6 de junho de 2010

Trivialidades (III)
zinco e capim

Raul Viana
Itoculo




O capim é uma erva muito comum por estas bandas. Por todo o lado vemos capim verde, seco, grosso, alto, espalhado, caído… O capim nasce, cresce e desenvolve-se sem precisar de qualquer cuidado humano. Muitas vezes impede uma produção normal, especialmente quando não é capinado (=cortar capim).

No tempo das chuvas desenvolve-se mais que qualquer outra produção. Daí que se tenha de capinar constantemente se queremos ter o espaço habitável e produtivo. Quem se atrever organizar uma produção de capim será bem sucedido, apenas terá dificuldades no escoamento do produto pela enorme concorrência que ele provoca.


A sua utilidade é variada para aqueles que não têm outra oportunidade. A cobertura das casas e a vedação do pátio da casa e da horta é a sua função mais imediata. Depois pode servir ainda para chamuscar o porco, estrumar as terras, fazer ninhos para galinhas… A longa tradição africana mostra que qualquer casa tradicional (palhota) está coberta de capim.

A sua exposição constante ao sol e à chuva, ao calor e ao vento… vão-lhe reduzindo o tempo de vida útil. Ou seja, facilmente apodrece e precisa de ser substituído ou reforçado, o que deve acontecer cada ano.

Para contrapor esta tradicional rotina do povo com capim estão a surgir, para as carteiras mais recheadas, chapas de zinco prateado. Uma solução aparentemente razoável para evitar um trabalho anual de corte de capim e cobertura das casas.


Na perspectiva de um ambientalista ou um arquitecto paisagístico ocidental, poderia dizer-se que estamos perante uma aberração paisagística, desfocando o panorama rural e tradicional. E por uma questão de comodidade está a encher-se tudo com chapas de zinco. Afinal o capim é muito mais natural e conforma-se melhor com a paisagem. Não me parece estar errado este olhar de um qualquer ecologista instalado na sua casa com ar condicionado e com todos os apetrechos de comodidade que o desenvolvimento lhe proporciona!

Na verdade, quem tem de capinar e cobrir todos os anos a sua casa é que sente a necessidade da mudança. Por outro lado, também não ignoramos que esta não é a melhor solução, mas aquela que é possível e mais acessível. Basta fazer a experiencia de entrar numa dessas casas em pleno meio-dia com o sol em pino, ou abrigar-se num dia de aguaceiros para sentir o calor da chapa quente ou o ruído ensurdecedor do bater da chuva. Enfim, entre o possível e o ideal luta-se pelo acessível.

Quanto ao capim, tenho a dizer que iniciei fazer uma pequena produção mas não teve grande sucesso. Em contrapartida, tenho transportado várias cargas de chapa para as nossas comunidades e alguns particulares. Afinal ter chapa de zinco (em casa ou na comunidade) é sinal de poder económico, de progresso e mudança. E a Missão também passa por aqui, esperando que este seja um passo importante para um salto ainda maior.

24 de maio de 2010



TRIVIALIDADES (II)
batuque e panelas

Raul Viana

Itoculo


Para além das capulanas e das bicicletas presentes por todo o lado, temos também os batuques e as panelas que marcam e acompanham a vida deste povo. Dois instrumentos preciosos para qualquer celebração tradicional, religiosa ou outra.

Festa sem batuque é como comida sem sal, ou mais ainda, é como dançar sem música. Simplesmente não é festa. As nossas comunidades cristãs são convidadas a silenciar os batuques durante o tempo quaresmal. Porém, passado esse tempo não mais param de tocar. Um pouco por todo o lado e em todo o tempo se houve o ritmo do batuque que assinala uma cerimónia religiosa ou tradicional.

Com o seu ritmo próprio, cada um dos três batuques acompanha e fortalece o andamento musical e o canto festivo. E tudo isso completa-se com a dança alegre e mexida. Quem já andou por estas bandas de África sabe bem como isto funciona. Todo o corpo vibra e todos vibram com o bater do batuque.

Num destes dias tivemos uma celebração dominical com recepção de Sacramentos, portanto motivo suficiente para uma festa efusiva. Vozes entusiasmadas, palmas bem ritmadas com o corpo embalado ao ritmo do batuque eram sinais de festa. No fim da celebração dois grupos de jovens defrontaram-se a ver qual era o melhor e mais forte no canto e na dança. O entusiasmo era tão grande que nem a chuva os fizeram parar. Os batuques começaram a rebentar pelas costuras, por causa da humidade, mas logo se procuram outros para os substituir. Quando se trata de festa nada nem ninguém faz parar…

Mas só a batucada não chega. É preciso a segunda parte que requer as panelas e seu conteúdo. Assim quando há festa os jovens carregam o batuque e as mulheres levam as panelas e os acessórios. Tudo parece estar bem programado pois tudo acontece de uma forma muito natural e sem grande azáfama. Assim, depois da dança vem a comida e a festa fica completa.

Na verdade quando se marca uma festa de um grupo, comunidade ou ministério logo se tem de pensar no que se segue à celebração: a comida. Não é que seja exigente nem se perca muito tempo com a refeição, pois isso faz-se em pouco tempo, mas estar numa festa e ir para casa com o estômago vazio, não é festa.

É na simplicidade deste povo que aprendemos também a ser simples. Uma realidade que não deixa de ter as marcas de quem ainda vive em busca e preocupado com os bens primeiros e essenciais da vida. Disso são prova evidente os grupos de mulheres que carregam a trouxa à cabeça, o filho às costas e outro pela mão, a caminho de uma qualquer cerimónia.

Enfim, no meio de tudo isto procuramos não ficar fora, mesmo sem muito ritmo para a dança, mexemos um pouco e entramos na festa. Após a celebração entramos também no ritmo do batuque e terminamos com a comida cuidadosamente preparada. Assim nos vamos integrando e interagindo com este povo, pois a Missão também é assim.

14 de maio de 2010

uma bênção


Damasceno
Itoculo


A irmã Alice tinha entregue os melhores anos da sua juventude à missão em Cabo Verde e no Senegal. Depois dispôs-se a servir como superiora da sua congregação em Portugal. E, quando o mundo civilizado ditava que a sua idade era a da reforma, aceitou o desafio de abrir uma nova frente missionária para as Irmãs do Espírito Santo: a missão de Itoculo, em Moçambique, no ano 2005. Juntamente com a irmã Carmo Barros foi pioneira de uma nova página da história da sua congregação.

Agora que chegou o momento de mais uma vez pegar na bagagem e partir, agradecemos… temos que louvar o Senhor. A obra que realizou é extraordinária, revela bem como a árvore estava enraizada em Jesus, porque só assim poderia ter dado tanto fruto. Juntamente com as suas irmãs orientou e fez avançar projectos que muito irão contribuir para o desenvolvimento deste povo: o centro nutricional e o lar feminino são apenas os exemplos que mais se destacam. A missão de Itoculo ganhou um outro colorido com a presença das irmãs. Nestes anos a irmã Alice garantiu que nem na casa dos padres faltassem flores e um pouco mais de arrumação estética. Os terrenos da missão foram bem aproveitados para plantação de árvores de fruto, sobretudo papaieiras, e para o incremento do cultivo hortícola que possibilitou uma melhoria significativa da nossa dieta alimentar. A nível pastoral quem mais beneficiou foram os casais. Com persistência a irmã foi reunindo homens e mulheres para os alimentar com a palavra de Deus. Iniciou-se um novo movimento que se espera venha a crescer e a ser gérmen de uma nova maneira de ser família entre os cristãos desta paróquia: é o movimento família de Nazaré.

A irmã Alice sabe que esta missão foi uma bênção para ela. Trouxe Cristo consigo para O anunciar aos irmãos do povo macua, mas também o encontrou já presente no rosto desta cultura, um rosto surpreendentemente belo. Foi aqui que ela viveu um dos momentos mais importantes da sua vida (cada momento da nossa vida é o mais importante, claro): recordamos por exemplo que foi aqui que recebeu o sacramento da unção dos doentes juntamente com outras pessoas de idade avançada, numa bonita celebração realizada no dia do doente este ano.

Na celebração de homenagem à irmã Alice, realizada há poucos dias com a comunidade cristã, a irmã Rosenir, actual superiora, quis acentuar a dimensão de envio. Não se tratou de uma despedida, mas de um envio. A irmã Alice é uma bênção, e queremos entregar/re-enviar essa bênção missionária a quem tiver a sorte de a receber.

9 de maio de 2010

trivialidades (I)
capulanas e bicicletas


Raul Viana
Itoculo


Cada povo tem a sua cultura, e cada cultura caracteriza o seu povo. Cada povo tem a sua arte, e cada génio embeleza o seu povo. Cada povo tem os seus hábitos, mas em cada tempo a moda impõe o seu estilo… Não sei se isto é moda, mas é uma realidade bem presente no seio deste povo: as capulanas e as bicicletas.

Dizem que as capulanas são o artigo de uso mais frequente em África. De facto, raramente encontramos uma mulher sem uma ou mais capulanas. Desde criança até longa idade todas elas usam este rectângulo de pano de várias cores e feitios. A sua diversidade é grande, e para tudo e mais alguma coisa se faz uma capulana evocando um acontecimento ou sendo a marca de referência de um grupo ou comunidade.

Isto mesmo foi feito na Paróquia de S. José de Itoculo. Nós temos uma capulana própria que as mulheres usam nos dias de festa e nos primeiros domingos de cada mês. Com esse mesmo tecido se fizeram camisas para os homens a fim de ficar o casal completo e bem composto! Podemos dizer que essa é a marca referencial, a nossa bandeira. Onde quer que vamos como grupo colorimos o ambiente!

Na verdade a capulana é usada como forma de saia comprida. É usada para tapar a cabeça do sol. É usada para trazer o filho às costas. É usada como toalha ou lençol. É usada como saco ou bolsa com os produtos da machamba/campo. É usada nas capelas e cerimónias. É usada para enterrar os mortos. Enfim, é usada de mil e uma maneiras.

A par deste elemento muito comum entre os africanos, estão também as bicicletas. Tal como as capulanas, há muita diversidade e modelos de bicicletas. Mas acima de tudo, são usadas numa grande variedade de funções.

Servem para transporte pessoal. Servem para levar os doentes ao hospital. Servem para os animadores visitarem as comunidades. Servem para os alunos irem à escola. Servem para dar um passeio ou fazer um treino. Servem carregar os produtos da machamba/campo. Servem para transporte de mercadorias. Servem para inúmeras funções.

Assim, nestes caminhos irregulares (cheios buracos) com troços arenosos que dificultam a marcha, são muitas as avarias e furos que elas sofrem. Porém, o que mais interpela é a carga que elas carregam. Encontramos muitas vezes bicicletas carregando dois ou mais troncos de madeira, três ou quatro sacos de carvão, galinhas penduradas, cabritos sentados, porcos deitados, etc e tal… parecendo autênticos camiões de mercadorias. Isto sem contar as vezes que também parecem um autocarro, onde vai a família completa, ou as vezes em que são transportes de aluguer para viagens um pouco mais distantes.


Enfim, duas realidades que interpelam quem está nestas terras e que fazem parte do quotidiano deste povo. Quanto à capulana, foi-me oferecida uma delas em forma de camisa que uso no dia da festa da Paróquia e da festa das famílias. Quanto à bicicleta, o uso é muito pouco, embora já me serviu de transporte para ir celebrar numa das comunidades aqui perto. Portanto, não estando ainda totalmente inculturado no esquema local, vou tentando aproximar ao comum das pessoas e seus costumes.

14 de abril de 2010

visita pascal


Raul Viana
Itoculo

Para um cristão consciente e esclarecido viver a Semana Santa em Braga ou em Itoculo é igual. Trata-se da celebração do mesmo Mistério Pascal: Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. No essencial não diferenciamos, existem algumas modificações apenas no plano secundário. Isto é, trata-se de manifestações públicas da mesma fé onde se dão contornos próprios à sua celebração marcados pelo tempo e pelo espaço.

Sendo nortenho, aprecio o gesto bonito da Visita Pascal que decorre no Domingo de Páscoa. Não ignoro que muitas vezes tudo parece girar à volta desta visita a qual parece estar acima de qualquer outra cerimónia Pascal. Contudo, é um sinal bonito de levar a alegria de Cristo Ressuscitado de casa em casa, onde se junta a família e os amigos para acolher essa feliz notícia. Isso recordo com saudade.

Porém, aqui em Itoculo não temos essas tradicionais procissões, essas majestosas cerimónias, esses calorosos Compassos Pascais, esses potentes foguetes de festa ou essas alegres campainhas anunciadoras da proximidade de tal visita. Sinais expressivos de um povo e uma cultura, concretamente, desse norte português. O que temos cá, o qual também não trocamos com ninguém, é a vivência simples e profunda de todo este Mistério Pascal. Nestes dias as capelas são pequenas para tanta gente. O tempo decorre em função da vivência, contemplação e celebração do Mistério Pascal. Simpatizantes, amigos, catecúmenos, cristãos, gente de todas as idades, de longe e de perto, celebram profundamente este acontecimento pascal.

Como na Alta Idade Média da Europa, também aqui se foca bastante a dimensão sofredora da Paixão de Cristo. Talvez por uma questão de vivência limitada e sofredora deste povo que encontra na entrega de Cristo um ponto de encontro com a sua situação existencial. Por isso, não é de estranhar a enchente de pessoas que celebram a Via-sacra, ou a demora diante da Cruz de Cristo em dia de Sexta-feira Santa.


Bonito e enriquecedor é a Vigília Pascal de Sábado Santo. Logo de manhã o Ministro da Comunhão, acompanhado por um cristão, percorre cinco, vinte ou trinta e cinco quilómetros para levar o Santíssimo Sacramento para a Celebração da Noite Pascal. Iniciam a celebração ao início da noite e não mais olham para o relógio. À luz da fogueira, símbolo de Cristo Luz do mundo, proclamam todas as leituras bíblicas e sobre elas reflectem o acontecimento dessa Noite Santa. Na falta de Padre, renovam as promessas do baptismo e terminam comungando o Corpo do Senhor Jesus glorioso. Quando há Padre a presidir, a celebração prolonga-se com o rito dos Sacramentos de Iniciação Cristã.

A noite parece pequena e logo desponta a manhã da Ressurreição, o Domingo de Páscoa que fica marcado por uma simples convivência cristã. Faz-se uma visita aos doentes e idosos da comunidade cristã e vai-se interiorizando o mistério da Ressurreição com a alegria e a festa onde não falta o jubiloso ALELUIA.


Continuação de uma Feliz Páscoa para todos

9 de abril de 2010

que bom estar aqui

Elson Lopes
Itoculo

Já lá vão quase 5 meses que cheguei a Moçambique e quase que não dou conta, pois já me sinto macua. Estou mais rico (não de dinheiro) e mais gordo (1kg) apesar de uma malária que foi leve (dois dias de cama).
Agora compreendo o que sempre ouvi dizer aos missionários, estagiários e leigos que estiverem em terras de missão: nada levei e tudo trouxe. Digo o mesmo: nada trouxe e já recebi muitas coisas. Por isso digo que estou mais rico do que quando vim. Muito aprendi e estou aprendendo cada dia que passa com este querido povo moçambicano, concretamente povo de Itoculo. Já tive lições de vida a nível espiritual e material.

Quando vejo este povo que vive com o mínimo para a sobrevivência, às vezes nem isso, a partilhar, a comer do que tem e quando tem, a aproveitar o máximo do que tem sem deixar estragar e a agradecer mais do que reclamar. Comecei a rever a minha vida, pois eu, graças a Deus, tive o privilégio, se assim posso dizer, de ter muita coisa e até de fazer escolhas. E mesmo assim reclamava mais do que agradecia. Este povo fez-me aprender a reclamar menos e a agradecer mais.


Quando vejo este povo a percorrer quilómetros a pé, por vezes ao sol, às vezes com chuva e fome, para se confessarem e participarem na eucaristia, vejo a minha pouca fé, porque nunca tive que percorrer mais de 2km a pé nem de carro para me confessar e participar numa celebração e às vezes ia só para cumprir o meu dever cristão e de seminarista.

Nos tempos litúrgicos fortes (natal e páscoa) há sempre confissões em todas a zonas da paróquia e enquanto o padre confessa aproveito para fazer encontros com os jovens. Uma vez, um jovem fez uma afirmação e depois fez-me uma pergunta que me fez e faz pensar: na bíblia Jesus diz que quem acreditar Nele há-de fazer milagres. Porque que é que nós que dizemos acreditar em Jesus não fazemos milagres?
Isso faz-nos pensar se realmente acreditamos em Jesus. Acho que sim mas é preciso acreditar de todo o coração. Isso é complicado mas é possível.

Uma coisa interessante também é a simplicidade deste povo e sobretudo das crianças que são uns amores. Logo que ouvem o carro a passar saem todos a correr gritando “ta-ta-vo” e dão um sorriso lindo e puro.

É tudo isto que me enriquece, e dá-me forças para procurar amar mais, dar-me aos outros e dizer “NOXUKURO, PWIYA MULUKU”.

9 de março de 2010

comversão


Raul Viana
Itoculo

As mudanças trazem sempre muita novidade. São mutações físicas e interiores que trazem sempre consigo uma vida nova, mesmo que às vezes seja doloroso esse acontecer. Desde que cheguei aqui a Moçambique estou vivendo várias «conversões», e muitas outras ainda estão para acontecer. Assim, de maneira simples e elementar, deixo aqui a versão de algumas delas:

-Conversão geográfica: passar a linha do equador para o hemisfério sul é passar do Norte desenvolvido para o Sul em vias de desenvolvimento. De facto, quem vem desse «cantinho à beira mar plantado» ao chegar aqui encontra um país economicamente pobre e dependente das ajudas externas. Mesmo assim com os seus limites governativos, algo vai acontecendo, ainda que seja a um ritmo lento.

-Conversão climática: do ritmo quaternário das estações anuais bem definidas, ainda que tudo pareça um pouco alterado, passei a um ritmo binário de tempo seco e chuvoso. Mas o predomínio é a seca e a consequente falta de água que este povo vive. Porém, quando chove, o calor e a humidade fazem toda a diferença com o frio do norte, por vezes marcado com a neve.

-Conversão monetária: o poder da moeda europeia (Euro) nada tem a ver com o frágil Metical sempre a desvalorizar. O salário mínimo ronda os 44€ para aqueles que o conseguem ter. A grande maioria das pessoas vive abaixo de um euro (1€) por dia. Assim, a proximidade e identificação com este povo exige muita conversão/renúncia da nossa parte.

-Conversão linguística: embora o português seja a língua oficial de Moçambique, poucos são aqueles a usam dia-a-dia. A língua macua é a que predomina e quem a desconhece tem «muita fraqueza» na vida de relação e comunicação, reduzindo-se a duas ou três frases iniciais. Enfim, sobre isto haveria muito que falar…

-Conversão gastronómica: um cozido à portuguesa, um bom bacalhau, uma sarrabulhada… deu lugar à Xima (farinha de milho cozida) com o seu caril (conduto). Ao fim de algum tempo fica a sensação e até somos capazes de dizer: «nunca comi tanta farinha!». Talvez seja a reduzida variedade de a preparar, pois a diversidade culinária assenta na grandeza do caril que a condimenta.

-Conversão cultural: de um estilo de vida mais cronometrado passei a uma vida mais temporalizada. Mesmo com relógio no pulso, quem manda é o tempo dado a cada pessoa e cada situação. Vindo de uma cultura marcada pela inter-comunicação e globalização entramos numa cultura bastante fechada nos seus ritos e costumes tradicionais que exige conhecimento, cuidado e compreensão.

-Conversão pastoral: aqui deu-se a passagem de uma igreja com «muitos cabelos brancos» para uma jovem igreja cheia de gente nova. Dentro deste campo deu-se ainda outra mudança: da pastoral vocacional e juvenil para uma pastoral paroquial com tudo o que isso implica. A experiência adquirida simplifica o trabalho, mas as novas áreas que se abriram exigem redobrado esforço.

-Conversão pessoal: esta é a principal e a maior de todas, sobre a qual prefiro não vou falar agora, pois ainda estamos a meio da Quaresma…

26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...