19 de setembro de 2017

A minha caminhada vocacional

entrevista com o Jovem Professo Juma Mário Henriques

-Como surgiu a sua vocação?
Juma: Eu nasci e cresci numa família cristã no dia 09 de Novembro de 1988 e tenho a sorte de ser o primeiro filho dos meus pais dentre os 7 filhos do senhor Mário Henriques Mucalihene e Luísa Chanfar, a qual já está nas mãos de Deus (que a sua alma descanse em paz). Fui baptizado na comunidade de S. Timóteo Mutiapua no dia 23 de Junho de 1998 pelo Pe. Damasceno dos Reis e recebi o Nome de Yohane (João) Mário Henriques (nome que não aparece no meu registo civil) e tenho como os meus padrinhos Alves Samua e Anastácia Juma.


-Como foi a caminhada vocacional?
Juma: A minha caminhada vocacional começa com o exemplo e o testemunho dos Missionários Espiritanos. Fiquei maravilhado com a vida e a simplicidade destes missionários que trabalhavam nesta Paróquia levando a Palavra de Deus nas zonas difíceis de penetrar e aspirava também entrar na Vida Religiosa para viver como eles, principalmente servindo os mais necessitados. Mas não sabia como. Até que um dia ouvi pela primeira vez a falar da vocação por uma Irmã Espiritana que estava na paróquia. Depois, foi a irmã Felecité que me orientou para entrar em contacto com o animador vocacional para ser incorporado na lista dos vocacionados da paróquia. Assim feito, comecei a entrar em contacto com os Padres, especialmente Pe. Damasceno dos Reis, que na altura era o Pároco em colaboração com Pe. Raul Viana que era animador das vocações.

Depois de concluir a 7ª classe na EPC de Itoculo-Sede no ano 2004, parei de estudar num período de dois anos (2005-2006). Neste intervalo ajudava os meus pais a cultivar a terra e fui alfabetizador com o sonho de prosseguir com os meus estudos secundários. Nos anos 2007-2009 continuei com os meus estudos secundários na Escola Secundária de Monapo, onde continuei a ser acompanhado nos encontros vocacionados pelos padres de Verbitas que trabalham no Monapo. No ano de 2008 comecei a entrar em contacto com os padres da Consolata por intermédio dos seminaristas Noé e Joaquim Caetano que conheci no Monapo num dos nossos encontros vocacionais. A 29 de Janeiro de 2010 entrei no Seminário da Consolata, Casa Allamano, em Nampula, onde fiz três anos de estudos. E nos anos 2013-2015 estava em Maputo para os estudos Filosóficos. Terminada a Filosofia fui enviado para Quénia para estudar a língua Inglesa e depois fazer o Noviciado.

A minha caminhada vocacional foi repleta de alegrias, mas também algumas tristezas por exemplo um dos momentos difíceis da minha caminhada vocacional vivi no ano de 2012 quando recebi uma chamada inesperada no dia 29 de julho com uma mensagem que anunciava a perca da vida da minha saudosa mãe.  Eu, sendo o primeiro filho comecei a pensar em regressar do Seminário para cuidar dos meus irmãozinhos, graças aos conselhos dos missionários e missionárias, dos meus professores, e mesmo do meu pai, me deram a coragem de continuar. Ir Adelaide, que todos nós conhecemos, dizia "Maria mãe de todos nós, vai cuidar dos seus irmãozinhos".

O Segundo desafio na minha caminhada vocacional foi a condição económica e social como muitas famílias de Itoculo que vivem da agricultura. A minha família também se sustenta da agricultura que muitas vezes não chega para responder às necessidades básicas do dia-a-dia, principalmente na área da educação e saúde. Assim, para responder às minhas necessidades académicas, trabalhava nos Padres durante as minhas férias junto com outros estudantes da minha idade, e assim conseguia adicionar com o dinheiro que o meu pai conseguia. As palavras do Pe. Damasceno, que as considero proféticas na minha vida, ele dizia numa das nossas conversas "Se é o chamamento de Deus nunca lhe vai faltar o suficiente para realizar o teu sonho ". E de facto a partir dessa altura nunca faltou o necessário mesmo que por mim acho impossível.

- Como foi a celebração da Primeira Profissão?
Juma: É desta maneira que cheguei a ter os Primeiros Votos Religiosos no dia 08/07/2017 em Sagana -Quénia na Paróquia nossa Senhora da Consolata Sagana Catholic Church, tornando-me assim o primeiro missionário da Consolata desta Paróquia que viu nascer a minha vocação religiosa e missionária. Foi um momento inesquecível e ao mesmo tempo um momento de manifestação do amor de Deus Pai na minha vida. Eramos 18 jovens de quatro nacionalidades, a saber: Republica Democrática do Congo, Uganda, Moçambique e Quénia. A Santa Missa foi dirigida pelo Reverendo Pe. Joseph Waitakha, Superior Regional do Quénia e Uganda. A Profissão Religiosa foi testemunhada por centena de cristãos.

-Que perspectivas para o futuro?
Juma: O meu plano para o futuro próximo é de continuar com estudos, na África do Sul, para fazer a teologia que é a última fase da formação sacerdotal. Depois, ir nas terras de missão onde o Espírito Santo quiser que eu esteja, se esta for a vontade de Deus.

-Que mensagem deixa aos jovens de Itoculo?

Juma: Para terminar quero agradecer a cada um de vós pelas vossas orações e conselhos que me ajudaram a realizar o meu sonho de ser religioso. Ao mesmo tempo pedir a cada um de vós irmãos e irmãs de colocar nas mãos de Deus todos os vossos sonhos pois, Jesus o nosso Senhor, nunca vos abandonará.

6 de setembro de 2017

A BELEZA DA VIDA

entrevista com
Ir. Argentina Alfredo

-Como surgiu a sua vocação?
Ir. Argentina: A minha vocação surgiu através dos encontros dos jovens, com uma frase que diz «Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos seus irmãos». Tudo começou em 2006, a primeira vez que eu participei no encontro de jovens na comunidade São José - Itoculo. Com certeza que na minha caminhada vocacional houve dificuldades. Para entrar na escola secundária, tendo falado com o meu pai, ele disse-me que gostaria que eu continuasse os estudos mas infelizmente não tinha condições. Não parei, e fui falar com o meu irmão. Ele começou a desconfiar de mim, dizendo que isso era um motivo para eu ir na cidade e arranjar um homem para casar, e não para estudar. Lembro-me que um dia chorei amargamente, porque eu falava de uma maneira e ele entendia ao contrário, pois pensava que eu voltaria como grávida.

No início do ano lectivo, depois de uma semana de aulas, onde todos tinham partido para escola, eu fiquei sozinha em casa, e um dia uma Irmã me chamou e me perguntou porque não fui à escola. No meu coração, quando a Irmã começou a falar, eu disse-lhe: «fiz tudo por tudo». Então, expliquei-lhe e ela mandou chamar o meu irmão, e ele disse a essa Irmã as mesmas palavras, que não tinha confiança em mim, pois ir na cidade era apenas para procurar um marido. A Irmã disse ao meu irmão para alugar uma casa, e ele arranjou. Mas sempre manifestava que não estava seguro de mim.


-Como foi a caminhada vocacional?
Ir. Argentina: Onde estudava sempre participei nos encontros dos jovens e dos vocacionados. Nesse tempo o meu sonho era para fazer medicina, trabalhar nos hospitais. Entretanto, comecei a ter contacto com as Irmãs Missionarias do Espírito Santo, interessando-me cada vez mais pelo carisma da Congregação: «Ide por todo mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura». Um dia perguntei a uma Irmã se elas trabalham na área da saúde, pois quem sabe se era lá que o Senhor me chamava a ser também Irmã. Ainda estava a fazer os meus estudos na esperança de que um dia as portas se abririam para mim. Não vacilei e terminei os estudos em 2012.

Em 2013 as Irmãs, como me conheciam, me pediram para entrar e começar a primeira etapa de formação, o postulantado. Porém, antes de chegar a data de entrada na casa das Irmãs, o meu pai morreu e uma crise chegou em mim, pois houve momentos de desolação e fiquei desanimada, já não queria mais entrar nas Irmãs. Eis que experimentei momentos fortes e fracos, momentos de desolação e momentos de consolação. O meu irmão que não queria que eu continuasse os meus estudos, lembrou-me das últimas palavras do meu pai no seu último suspiro, chamou-me e disse-me estas palavras: «minha filha escolheste esta caminhada e isso é bom, mas decide bem se entregas com todo o teu coração». São as últimas palavras do meu pai que guardo no fundo do meu coração. Mas creio como futura Missionária, pois a vida missionária tem a sua hora de renúncia, tem a sua hora de graça. Deus dá as graças necessárias, porque não foi fácil deixar minha mãe sozinha. 

De seguida em 2014 fui para o Senegal onde fiz a segunda etapa do postulantado, e aprendi a língua francesa. Em 2015 fui para a França para continuar a minha formação religiosa, onde fiquei dois anos no noviciado. Um ano chamado ano canónico, e um ano com Deus no deserto, para me concentrar naquilo que eu desejava ser, ou naquilo que o Senhor me pedia para ser ou fazer na minha vida. Um verdadeiro discernimento. Neste segundo ano tivemos um estágio para viver em prática o apostolado, e depois fiz a minha Primeira Profissão Religiosa em França no dia 8 de Julho 2017.

- Como foi a celebração da Primeira Profissão?
Ir. Argentina: Tudo o que vivi nesta celebração da Primeira Profissão Religiosa foi uma marca do amor de Deus. Hoje dou graças a Deus pelo dom da minha caminhada, onde Ele me ajudou a fazer deserto nos momentos difíceis e a descobrir que as dificuldades fazem parte da minha vida quotidiana, mas precisam de ser ultrapassadas e continuar a caminhar para a frente. Importa, por isso, viver com alegria e gratidão numa atitude de abertura e docilidade. Como disse a nossa fundadora «A missão não é correr, é deixar que Espírito Santo seja o único móvel e a única vida em nós». Experimento em mim que no compromisso vivido na fé encontro o Senhor em tudo e tenho plena confiança. Cada dia me coloco esta pergunta a Jesus: «Senhor que quereis que eu faça?». Que se faça sempre a Sua vontade não a minha.

-Que perspectivas para o futuro?
Ir. Argentina: A minha perspectiva para o futuro próximo é saber amar como Jesus amou toda a sua vida aos seus irmãos. Por isso estou pronta para partir para a missão no Haiti.

-Que mensagem deixa aos jovens de Itoculo?
Ir. Argentina: Aos jovens gostaria de deixar uma mensagem de atenção para o chamamento que Deus faz, e deixar-se guiar pelo Espírito Santo e pela Palavras de Deus, não ter medo de dar um ‘sim’, e avançar mesmo no meio das dificuldades. Não importa quem és, nem qual e o teu passado. O Senhor está contigo para ajudar-te a caminhar na vida. A todos convido a experimentar a vida missionaria. Rezemos juntas esta oração:

«Senhor Jesus que viestes a terra não para ser servido, mas para servir, ensinai-me a servir-Vos como desejais, livrai-me de toda a procura de mim mesma. Conservai o meu coração bem liberto de todo orgulho espiritual e concedei-me a graça de nunca atribuir a mim o bem que me permites praticar, fazei que eu seja de tal modo repleta do teu Espírito e o teu amor que dando, me seja a Vós que eu me dou». Amem.


30 de agosto de 2017

O voluntariado é amor

(Este post é inspirado por duas coisas, a falta de inspiração para escrever sobre outra coisa qualquer e a necessidade que senti de um testemunho de voluntariado de longa duração quando estava para realizar este sonho, no entanto, toda a informação é pessoal e intransmissível)


O voluntariado deve ser das coisas mais bonitas do mundo, estamos a doar o nosso tempo em troca de uma gratificação pessoal, não o fazemos por dinheiro e atualmente isso parece uma novidade, não fazer as coisas por dinheiro. Aqui não somos só voluntários, somos voluntários missionários, para além de trazermos a coragem de todos os outros voluntários trazemos também a nossa fé, e como ela cresce por estes lados.

Aqui em Itoculo a vertente do voluntariado funciona muito ativamente, os voluntários vêm uns atrás dos outros, o que é maravilhoso, conseguimos garantir a continuidade do nosso trabalho. Nós trabalhamos numa vertente mais social da missão, usamos o nosso conhecimento científico, até agora muito variado, para cada um contribuir com o seu cunho pessoal para o crescimento da missão.

Mas tal como já disse, pretendo ajudar quem está em fase de decisão, para a realização de um projeto de voluntariado internacional.

Devemos ter a consciência que qualquer projeto que realizámos será essencialmente um projeto de crescimento pessoal, isto porque, para que seja muito mais do que isso, temos de doar 3, 4, 5 anos a esse projeto, daí que na hora de tomada de decisão, a duração do projeto seja um factor muito importante. Quando decidi vir por (quase) um ano o que mais pesou nessa decisão, foi o impacto que queria ter na terra que me iria receber, quem nos vai receber também vai ser afectado, logo devem ser considerados na balança. Porquê um ano? Porque quem nos recebe também se afeiçoa a nós e estar criar um sentimento de pertença por um ou dois meses para mim não fazia sentido, atenção, para mim.

Outro factor que devemos considerar é o medo, o medo de deixar a segurança das nossas casas, o medo de deixar a nossa família, o medo de deixar os nossos amigos. Mas, temos de imaginar que vai correr muito bem, e podem ter a sorte que eu tive de encontrar uma família também aqui, como qualquer família tem os seus defeitos e os seus desafios, mas só isso a torna numa verdadeira família.

Existe ainda a saudade (e quanto ela cresce), mas pior que essa saudade é a certeza de que quando tiver de deixar esta terra vai nascer uma saudade muito mais difícil de resfriar, e isso sim assusta.

No entanto, se estão a pensar fazer, façam, existem momentos menos bons, mas os momentos bons, ai os momentos bons, esses compensam e se compensam.

Iniciamos esta semana de trabalho com o mote Deus é amor. Deus é amor, a missão é amor, o voluntariado é amor.

21 de agosto de 2017

Chegar… e partir

A vida missionária é chegar… e partir. A Irmã Hermínia Calipi chegou a Itoculo em Maio de 2013 para a sua primeira missão após a Primeira Profissão Religiosa na Congregação das Irmãs Missionárias do Espírito Santo. Hoje está a partir para outra etapa. Foram mais de três anos que Itoculo beneficiou da sua presença e animação.

Nesta hora da partida queremos agradecer pela participação na vida pastoral desta Paróquia/Missão de São José - Itoculo. Especialmente na promoção feminina das mulheres, acompanhando e animando as mamãs da paróquia neste ministério pastoral. Igualmente no ministério da Infância Missionária que foi bem animado, estando agora em franco crescimento e expensão graças ao seu empenho e dedicação.

A nível da pastoral paroquial são dois ministérios abertos ao futuro. Um pela idade dos participantes, crianças e adolescentes da Infância Missionária, e o outro pela importância das mulheres na vida social e familiar que localmente precisam de grande incentivo. Estamos certos que muitas sementes foram lançadas com o seu trabalho e dedicação e que germinarão futuramente. É verdade que não estamos aqui para colher frutos, visto que isso não depende de nós, mas sempre gostamos de sinais desse trabalho, pois nos dá mais ânimo para futuras atividades. E isso já estava a acontecer e acreditamos que irá continuar.

A par deste trabalho de animação pastoral na Paróquia/Missão, estava também a direção e o acompanhamento das meninas estudantes do lar Eugénia Caps - Itoculo. São raparigas que estudam da 8ª à 10ª classe, algumas delas vindas de situações que exigem uma presença firme e amiga para vencer as dificuldades e abrir novos horizontes nas suas vidas. Outra coisa não se pretende com uma obra social, como é o trabalho com estudantes.

No meio de tudo isto, também não faltou o apoio à Escolinha (Pré-escolar), ao Centro Nutricional e muitos outros trabalhos que a vida missionária apresenta. O contacto amigo com as pessoas do bairro, as visitas às famílias são outros pontos a somar na sua vida missionária.

Assim, neste dinamismo da vida missionária (chegar… e partir), desejamos à Irmã Hermínia muito sucesso para a realização do seu sonho missionário, sempre repleto da Graça de Deus, na fidelidade e na alegria. Também como Maria, «a cheia de graça», rezamos para que a Irmã Hermínia esteja sempre disponível para «fazer a vontade de Deus» onde quer que seja enviada.

Koxukuro, mpakha nihiku nikina.

(Obrigado, até outro dia). 

6 de agosto de 2017

A GRANDEZA DAS PEQUENAS COISAS

Um acontecimento/notícia me motiva a escrever esta partilha. O futebolista brasileiro Neymar transferiu-se do Barcelona para o PSG por 222 milhões de euros e o mundo parou: já não se fala em mais nada nas redes sociais. Não digo que seja algo de irrelevante mas por causa disso fiquei a refletir sobre prioridades. É verdade que hoje em dia os milhões é que movimentam o mundo, mas eu tenho vivido uma experiência completamente diferente (e há muitos como eu) e tenho feito descobertas maravilhosas – mas não suficientemente astronómicas para serem relatadas em todos os grandes jornais do mundo.
Não há nenhum homem – por mais poderoso e forte que seja – que não foi um bebé e uma criança vulnerável e dependente. Mas a história é escrita, geralmente, pelos grandes e poderosos (não é uma crítica). Contudo parei para pensar na importância de pequenas coisas e pequenos gestos na nossa vida e que muitas vezes passam completamente despercebidos no meio de tantas glórias e grandiosidades (até porque estas pequenas coisas são gratuitas e não custam 222 milhões de euros).
Será que temos tempo, hoje, para parar e contemplar o brilho que acompanham pequenos momentos – muitas vezes apelidados de insignificantes – como sentar numa mesa e saborear um cafezinho ou passar uma tarde de domingo a pôr a conversa em dia com o nosso grupinho de amigos. Parece que estas coisas estão perdendo lugar diante dos nossos compromissos e trabalhos; as correrias contínuas matam a nossa capacidade de sentir e de saborear os instantes da nossa vida (como diria o professor/doutor José Tolentino Mendonça).
Por isso partilho alguns destes instantes insignificantes da minha vida que me arrancam sorrisos e enchem de alegria o meu coração: eu fico muito fascinado quando passo de carro pelas estradas de Itoculo e as crianças saem a correr para “dar um tata-vo” (uma forma de saudação) ou simplesmente gritar “Patiri” (padre). Não poucas vezes recebemos chamadas ou pessoas que mandam parar o carro só para perguntar “como está o padre?” (apesar de manifestar grande simpatia, quando estamos atrasados ou com pressa é um bocado «angustiante»). Eu que sou um homem com pouca paciência estou a aprender a importância que isso representa para as pessoas que connosco partilham o quotidiano: cada um destes pequenos momentos obrigam-nos a parar e tomar consciência da importância deste instante, em especial.
Por breves momentos somos catapultados para fora das nossas preocupações e stress… ora, não podemos negar que se trata de um grande desafio, mas as pessoas, pela sua grande simplicidade, nos ajudam a descobrir a riqueza das coisas mais simples e de pequenos gestos. Por vezes passamos por um grupo de crianças e um simples Ihali (forma de saudação na língua Macua) desperta gargalhadas e sorrisos no meio delas (não sei se é só por causa da minha pronúncia engraçada!), mas isso tem significado para elas e para mim.
Emociona-me quando brincamos com os bebés e conseguimos arrancar delas aquele sorriso tão genuíno… o que tem isso de especial? Talvez nada! Mas cada acontecimento destes faz com que cada instante tenha um brilho diferente e um valor singular, capaz de nos encher a alma.

A simplicidade é capaz de nos apaixonar, se tivermos tempo e capacidade de encontrar a grande riqueza que se esconde por detrás de cada pequeno momento de simplicidade. Mas precisamos aprender a contemplá-los e a desfrutar estes momentos. Digo-vos que isso vale a pena… mais do que milhões de euros.

23 de julho de 2017

O meu Bom Dia

Existem várias coisas que me fascinam aqui no povo Macua, algumas é um fascínio bom, outras é mais incredulidade, mas uma das coisas que mais gosto neles é o Bom Dia, aqui cada pessoa tem direito ao seu Bom Dia, não existe um Bom Dia geral, se passamos por 5 pessoas, devemos dizer 5 bons dias.


Se repararmos no simbolismo que isso representa nasce o fascínio, a admiração, nós somos suficientemente importantes para termos direito ao nosso bom dia, quantas vezes nos cruzamos com alguém que conhecemos e até o Bom dia nos custa a sair, perdemos o interesse e a motivação em nos aproximarmos do próximo, do outro, deixamos de ter tempo uns para os outros.

Aqui se há coisa que existe é tempo, tempo para estarmos uns com os outros. Se pela tarde formos passear pelos bairros, vamos perceber que os vizinhos estão nas varandas uns dos outros simplesmente sentados a conversar, só isto e isto já é tanto. Talvez a culpa desta disponibilidade seja a inexistência de Instagrams, de facebooks, de distrações que nos dão a ilusão de que temos uma vida social ativa.

A acompanhar o Bom dia vem o Iháli? (Tudo bem?) e esta pergunta vem com verdadeiro interesse em saber a resposta e quando retribuímos a pergunta respondem com tanta sinceridade, contando de verdade o que se passa na vida deles, que muitas vezes a resposta é desconcertante, está tão carregada de verdade que na maior parte das vezes não sei o que responder. Este pequeno gesto surpreende-me porque onde eu vivia há 6 meses atrás não havia tempo, nem disponibilidade, para verdadeiramente responder a esta pergunta, nem verdadeiro interesse na resposta que nos poderiam dar.

Pode parecer um clichê barato, mas aqui damos muito mais valor às coisas banais da vida, damos mais valor à companhia uns dos outros para contar as novidades mais corriqueiras do nosso dia, damos mais valor à vida, porque sabemos o que custa sobreviver, damos mais valor ao amigo, à família, porque o tempo custa a passar sem companhia.

10 de julho de 2017

PARABÉNS JUMA E ARGENTINA

A Paróquia de São José em Itoculo (Diocese de Nacala) começa a dar os primeiros frutos a nível da vocação para a Vida Consagrada. No dia 8 de Julho de 2017 dois jovens (Juma e Argentina) fizeram a sua Primeira Profissão Religiosa. Uma feliz coincidência na data e no compromisso religioso. Parabéns para estes dois jovens e votos de feliz e fiel caminhada na vida consagrada e missionária nas suas novas famílias religiosas.


O Juma Mário nasceu em Muthiapwa-Itoculo em 1988, fez a escola primária em Itoculo, continuou a escola secundária em Nacala-a-Velha, terminando em 2011 a 12ª classe. No ano seguinte entrou no Seminário dos Missionários da Consolata, primeiro em Nampula depois em Maputo onde estudou a Filosofia e fez o Postulantado. Em 2015 foi para o Quénia (Nairobi) onde estudou inglês e fez o Noviciado que terminou com a Profissão Religiosa no dia 8 de Julho de 2017. 

A Argentina Alfredo nasceu em 1990 em Itoculo sede, aí estudou o ensino primário, depois estudou na Escola Feminina de Nacala e na Ilha de Moçambique onde concluiu a 12ª classe em 2012. No ano seguinte entrou na comunidade das Irmãs Missionárias do Espírito Santo em Itoculo e depois foi para o Senegal fazer o Postulantado e aprender o francês. Em 2015 foi para França (Paris) fazer o noviciado que terminou com a Profissão Religiosa também no dia 8 de Julho de 2017.


Em 2009 quando cheguei a Itoculo estes dois jovens integravam o grupo dos vocacionados da paróquia. Acompanhei-os na etapa final antes de seguirem para cada uma das Congregações onde acabaram de Professar. É uma alegria ver o fruto que agora aparece e vai amadurecendo nesta grande árvore da Igreja de Itoculo-Nacala

Trata-se de uma semente que foi lançada á terra e agora começa a germinar. Outras sementes foram lançadas e estão em processo de gestação, e acreditamos que num futuro próximo também irão desabrochar. É o caso de um jovem (Vihene) que está a fazer o seu noviciado nos Franciscanos. Outros jovens estão a fazer o Postulantado e estudo da Filosofia nos Verbitas, nos Salvatorianos, nos Espiritanos e no Seminário Diocesano (12 rapazes), e uma menina está nas Irmãs da Apresentação de Maria.

A Paróquia de Itoculo conta actualmente com um jovem sacerdote diocesano (Pe. Bartolomeu) ordenado em 2008. Desde a criação da Paróquia em 2004, com uma Equipa Missionária residente (Padres, Irmãs, Jovens Estagiários e Leigos Voluntários Missionários), este tem sido um trabalho pastoral ao qual damos muita atenção e carinho. Trata-se, pois, do crescimento e estruturação de uma Igreja jovem que também está aberta a esta forma de vida e consagração. O exemplo destes dois jovens é uma afirmação clara que também irmãs e irmãos consagrados, sacerdotes e missionários podem desabrochar do seio das famílias cristãs de Itoculo. Assim, acreditamos que o exemplo destes primeiros compromissos religiosos vão ser sinal de luz e coragem para aqueles que estão nos Centros Vocacionais a fim de descobrirem a beleza e a alegria deste compromisso de vida.


Enfim, toda a Paróquia de Itoculo se alegra com estes jovens professos e deseja que, na fidelidade e total entrega a Deus e à Igreja, eles possam encontrar a verdadeira felicidade e fazer muitos outros ainda mais felizes pela sua consagração. Parabéns Juma e Argentina.

Ó Maria, Rainha das Missões, dai-nos muitas e santas vocações!

  

26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...