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23 de janeiro de 2020

O DESAFIO DE RECOMEÇAR


A nossa vida se realiza num constante recomeçar: ainda há pouco, mais um ano civil terminou e um novo começou, mais um ano lectivo se fechou e em breve um novo abrir-se-á (com novas propostas, promessas e compromissos); o ano pastoral segue o mesmo rumo, o mês, o salário, etc.
                E nós, como nos situar neste vai e vem constante? Somos todos seres temporais e não escapamos a essa sucessão. Mas não somos meros indivíduos absorvidos e manipulados pelo tempo (alguns podem ter ponto de vista diferente, mas eu penso assim mesmo). No meio desta sucessão somos convidados a ter uma palavra. Cada um de nós pode escolher de onde recomeçar, pois se fôssemos obrigados a recomeçar do zero em cada mudança do tempo, penso que seríamos, rapidamente, abraçados no colete-de-forças que é o desespero e o desânimo.
                Felizmente para nós assim não é. O tempo volta ao início e somos desafiados a recomeçar, mas num horizonte de esperança e de confiança, tal lutador que se alegra diante do desafio, pois o pensamento é único: a superação. Os desafios, ainda que nos venham do exterior, são para ser superados e não para nos afogar e fazer desistir.
               

Jovens da paróquia, no momento de animação, depois da eucaristia
Nós, que vivemos nesta missão de Itoculo, também não nos furtamos a esta sucessão temporal, com os seus desafios que nos enchem de alegria e nos fazem sentir mais vivos e fortes para enfrentar os mesmos. O ano 2020 chegou, o ano pastoral e lectivo estão à porta. Os anos passados também foram assim, mas o que marca a diferença SOMOS NÓS. As experiências que fizemos no passado enriquecem a nossa resposta diante dos novos desafios: certamente vamos encontrar caras novas (já estou a pensar nos novos “inquilinos” do lar de estudantes que estão para chegar e os antigos que vêm com as suas mudanças, sinal de crescimento), temos que pôr em prática o novo plano pastoral da diocese (para os próximos 3 anos), uma nova organização paroquial nascente (geográfica e pastoralmente falando); e mais incrível é que até as estradas que percorremos na nossa missão diária nos presenteou com muitos novos buracos (alguns já são candidatos a passar a categoria de crateras), que são excelentes antídotos contra a monotonia das viagens. Mas tudo isso nos dá um alento extra, uma ansiedade nova e, também, algum “friozinho na barriga”.
A equipa missionária de Itoculo, com as irmãs da missão de Ocua e jovens em formação
Nisto tudo, nasce ou renasce uma nova certeza que é de lutar para atingir os objectivos Assumidos. O batalhão está pronto para a luta as energias foram renovadas e as experiências aprimoradas. Passou o tempo dos desejos para a meia-noite da passagem de ano e estamos em tempo de arregaçar as mangas (e dar corda aos sapatos) para os concretizar. O que a nossa equipa missionária deseja para todos é que este tempo seja vivido na alegria, esperança, fé em Deus e muita comunhão… que ninguém se sinta desanimado, desencorajado ou desesperado; o tempo passa! Que ele nos transforme sem nos levar com ele, pois é preciso estar aqui no próximo recomeço.
Bem Haja!!!!

17 de outubro de 2017

A PARTILHA DO MISSIONÁRIO

O missionário, pelo dom da sua vida aos outros, é chamado a viver uma profunda e contínua experiência de partilha: ele partilha a vida, a fé, o pão, a fome, a voz, os limites e fraquezas… tudo o que ele possui e o seu próprio ser é um dom de Deus e deve ser dom para os outros. A vida é um constante dar e receber, que a todos enriquece.
Quando se fala de partilha a tentação é, inevitavelmente, pensar em coisas materiais. Contudo, esta semana do mês das missões nos convida a explorar outros horizontes de partilha onde cada um tem algo para dar e para receber. O missionário é chamado a partilhar a sua vida com os irmãos, a sua voz com aqueles que não têm voz nem vez na sociedade, o seu rosto com os anónimos da nossa civilização, o sorriso com os que estão tristes, o pão com os que têm fome e são vítimas da pobreza; mas também ele partilha o sofrimento e a dor dos que sofrem, a impotência dos que não podem resolver todos os problemas e desafios que a vida e a sociedade apresentam. Dito de outra forma, o missionário partilha a sua presença no meio do povo onde ele é enviado, independentemente das circunstâncias ou do mérito individual.
O mês de Outubro nos convida, cada ano a fazer a festa da missão, da proximidade e da comunhão. Porém, como fazer a festa sem ter em conta o irmão que sofre e chora ao meu lado? Como permanecer indiferente face à luta dos irmãos que procuram justiça e respeito pelos seus direitos e pela sua dignidade? Como ser missionário sem partilhar estas circunstâncias que nos circundam no dia-a-dia? O missionário tem que ter olhos e braços abertos para acolher estas situações e estes irmãos. Mas ter as mãos abertas não é suficiente para definir o missionário, pois a missão não limita em dar coisas materiais. O que constitui o ADN de um missionário é ter um coração aberto onde os mais humildes, fracos e abandonados podem encontrar um refúgio, um abrigo e aceitação. Um coração aberto, inevitavelmente, faz abrir as mãos para assistir o irmão e dar duas moedas ao estalajadeiro para cuidar dele e dizer: o que gastares a mais pagar-te-ei quando eu regressar (cf. Luc 10,35). 
Ser missionário é um estilo de vida: por isso, o coração do missionário deve inclinar-se naturalmente para o outro, obrigando as mãos a proporcionar a assistência necessária e ajudar a aliviar o seu sofrimento. Partilha material qualquer pessoa pode fazer, mas a grande diferença está na atitude, ou seja, partilhar por (e com) amor. Qualquer dom (independentemente do tamanho ou do valor monetário) que não tenha saído do fundo do coração perde o seu sentido e valor missionário. Ainda que nem todos o façam, ser missionário ou ter um coração missionário está ao alcance de todos e cada um está convidado a sê-lo no dia-a-dia sem ter que sair para muito longe de casa. Contudo, não podemos esquecer os irmãos que estão mais longe e que somos chamados a nos fazer próximos, eliminando as barreiras que nos faz sentir estranho ou inimigo diante do outro.

A pergunta «quem é o meu próximo?» não pode ser calada no agir de qualquer cristão, nem a nossa responsabilidade pelo irmão pode ser condicionada pela distância geográfica, principalmente nos nossos dias em que o mundo está cada vez mais globalizado. Este mês missionário é para todos nós uma oportunidade de reavivar o verdadeiro sentido de partilha e nos ajudar a fugir do grande perigo de transformar as oportunidades de estender a mão para o irmão necessitado em aproveitamento do outro para o nosso próprio interesse. Isto constitui um grande desrespeito pela dignidade da pessoa humana.

30 de agosto de 2017

O voluntariado é amor

(Este post é inspirado por duas coisas, a falta de inspiração para escrever sobre outra coisa qualquer e a necessidade que senti de um testemunho de voluntariado de longa duração quando estava para realizar este sonho, no entanto, toda a informação é pessoal e intransmissível)


O voluntariado deve ser das coisas mais bonitas do mundo, estamos a doar o nosso tempo em troca de uma gratificação pessoal, não o fazemos por dinheiro e atualmente isso parece uma novidade, não fazer as coisas por dinheiro. Aqui não somos só voluntários, somos voluntários missionários, para além de trazermos a coragem de todos os outros voluntários trazemos também a nossa fé, e como ela cresce por estes lados.

Aqui em Itoculo a vertente do voluntariado funciona muito ativamente, os voluntários vêm uns atrás dos outros, o que é maravilhoso, conseguimos garantir a continuidade do nosso trabalho. Nós trabalhamos numa vertente mais social da missão, usamos o nosso conhecimento científico, até agora muito variado, para cada um contribuir com o seu cunho pessoal para o crescimento da missão.

Mas tal como já disse, pretendo ajudar quem está em fase de decisão, para a realização de um projeto de voluntariado internacional.

Devemos ter a consciência que qualquer projeto que realizámos será essencialmente um projeto de crescimento pessoal, isto porque, para que seja muito mais do que isso, temos de doar 3, 4, 5 anos a esse projeto, daí que na hora de tomada de decisão, a duração do projeto seja um factor muito importante. Quando decidi vir por (quase) um ano o que mais pesou nessa decisão, foi o impacto que queria ter na terra que me iria receber, quem nos vai receber também vai ser afectado, logo devem ser considerados na balança. Porquê um ano? Porque quem nos recebe também se afeiçoa a nós e estar criar um sentimento de pertença por um ou dois meses para mim não fazia sentido, atenção, para mim.

Outro factor que devemos considerar é o medo, o medo de deixar a segurança das nossas casas, o medo de deixar a nossa família, o medo de deixar os nossos amigos. Mas, temos de imaginar que vai correr muito bem, e podem ter a sorte que eu tive de encontrar uma família também aqui, como qualquer família tem os seus defeitos e os seus desafios, mas só isso a torna numa verdadeira família.

Existe ainda a saudade (e quanto ela cresce), mas pior que essa saudade é a certeza de que quando tiver de deixar esta terra vai nascer uma saudade muito mais difícil de resfriar, e isso sim assusta.

No entanto, se estão a pensar fazer, façam, existem momentos menos bons, mas os momentos bons, ai os momentos bons, esses compensam e se compensam.

Iniciamos esta semana de trabalho com o mote Deus é amor. Deus é amor, a missão é amor, o voluntariado é amor.

23 de julho de 2017

O meu Bom Dia

Existem várias coisas que me fascinam aqui no povo Macua, algumas é um fascínio bom, outras é mais incredulidade, mas uma das coisas que mais gosto neles é o Bom Dia, aqui cada pessoa tem direito ao seu Bom Dia, não existe um Bom Dia geral, se passamos por 5 pessoas, devemos dizer 5 bons dias.


Se repararmos no simbolismo que isso representa nasce o fascínio, a admiração, nós somos suficientemente importantes para termos direito ao nosso bom dia, quantas vezes nos cruzamos com alguém que conhecemos e até o Bom dia nos custa a sair, perdemos o interesse e a motivação em nos aproximarmos do próximo, do outro, deixamos de ter tempo uns para os outros.

Aqui se há coisa que existe é tempo, tempo para estarmos uns com os outros. Se pela tarde formos passear pelos bairros, vamos perceber que os vizinhos estão nas varandas uns dos outros simplesmente sentados a conversar, só isto e isto já é tanto. Talvez a culpa desta disponibilidade seja a inexistência de Instagrams, de facebooks, de distrações que nos dão a ilusão de que temos uma vida social ativa.

A acompanhar o Bom dia vem o Iháli? (Tudo bem?) e esta pergunta vem com verdadeiro interesse em saber a resposta e quando retribuímos a pergunta respondem com tanta sinceridade, contando de verdade o que se passa na vida deles, que muitas vezes a resposta é desconcertante, está tão carregada de verdade que na maior parte das vezes não sei o que responder. Este pequeno gesto surpreende-me porque onde eu vivia há 6 meses atrás não havia tempo, nem disponibilidade, para verdadeiramente responder a esta pergunta, nem verdadeiro interesse na resposta que nos poderiam dar.

Pode parecer um clichê barato, mas aqui damos muito mais valor às coisas banais da vida, damos mais valor à companhia uns dos outros para contar as novidades mais corriqueiras do nosso dia, damos mais valor à vida, porque sabemos o que custa sobreviver, damos mais valor ao amigo, à família, porque o tempo custa a passar sem companhia.

13 de maio de 2017

CRESCER NA MISSÃO

Cada dia que passa é para cada um de nós uma oportunidade de crescimento e a nossa vida nesta missão de Itoculo não é nem pode ser exceção. O nosso crescimento é visível em muitos aspetos. Desde já, este crescimento acontece cada dia na comunidade e na equipa missionária, onde aprendemos a viver uns com os outros, a nos conhecermos cada vez melhor e a respeitar o outro, nesta comunidade constituída por cinco membros, sendo três padres, uma leiga voluntária e um estagiário. Ao mesmo tempo, partilhamos a missão com uma comunidade de irmãs espiritanas (quatro irmãs).
Este crescimento enquanto comunidade ganhou nova expressão, numericamente falando, nesta semana com a recente chegada do reverendo padre Vincent Ntrie-Akpabi, do Gana. Este acontecimento veio enriquecer a nossa comunidade em muito: é mais uma pessoa a dar o seu contributo para melhor respondermos aos desafios que esta missão nos apresenta, mas também é um novo país que se faz presente neste pequeno mundo de Itoculo: o Gana. Já estavam representados aqui 4 nacionalidades (Cabo Verde, Portugal, Angola e República Centro-africana) e agora também o Gana se faz presente entre nós. É caso para dizer e repetir que é um missionário de peso e um reforço muito bem-vindo aqui em Itoculo.
Mas este crescimento acontece também no dia-a-dia de cada um de nós, através de acontecimentos simples que nos ensinam a melhor conhecer o povo macua, no meio do qual vivemos e partilhamos a sua língua, cultura e costumes. Os desafios são grandes mas as alegrias e bênçãos também não são menores. Partilhamos estes desafios e alegrias também com outros nossos irmãos espiritanos a trabalhar aqui em Moçambique, nomeadamente em Nampula (nossos vizinhos aqui do norte), em Inyazónia e na Beira (comunidades situadas na região centro de Moçambique). Estivemos reunidos, em Nampula, no início deste mês (de 2 a 8 de Maio), para refletir, partilhar e traçar caminhos que visam o futuro da missão espiritana em Moçambique.

Como podemos ver, a missão vai crescendo em silêncio, ora mais lentamente ora de forma mais expressiva, mas o Espírito Santo vai realizando o projeto de Deus através destas pobres e frágeis criaturas. Graças a isso, temos muitas razões para agradecer a Deus o dom de cada dia que ele nos apresenta, com as suas alegrias e desafios, pois são oportunidades de crescimento que ele nos oferece. Noxukhuru Pwiya Muluku ahu!!! 

26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...