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1 de julho de 2017

FORMAR-SE PARA MELHOR FORMAR

A vida é uma escola, onde a morte se apresenta como a graduação. Esta parece ser uma realidade aceite e vivida por todos (principalmente os que já se graduaram). Ora, desde que cheguei a Itoculo, tenho feito esta mesma experiência de um modo intenso, alegre e desafiante. Um dos campos com que tenho contactado muito de perto tem sido o da educação, onde deparamos com alguns desafios e que tentamos dar respostas na nossa missão do dia-a-dia. Quero partilhar, neste pequeno texto, algum do nosso trabalho que acreditamos ser uma pequena contribuição para a construção de um Moçambique melhor e para a edificação de uma Igreja moçambicana que responde aos desafios actuais.
Desde 2009 que a nossa missão de Itoculo conta com um lar feminino que permite, permitiu e, esperamos, continuará a permitir que muitas jovens possam estudar pelo menos até à 10ª classe. Volvido poucos anos, tornou-se evidente a necessidade de alargar essa mesma oportunidade a rapazes que enfrentam os mesmos problemas. Este sonho nosso amadureceu e tornou-se realidade. Estamos a iniciar com o lar masculino que acolhe, este ano, 21 jovens estudantes entre a 8ª e a 10ª classe. Esperamos um número bastante superior a isso no próximo ano.
Esta situação constitui um desafio para mim que, juntamente com o Alexandre, procuro acompanhar estes jovens. Por um lado, apostamos em criar condições para debelar os deficits que possam existir ao nível académico, mas não se esgota aqui a nossa responsabilidade. Reconhecemos que para uma educação de qualidade, precisamos passar da simples instrução (conhecimento académico) para uma formação integral. Este é o nosso grande desafio pois exige-nos uma maior formação da nossa parte ao nível cognitivo, pedagógico, cultural, psicológico e social. Daí que cada dia tem sido para mim uma aprendizagem constante, ao mesmo tempo que vamos procurando incutir nestes nossos jovens os valores humanos, sociais, morais e religiosas (sem proselitismo), que acreditamos ser importantes para a construção de uma sociedade que seja cada dia melhor. A sociedade espera muito de nós e, por isso, todos esperam que os que estão nos lares da nossa missão estejam acima da média dos jovens que estudam aqui mas que estão por conta própria. Somos chamados a ser fermentos na sociedade. Grande responsabilidade a nossa!
Acreditamos que para isso uma educação de qualidade é indispensável. Por isso, sinto a necessidade de me manter sempre aberto para aprender com estes jovens que enriquecem em muito o meu conhecimento e a minha formação humana, cultural, moral, religiosa e académica (e aqui não se pode apoiar na máxima de que «burro velho não aprende caminho»). Esta realidade nos faz sentir vivos, pois constantemente em caminho e visto que os desafios existem para serem superadas, cada dia é, assim, feito de pequenas vitórias (ainda que algumas vezes acompanhada de algumas frustrações). … Assim podemos dizer estamos a fazer caminho!!!

Anima-me saber que procurar respostas para os desafios vale mais do que procurar os limites, pois só quem tem vontade de progredir e de participar no progresso, tem legitimidade para procurar as lacunas e falhas. Que Deus abençoe o pouco trabalho que vamos fazendo.

23 de junho de 2017

Problema n°1

O desenvolvimento de qualquer sociedade deve começar pelo desenvolvimento e pelo fortalecimento do seu sistema de educação, não há outra forma de um país evoluir a não ser pela educação e alfabetização dos seus cidadãos.


Por estes lados, ainda não se chegou a esta conclusão básica, ou melhor, não se interessam por esta condição básica. A educação moçambicana deixa muito a desejar e o pior é que toda a gente tem consciência disso, mas é vantajoso que a população não seja capaz de argumentar, que não seja capaz de fazer perguntas e de exigir mudanças. Enquanto tiverem uma população incapaz de ler e assimilar informação, não vão ter muitas pessoas a questionar as suas acções. Segundo o ministério da educação e desenvolvimento humano 50,4% da população Moçambicana é analfabeta (dados de 2007), o que claramente não é verdade nem agora, nem na altura. Este número é certamente muito superior, porque ninguém "entra" aqui no mato para recolher dados reais.

Agora a grande questão é, assumindo que, esses dados são verdadeiros, será que os 49,6% sabem verdadeiramente ler??? Eu duvido muito, visto que muit@s menin@s chegam à oitava classe sem saberem ler e o mais incrível é que conseguem passar de classe, na realidade os critérios dos professores, são um pouco suspeitos. Passou um notícia no telejornal daqui, em que um professor universitário estava a ser questionado sobre a eficiência dos seus alunos, ao que ele respondeu que os alunos não tinham competências porque não sabiam o hino nacional!! O que é isso tendo em conta que esses alunos não sabem fazer um interpretação crítica de um texto simples!

O nosso trabalho por cá

A escolinha da irmã Adelaide é um dos projetos da missão que tenta combater a péssima qualidade deste sistema de ensino. É um pré-escolar que primeiro começa por familiarizar as crianças com o português o que já é um grande passo para uma melhor aprendizagem das letras, depois começa por ensinar as cores, os números, algumas letras, ensina a tarefa básica de pegar num lápis, muitos menin@s chegam à minha biblioteca sem sequer conseguir segurar direito um lápis.


É urgente combater estes sistemas de ensino que beneficiam com a ignorância dos seus alunos, é urgente combater a corrupção na profissão do professor que muitas vezes, aceita tangerinas, aceita capim, aceita dinheiro e entre outras coisas para simplesmente passar os alunos, nesta que devia ser uma das profissões mais nobres, não é bonito ensinarmos alguém a crescer? A desenvolver o seu sentido crítico? Não há maior fonte de riqueza que uma boa educação.

"Uma criança, uma professora, uma caneta e um livro podem mudar o mundo" 
Malala Yousafsai



26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...