9 de abril de 2010

que bom estar aqui

Elson Lopes
Itoculo

Já lá vão quase 5 meses que cheguei a Moçambique e quase que não dou conta, pois já me sinto macua. Estou mais rico (não de dinheiro) e mais gordo (1kg) apesar de uma malária que foi leve (dois dias de cama).
Agora compreendo o que sempre ouvi dizer aos missionários, estagiários e leigos que estiverem em terras de missão: nada levei e tudo trouxe. Digo o mesmo: nada trouxe e já recebi muitas coisas. Por isso digo que estou mais rico do que quando vim. Muito aprendi e estou aprendendo cada dia que passa com este querido povo moçambicano, concretamente povo de Itoculo. Já tive lições de vida a nível espiritual e material.

Quando vejo este povo que vive com o mínimo para a sobrevivência, às vezes nem isso, a partilhar, a comer do que tem e quando tem, a aproveitar o máximo do que tem sem deixar estragar e a agradecer mais do que reclamar. Comecei a rever a minha vida, pois eu, graças a Deus, tive o privilégio, se assim posso dizer, de ter muita coisa e até de fazer escolhas. E mesmo assim reclamava mais do que agradecia. Este povo fez-me aprender a reclamar menos e a agradecer mais.


Quando vejo este povo a percorrer quilómetros a pé, por vezes ao sol, às vezes com chuva e fome, para se confessarem e participarem na eucaristia, vejo a minha pouca fé, porque nunca tive que percorrer mais de 2km a pé nem de carro para me confessar e participar numa celebração e às vezes ia só para cumprir o meu dever cristão e de seminarista.

Nos tempos litúrgicos fortes (natal e páscoa) há sempre confissões em todas a zonas da paróquia e enquanto o padre confessa aproveito para fazer encontros com os jovens. Uma vez, um jovem fez uma afirmação e depois fez-me uma pergunta que me fez e faz pensar: na bíblia Jesus diz que quem acreditar Nele há-de fazer milagres. Porque que é que nós que dizemos acreditar em Jesus não fazemos milagres?
Isso faz-nos pensar se realmente acreditamos em Jesus. Acho que sim mas é preciso acreditar de todo o coração. Isso é complicado mas é possível.

Uma coisa interessante também é a simplicidade deste povo e sobretudo das crianças que são uns amores. Logo que ouvem o carro a passar saem todos a correr gritando “ta-ta-vo” e dão um sorriso lindo e puro.

É tudo isto que me enriquece, e dá-me forças para procurar amar mais, dar-me aos outros e dizer “NOXUKURO, PWIYA MULUKU”.

9 de março de 2010

comversão


Raul Viana
Itoculo

As mudanças trazem sempre muita novidade. São mutações físicas e interiores que trazem sempre consigo uma vida nova, mesmo que às vezes seja doloroso esse acontecer. Desde que cheguei aqui a Moçambique estou vivendo várias «conversões», e muitas outras ainda estão para acontecer. Assim, de maneira simples e elementar, deixo aqui a versão de algumas delas:

-Conversão geográfica: passar a linha do equador para o hemisfério sul é passar do Norte desenvolvido para o Sul em vias de desenvolvimento. De facto, quem vem desse «cantinho à beira mar plantado» ao chegar aqui encontra um país economicamente pobre e dependente das ajudas externas. Mesmo assim com os seus limites governativos, algo vai acontecendo, ainda que seja a um ritmo lento.

-Conversão climática: do ritmo quaternário das estações anuais bem definidas, ainda que tudo pareça um pouco alterado, passei a um ritmo binário de tempo seco e chuvoso. Mas o predomínio é a seca e a consequente falta de água que este povo vive. Porém, quando chove, o calor e a humidade fazem toda a diferença com o frio do norte, por vezes marcado com a neve.

-Conversão monetária: o poder da moeda europeia (Euro) nada tem a ver com o frágil Metical sempre a desvalorizar. O salário mínimo ronda os 44€ para aqueles que o conseguem ter. A grande maioria das pessoas vive abaixo de um euro (1€) por dia. Assim, a proximidade e identificação com este povo exige muita conversão/renúncia da nossa parte.

-Conversão linguística: embora o português seja a língua oficial de Moçambique, poucos são aqueles a usam dia-a-dia. A língua macua é a que predomina e quem a desconhece tem «muita fraqueza» na vida de relação e comunicação, reduzindo-se a duas ou três frases iniciais. Enfim, sobre isto haveria muito que falar…

-Conversão gastronómica: um cozido à portuguesa, um bom bacalhau, uma sarrabulhada… deu lugar à Xima (farinha de milho cozida) com o seu caril (conduto). Ao fim de algum tempo fica a sensação e até somos capazes de dizer: «nunca comi tanta farinha!». Talvez seja a reduzida variedade de a preparar, pois a diversidade culinária assenta na grandeza do caril que a condimenta.

-Conversão cultural: de um estilo de vida mais cronometrado passei a uma vida mais temporalizada. Mesmo com relógio no pulso, quem manda é o tempo dado a cada pessoa e cada situação. Vindo de uma cultura marcada pela inter-comunicação e globalização entramos numa cultura bastante fechada nos seus ritos e costumes tradicionais que exige conhecimento, cuidado e compreensão.

-Conversão pastoral: aqui deu-se a passagem de uma igreja com «muitos cabelos brancos» para uma jovem igreja cheia de gente nova. Dentro deste campo deu-se ainda outra mudança: da pastoral vocacional e juvenil para uma pastoral paroquial com tudo o que isso implica. A experiência adquirida simplifica o trabalho, mas as novas áreas que se abriram exigem redobrado esforço.

-Conversão pessoal: esta é a principal e a maior de todas, sobre a qual prefiro não vou falar agora, pois ainda estamos a meio da Quaresma…

6 de fevereiro de 2010

o nosso velho Estêvão


Raul Viana
Itoculo



Num destes domingos do início do ano em curso fui celebrar na comunidade de Quatro Caminhos, Mãe de Deus. Uma comunidade antiga com uma história rica de compromisso cristão. A própria capela, qualitativamente melhor em relação às demais, é um sinal claro desse passado sofredor e resistente.

Era uma dessas visitas surpresa que por vezes fazemos com o fim de encontrarmos a comunidade cristã no seu estado normal e habitual. Pois, quando há marcação prévia de celebração eucarística, tudo fica mais bonito e participativo, pelo menos, para o Padre ver. Por vezes corresponde à verdade, outras vezes não. Embora não seja do agrado dos visitados, para nós serve de termómetro para medir o nível real da comunidade.

Nesse dia saímos bem cedo para evitar chegarmos a meio da celebração dominical que cada Animador, também conhecido por Ancião, tem a missão de orientar. Das setenta e sete comunidades cristãs presentes na Paróquia, sendo apenas dois padres, fica impossível chegar a todas elas no quadro de um período normal de tempo. Algumas delas apenas conseguem ter uma visita anual. Por isso mesmo, são os leigos, devidamente escolhidos e preparados, que orientam este serviço celebrativo da comunidade.

Então, quando chegamos à comunidade Mãe de Deus, fomos dos primeiros. Havia pouca gente para a celebração que habitualmente parece iniciar mais tarde em relação à nossa hora de chegada. Não rejeito a ideia de que com o sentir do carro outros se apressaram em aparecer. Porém, quando começamos a celebração já havia um bom grupo de cristãos.

Como geralmente acontece, iniciamos a celebração com a saudação habitual sobre as novidades de quem acolhe e de quem visita. Após a oração da manhã, à sombra de uma acácia, houve um tempo para celebração da reconciliação e posterior celebração eucarística. No fim da manhã ainda houve tempo para um breve encontro com os jovens e com os «papás» (homens) do conselho da comunidade. Por um lado, ouvimos as suas alegrias e inquietações, e por outro, aproveitamos para dar alguma orientação para a vida da comunidade.

Foi durante esta partilha que nos falaram com muito carinho do «nosso velho Estêvão». Um papá com alguma idade (fará 80 anos em Outubro) que no tempo do regime marxista-leninista moçambicano soube defender sabiamente esta comunidade cristã e seus bens. Foram tempos difíceis, com declarada perseguição religiosa, mas onde a fé foi mais forte, e prevaleceu.

Quando ouvi um pouco desta história fiquei interessado e com a obrigação de visitar e conhecer este «nosso velho Estêvão». Assim, depois do almoço com a tradicional Chima (farinha de milho cozida) acompanhada do seu caril (desta vez era sardinha enlatada), seguimos a nossa visita domiciliária. Passamos numa família onde atendemos uma mamã que tinha os pés inchados. Por sorte estava com Irmã Augusta que é Enfermeira no hospital de Itoculo. De imediato diagnosticou o problema, mas como não tinha medicamento, combinou com o marido da mamã para nos acompanhar até casa a fim de conseguir medicamento.

A meio da tarde chegamos à casa do «nosso velho Estêvão». Era também uma visita surpresa e inesperada. Através da esposa ele soube que na comunidade houve missa dominical. Mas as suas pernas que não lhe permitem fazer grandes percursos, por isso ficou sentado em casa. Aí mesmo o encontramos. Após a saudação inicial não foi difícil ver e sentir o seu rosto radiante de alegria. Sentamos e falamos um pouco recordando esse passado ainda recente e vivo na sua memória e na de outros que aí presentes completavam os factos. E assim, após algum tempo de conversa, regressamos a casa.

Enfim, a vida missionária por estas terras vai-se compondo com este tipo actividades e encontros simples e familiares. Ou seja, não têm nada de especial, a não ser o testemunho daqueles que com pouco, fizeram muito. Casos como este, e até mais comprometidos, repetem-se um pouco por todo o lado na vida missionária. Mas é com eles que aprendemos e crescemos no testemunho e vivência da nossa fé cristã. Recordando-os, permanece o desejo de que nunca nos faltem esses cristãos corajosos e comprometidos capazes de marcar a vida e a história de cada família e comunidade.

25 de janeiro de 2010

A “morabeza” moçambicana

Elson Lopes
Itoculo


Chegando a Matupo, estive 4h sentado, sem poder fazer nada (mesmo as necessidades fisiológicas da nossa natureza humana) por causa de não roubarem a mala.
Quando passava para a sala de espera apresentei a minha mala de mão para revistarem. Entretanto, o senhor que estava a revistar encontrou um frasco de perfume e começou e resmungar que não podia passar com aquilo. Expliquei-lhe que era pouca quantidade e que deixaram passar em Portugal. Ele respondeu: “aqui não é Portugal, é Moçambique”. Depois de tudo disse-me que podia passar mas tinha que dar um “refresco”. Como não sabia o verdadeiro significado de “refresco” aqui, perguntei-lhe se queria cerveja, ele disse não. Disse: então vou comprar sumo, assim fiz. Quando cheguei contei o sucedido ao senhor padre Damasceno e ele riu-se. Não compreendia o porque do riso. Depois diz-me: o “refresco” que o senhor pediu não era sumo mas sim dinheiro.


No avião para Nampula vinha ao meu lado uma criança desembaraçada e esperta, falava bem o português. Durante o voo ela pôs-se a falar comigo fazendo perguntas. Quando nos serviram o lanche (eu já estava com fome) mas ela não quis comer o seu lanche. Então perguntei porque não comia, ela respondeu dizendo que guardava para oferecer ao pai que estava a sua espera em Nampula. Perguntei-lhe se não queria ficar grande como a mãe (que estava do outro lado) ela diz-me que sim e eu disse: então tens que comer. Ela concordou comigo mas comia só uma parte e a outra guardava para o pai.
Conto-vos estas histórias para verem que devemos ser como crianças, como diz o evangelho. Apesar do sucedido na primeira história, aqui quem tem, partilha com o outro, como que é obrigado. Isso é muito bom apesar de favorecer a preguiça.
Uma das coisas que me impressionou também é a “morabeza” (bem acolher) que se vive aqui.

Nas celebrações dominicais almoçamos sempre nas comunidades onde celebramos. Servem-nos sempre o melhor que têm e que podem. Mal a equipa missionária chega, ficam preocupados com o que vão servir e alegres pela nossa presença, sobretudo do padre porque assim vão poder confessar e comungar (maioria das vezes não sabem que vamos porque é surpresa para vermos como anda o funcionamento das comunidades visto que passam meses e meses sem ninguém da equipa passar lá).
Aqui, e não só, há sempre a preocupação de dar algo de comer ao visitante. Quando o visitante rejeita ficam tristes pensando que o visitante está a armar-se melhor do que eles, não querendo ser como eles, comendo do que eles têm e comem. Deve-se ter um espírito humilde. Sinto-me alegre por estar no meio deste povo.

26 de dezembro de 2009

Nawawani & Tekela

Damasceno
Itoculo


A comunidade cristã de Nawawani, aqui há uns dois ou três anos, teve um comportamento pouco cristão, o seu coração perdeu a capacidade de bombear o sangue do amor fraterno que brota do lado de Cristo… pode-se dizer que teve um colapso cardíaco e morreu. Era uma comunidade pequena, com alguma dificuldade em funcionar com a vitalidade duma comunidade normal. Encontrar ali alguém capaz de escrever, ler e, por conseguinte, apto a ensinar catequese ou a dirigir uma celebração dominical era tarefa praticamente impossível. Até aqui nada de especial, é coisa que acontece a algumas pequenas comunidades, que com o tempo e por várias razões (êxodo de cristãos para outras terras, por exemplo) começam a definhar. Quando é assim a solução passa por pedir ajuda a alguma comunidade vizinha. Neste caso a comunidade vizinha era Tekela. Concordou-se que a melhor solução seria unir as duas. Juntas passariam a formar uma única comunidade, mais forte. Ao princípio tudo parecia correr bem: escolheu-se um lugar “neutro”, a meio caminho onde se pudesse construir a capela, limpou-se o terreno e preparou-se tudo para iniciar a construção. De repente, de um dia para o outro, os de Nawawani abandonaram tudo.
O caso foi apresentado em Conselho paroquial e nenhum dos animadores, apesar da experiência e do conhecimento dos mecanismos da cultura macua, parecia entender aquela ruptura de Nawawani. Foi marcada uma nova reunião com os membros de ambas as comunidades, com os animadores maiores da paróquia e nós próprios, os padres. Mas a posição de Nawawani revelou-se ainda mais irredutível: nunca aceitariam caminhar juntos com os de Tekela… e as razões apresentadas para esta decisão tinham a ver apenas com superstições, suspeitas de feitiço e pouco mais.
– Como é possível seguirmos o Senhor Jesus, o Senhor da paz e da misericórdia, de costas voltadas para os irmãos, incompatibilizados com eles?
Fomos perguntando, mas não obtivemos resposta nem sinal de vontade em construir Igreja. Esgotadas todas as tentativas de conciliação, de apelo ao bom senso, foi cada qual para sua casa. Consequentemente Nawawani deixava de pertencer à comunidade Paroquial, à Igreja Católica, enquanto não justificasse ou mudasse o seu comportamento.
Passaram-se os anos. E o filho pródigo voltou, há poucos dias. Sinceramente arrependidos, vieram pedir à Paróquia a reintegração e orientações concretas para regressar à comunhão com os irmãos e vizinhos da comunidade de Tekela. Foram admitidos sob condição: Por enquanto a comunidade de Nawawani é Tekela. Tudo tem que passar por ali. A catequese, actividade importantíssima que, juntamente com a celebração dominical, dá vida à comunidade, é em Tekela. As condições foram aceites e assim que houve oportunidade realizou-se uma grande festa, uma celebração eucarística com a participação das duas famílias desavindas e agora reconciliadas.

Este Jesus de paz tão pequenino é realmente capaz de vencer o pecado tremendo do ódio, da guerra, do desentendimento entre as pessoas, entre irmãos. Temos que o deixar encarnar e têm que ser os cristãos a dar o primeiro sinal de uma nova fraternidade.

Feliz Natal 2009

27 de novembro de 2009

advento... tempo de limpar machamba



Edmilson
Itoculo

Já ouvimos dizer que este tempo em que nos encontramos é destinado às ferias em todas as escolas, de norte a sul de Moçambique, mas este não é o único acontecimento do momento (a nível nacional), pois sabe-se que em todo o país está-se a preparar a campanha agrícola, que se avizinha. Então, neste momento está toda a gente empenhada em arrancar o capim das machambas, para, deste modo, poder avançar para as sementeiras, que estão para breve (pois a chuva está a ameaçar).
Podemos pegar nesta imagem de preparação do terreno para o cultivo, para avançarmos para uma outra realidade da nossa vida: No próximo domingo (dia 29 de Novembro) começa o tempo do Advento, que todos nós conhecemos como sendo um tempo “favorável”, que nos é dado no intuito de prepararmos também o “nosso terreno”, onde não vamos semear nem milho, nem feijão, nem algodão, nem arroz e nem gergelim, pois com certeza estas coisas não poderiam nascer aí. Então que terreno é este, e o que é que iremos semear ali? Pois bem, o terreno de que falo é, sem dúvida alguma, o nosso coração e o nosso espírito, onde o “Grande Agricultor” quer lançar a semente que é o seu próprio filho, e que Ele quer ver a nascer na nossa vida e dar bons e abundantes frutos.

Todos nós, antes de semear, limpamos e preparamos o terreno que queremos cultivar. Há anos em que há mais capim e espinhos e outros em que são menos os espinhos ou o capim menos bravio. Contudo, não deixamos de limpar a campo todos os anos, com maior ou menor esforço, pois sabemos que isso é muito importante para que o campo possa produzir qualquer coisa, e o nosso desleixo pode pôr em causa todo o nosso trabalho agrícola. Assim também acontece connosco: O nosso coração é a machamba onde a semente vai ser lançada, e deverá crescer e dar fruto. Mas isto só é possível se prepararmos bem o nosso terreno. Não podemos pensar que já preparei o terreno no ano passado, mas é preciso fazê-lo sempre e sem desleixo. O tempo de Advento só nos vem recordar isto mesmo. O advento deve ser para nós uma pergunta constante (independentemente da época do ano em que nos encontramos): como vai a minha vida? Será que a minha “machamba” está preparada para acolher a semente?
Devemos estar sempre atentos a isso e fazer de cada ocasião da nossa vida, do nosso dia um momento da presença de Deus em nós. Mas deixo agora uma pequena interpelação: Deus quer semear a semente do seu reino no teu coração, neste preciso momento; e tu? Estás preparado para o receber?
Enquanto reflectes sobre tudo isto, eu vou aproveitando para te desejar um excelente tempo de Advento, e que possas fazer uma boa preparação e que, realmente, o Natal aconteça no teu coração.

23 de novembro de 2009

...no fim de mais um ano lectivo


Edmilson
Itoculo


Mais uma vez, dou a cara, e novidades, também... desta vez para noticiar o momento que se vive aqui, em Itoculo (a vila do milénio). O grande acontecimento que marca este período é o fim do ano lectivo, que traz boas e más notícias (é como tudo). As boas notícias têm a ver com o grande movimento de estudantes; há uns que chegam e outros que partem para a família, a fim de gozar as tão esperadas (e, talvez, merecidas) férias. Por outro lado é o tempo de preparar a machamba, para mais uma campanha agrícola, sempre na expectativa de conseguir boas colheitas. Tudo isto é muito bom, mas tem a parte menos boa: para uns é o tempo de “angústia”, à espera dos resultados (isto para quem não trabalhou, devidamente), é tempo de separar dos companheiros, que, durante todo o ano lectivo, partilharam os momentos bons e menos bons, para outros (os que estão a terminar a 7ª classe) é, ainda, tempo de tratar dos documentos e matrículas nas escolas secundárias, e todos nós sabemos a dor de cabeça que isto é, devido aos vários entraves que são criados pela burocracia, de que já estamos acostumados a ver e ouvir. Outros, ainda lamentam o fruto do seu trabalho (ao longo do ano), que podia e devia ser bem mais rentável. Apesar do ambiente calmo que se vive, para mim, existe um sabor um pouco amargo, pois é um aviso de que está próximo o fim da minha estadia aqui na vila e missão de Itoculo. Por outro lado, este período mais calmo permite que possa concluir alguns assuntos, ainda pendentes.



Mas, desde o fim do ano lectivo, outros assuntos marcaram a “agenda do dia-a-dia” em Itoculo: os que sobressaem mais são as eleições do dia 28 de Outubro deste ano, a chegada de um novo estagiário (que me veio empurrar para fora daqui), que é um jovem cabo-verdiano, que eu já conhecia “kalai” (há muito tempo); ele chegou bem, está bem e preparado para “olima” (trabalhar no campo, isto é, limpar o terreno para cultivar). Confesso que sinto um bocado de saudade do ambiente da escola, dos colegas (professores) e dos alunos. Agora, passando perto das escolas parece um lugar abandonado e sem vida, mas isto é o anúncio de que um novo ano lectivo está por vir. Por enquanto vamos ficar a saudar os amigos e familiares, e a descansar do ano lectivo findo, pois é caso para dizer: «amanhã há mais».

26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...