério.
No ano passado os crismas de uma certa região da paróquia realizaram-se precisamente no dia mundial das missões, em Outubro. Sendo festa grande não podiam faltar convidados de todos os quadrantes… lá estavam também os xehes. Foi com um certo espanto e graça que vi na fila para o ofertório um senhor de túnica branca e cófió na cabeça (chapéu típico dos muçulmanos). Aquele muçulmano, sem o saber muito bem, ia contribuir com a sua moedinha para a evangelização dos povos, já que era esse o destino do dinheiro recolhido no ofertório desse dia.
Se os fundamentalistas e intolerantes de outras bandas pudessem e quisessem aprender com a brandura e a docilidade do povo macua, este mundo seria um lugar bem melhor.

26 de junho de 2008

a capulana

Damasceno
Itoculo

Pode-se considerar o traje típico da mulher moçambicana. Sobretudo no norte do país, da mais pobre à mais rica, toda a mulher que se preze anda com uma: é a Capulana. Trata-se de um pano suficientemente largo para se enrolar à cintura e fazer de saia. Há-as de todas as cores e feitios, comemorativas de datas importantes ou com o emblema de algum partido político. Ao nível da Igreja é frequente mandarem-se fazer para marcar algum acontecimento especial, como nos quinhentos anos de evangelização de Moçambique, por exemplo. Nalgumas paróquias, principalmente nas da cidade, grupos de mamãs ou grupos corais organizam-se para ter a sua capulana de modelo único como uniforme.

Na nossa paróquia de Itoculo, a irmã Joyce, espiritana da Nigéria, organizou as mamãs para que pudessem mandar fazer a sua própria capulana. À partida a tarefa não seria fácil, porque para conseguir uma capulana com um desenho exclusivo a preço razoável é preciso encomendar na fábrica (geralmente na índia) um elevado número de peças... é obra que só se consegue ao nível nacional ou, na melhor das hipóteses, a nível diocesano. Mas Itoculo conseguiu.

A dada altura foi preciso projectar e desenhar a capulana. E, no computador, com as possibilidades de um corel paint, ou photo shop – ou lá o que é – não foi difícil. O sonhado foi o que se vê na foto em baixo:



Mas o que veio da fábrica, uns meses mais tarde, era um pouco diferente!



Mesmo assim, as mamãs ficaram contentes. E dá gosto vê-las a todas a trajar de igual e a cantar nas grandes celebrações.

O sucesso da capulana é de tal ordem que, mesmo fora do círculo das mamãs, há quem se tenha afeiçoado a ela!

Salama.

26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...