26 de junho de 2018

VOZ DA MISSÃO

A Solenidade de S. João Batista celebrada na comunidade de São (santa) Mónica, Murucurucuni!
Entre perdidos e achados, uma viatura com quatro missionários, em vias da evangelização! Transportava uma equipa composta por um Padre, uma leiga, um seminarista e um estagiário. Ora bem, apesar do massacre dos caminhos, supostamente estradas, chegamos e estamos vivos (nakumi).
Chegamos por volta das 7h30m. Eram 8h00, ainda a porta do Senhor, que não habitual, estava fechada para os seus colaboradores. Trabalhar na messe do Senhor não é tão fácil quanto parece! O cenário, quando chegamos foi: a casa do Senhor fechada; uma viatura e quatro missionários; rostos comprometidos e surpreendidos das famílias que vivem ao redor da casa do Senhor, para com a chegada dos quatros missionários, pois era uma celebração não marcada (missa surpresa) e nada estava preparado. A casa do Senhor que, em princípio, seria para louvar o Senhor, estava no modo de celeiro, guardava feijões. Pronto, na ausência de pessoas crentes e participantes, ao menos temos feijões crentes, vigiando o Senhor. O Senhor faz maravilhas, acreditamos!
 Entretanto, o ancião da comunidade, num instante, saiu a correr a chamar os fiéis e, de que maneira, que não tardaram a chegar, mas atrasaram. Enquanto isso acontecia, a equipa missionária encontrava-se espalhada no campo da missão, cada um ocupando a sua posição, bronzeando, no meu caso carbonizando, no belo sol de manhã que estava. Notava-se um sorriso tímido da parte dos aldeões, mas o sol sorriu calorosamente para nós. Nas crianças, o mesmo, notava; mas com o tempo o Pe. Amigo dos mais pequeninos, na verdade, um pai carinhoso para com os mais pequeninos, a seu jeito, deu volta à situação.
Enquanto, as mamãs e papás que vinham à casa do Senhor, pouco me parecia que era o costume ir à casa do Senhor aos domingos, à medida que cumprimentávamos partilhavam as infelicidades, problemas de saúde e as suas preocupações.
O impossível é encontrar alguém, da parte das mamãs e dos papás, que diz: «está tudo bem». Infelizmente há sempre uma queixinha por fazer ou partilhar. A missão que vai ao encontro dos pobres, dos frágeis, dos mais debilitados, resume-se na partilha do pouco e que, curiosamente, acaba por ser muito. O engraçado é que, seja qual for a comunidade, a presença da equipa missionária deixa a comunidade sempre com um sorriso estampado no rosto, mesmo que a comunidade tenha motivos para chorar.
Ponto alto do dia foi quando uma mamã, acompanhada da sua bebé ao colo, falou connosco. Como missionários, sendo amigos do povo e carinhosos para com o povo, perguntamos o nome da bebé, e não é que a mamã já tinha esquecido o nome da sua bebé!? Era só dizer “Florinda Samuel”, mamã!
Reunida a comunidade, com a oração de manhã, apesar de que já tinha passado a hora, momentos de reconciliação e o santo sacrifício (a missa) comungamos da mesma comunhão! No geral a celebração litúrgica, ao estilo “macua”, «corria boa, os jovens animou bem com os cânticos». Terminada a celebração, que é momento de conversar, rezar, cantar e dançar com o povo, aproximava-se a hora de regressar a casa. Mas não podíamos regressar sem antes saudar/saborear a mana “xima” e o mano “caril de frango”. É a missão, é a solenidade de S. João Baptista, é a Igreja, somos nós professando a mesma fé, comungando a mesma comunhão! O certo é que fomos à casa do Senhor, o Senhor fez maravilhas, ficamos maravilhados; então que o digam os que foram, e que vão sempre à casa do Senhor aos domingos. Com o coração inflamado pelo amor do Senhor e uma alegria contagiante, o regresso foi mais suave, apesar do ataque do feijão macaco pelo caminho a alguns membros da equipa missionária! É a Missão…mas NAKUMI!!

Gil. D. Borges, in «pró-missão 1», Itoculo aos 24.06.18


13 de junho de 2018

NOXUKHURU, Sr. D. GERMANO


A diocese de Nacala, desde a sua criação, há 27 anos, teve como seu bispo D. Germano Grachane. Depois de completar 75 anos de idade, como manda o direito canónico, o papa escolheu novo bispo para a diocese de Nacala: D. Alberto Vera.
Chegou, assim, o momento de agradecer o Sr. D. Germano pela vida doada e pelo trabalho feito na nossa diocese, mas, como ele mesmo salientou, não se trata de uma despedida, mas sim de graças a Deus por tudo o que foi feito nestes 27 anos de caminhada diocesana e por esta semente que foi lançada e que marca o início da caminhada desta igreja particular de Nacala.
Para D. Germano, certamente, este é o momento de fazer balanços, preparar mudanças e de perspectivar novos rumos. A diocese de Nacala sente-se na obrigação de parar para um agradecimento profundo àquele que foi o seu primeiro bispo diocesano e que passou tantos anos ao leme desta barca de Cristo. Neste sentido, está-se a organizar nas três zonas pastorais (vigararias) que constituem a diocese uma celebração de acção de graças e de agradecimento a D. Germano. Neste périplo pelas zonas pastorais da diocese, no passado dia 10 de Junho, coube à zona pastoral da Carapira (da qual faz parte a missão de Itoculo) prestar a sua homenagem o bispo cessante.
Foi uma celebração simples, mas bastante viva e sentida, onde todas as paróquias e equipas missionárias da zona pastoral se fizeram presentes de forma muito especial. Além das palavras e das ofertas, ficou bem patente a simpatia e amizade que se criou ao longo destes anos. Como foi muitas vezes salientado, o nome de D. Germano estará sempre marcado na história da nossa diocese e gravado no coração cada membro desta diocese (não fosse ele o seu primeiro pastor): a semente que foi lançada neste cantinho moçambicano vai continuar a crescer e frutificar. Isso significa que estamos numa transição para a nova etapa na nossa caminhada diocesana mas não no fim do caminho; temos pela frente ainda novos horizontes a atingir e desafios a ultrapassar, na construção de um Moçambique melhor.
Termino com uma expressão do próprio D. Germano, na Carapira: “é bonito quando alguém vai para a reforma por causa da idade!” Que este sentimento de dever cumprido o acompanhe sempre e, especialmente, na nova etapa da sua vida.

NOXUKHUR’ELA VANJENE BISPO AHU, D. GERMANO!



18 de abril de 2018

Nas periferias da Beira, Chimoio, Nampula e Nacala


Maputo, Beira, Nampula, Nacala…eis as terras por onde passei nesta visita guiada à Missão Espiritana por terras der Moçambique.
Para os Espiritanos, tudo começou em 1996, quando seis Padres foram nomeados por Roma. Três chegaram a Inhazónia, no Chimoio, quase na fronteira com o Zimbabwé. Outros tantos foram para Netia, no interior pobre e abandonado da Diocese de Nacala. A guerra, terminada oficialmente em 1992, ainda ‘mandava’ naquelas paragens, por onde passou com muita violência. O abandono religioso, a que a revolução da independência votou os moçambicanos do interior, fez destas Missões espaços de primeira evangelização, ou quase!

Moçambique a mudar


O país cresce, como quase todos, a diversas velocidades. Os centros das cidades (Maputo, Beira, Nampula…) aceleram o desenvolvimento com novas e modernas construções de bancos, empresas, centros comerciais, hotéis… As estradas que ligam as grandes cidades estão bem e a melhorar, regra geral, como acontece na ligação rodoviária entre a Beira e o Chimoio, dando ligação para o Malawi e o Zimbabwé. Mas as periferias continuam pobres e abandonadas e o interior passa quase ao lado do progresso, sem estradas, escolas, hospitais que valham ao povo simples que ali mora.

Há empreendimentos agrícolas em curso que podem desenvolver o país, é certo, mas que tiram aos pobres agricultores os seus cantinhos de terra. O agronegócio está a ser muito contestado pela Igreja, por causa dos danos colaterais que vitimam as pessoas mais frágeis. A doença do Panamá deu cabo da produção de bananas. As chuvas intensas do início do ano destruíram casas, caminhos e culturas, sobretudo no norte e centro.

A liberdade, nas suas várias expressões, deixa ainda muito a desejar. Não se pode aceitar o assassínio do edil de Nampula nem o rapto e tortura do jornalista Ericino Salema (em Maputo), de que as autoridades judiciais não descobrem os autores. Há muitos postos de recenseamento eleitoral, mas desconfia-se sempre dos resultados das eleições. O mundo da política está envolto em suspeitas graves por causa das ‘dívidas ocultas’ do governo que ninguém quer assumir nem pagar, embora os credores internacionais ameacem.

Nas periferias da Beira

Os Espiritanos inauguraram, há dois anos, uma comunidade nas periferias da Beira que é hoje um pequeno Seminário. Tem seis jovens, apoiados por dois padres (Nicholas - zambiano e Mango - nigeriano) que se encarregam da nova paróquia da Natividade, situada nas periferias pobres e alagadas da cidade. Ali vivi o domingo de Ramos, com uma procissão feita a partir do início geográfico da paróquia, com caminho aberto pelo carro da polícia. Depois, já na nova estrutura que é a Igreja, houve bênção e Missa de Ramos, com a participação de uma multidão de povo, sobretudo crianças e jovens. Nesta mesma Igreja, ali celebrei a Missa de Quinta-Feira Santa, com o lava-pés. Com as chuvas violentas desta época, todos os caminhos e quintais se transformam num charco intransitável e gerador de doenças, dada a proliferação de mosquitos nestas águas sujas e paradas.

A Igreja na Beira continua a celebrar a memória viva do seu primeiro Bispo, D. Sebastião Soares de Resende.

Em Inhazónia e Chimoio

São longas as distâncias que se percorrem em Moçambique. Com o P. John Kingston, percorremos os 200 kms que separam a Beira do Chimoio, para juntar mais 160 até à Missão de Inhazónia, num interior pobre e abandonado, por onde a guerra civil passou e fez muitos estragos. Ali chegamos no meio de uma tempestade tropical que levou a energia, toda ela vinda da barragem de Cahora Bassa. Na área da Missão, os Padres John (irlandês) e Joseph (nigeriano) são apoiados pelas Irmãs do Coração de Maria e Reparadoras do Sagrado Coração de Jesus. Assistem 30 e tal Comunidades, estando a mais distante a 210 kms, por caminhos de terra batida!

De regresso ao Chimoio, a Terça-feira Santa foi de reflexão para todos os padres, Missa Crismal com o jovem Bispo, D. João Carlos, e jantar com o clero.

Presença em Nampula

Nampula cresce para todos os lados, como acontece a boa parte das cidades africanas. Numa das periferias, os Espiritanos tomam conta de uma paróquia com quatro grandes comunidades: S. João de Deus, S. Rafael, S. Simão e Cristo Rei. Foram fundadas pelos Irmãos de S. João de Deus, idos de Portugal, que ainda lá estão a viver e a trabalhar. Ali vivi uma longa Via-Sacra pelas ruas de S. Rafael, em Sexta-Feira Santa, seguida da celebração da Paixão e Morte de Cristo. Foram muitas horas de Fé intensa e transpiração em bica, tal o calor abafado que se sentia neste ambiente aquecido pela concentração de largas centenas de pessoas. Pude visitar, mais tarde, a Escola de S. Rafael e a Creche de S. Simão, espaços pequenos e sem condições para acolher tantas crianças com fome e sede de aprender. A Comunidade Espiritana é muito internacional, com os padres Alberto (angolano), Desmond (irlandês) e Makimba (congolês).

S. José de Itoculo

A Missão Espiritana tem expressões muito plurais porque tem três Padres (Raul – português, Edmilson – caboverdiano, Vincent – ganês), quatro Irmãs (Ir. Eduarda e Ir. Adelaide – caboverdianas, Ir. Paula- angolana e Ir. Tatiana -centro-africana), o jovem estagiário Gilberto e a Voluntária JSF Cristina. Apoiam 79 Comunidades que se estendem por uma longa geografia de terra batida que, nesta época das chuvas, tornam as visitas muito complicadas. As Irmãs dirigem um Lar de 50 meninas que, residindo na vila podem ir à Escola e têm também uma Creche e um Centro Nutricional. Os Padres dirigem o Centro Pastoral (de formação dos leigos), o Lar de Rapazes e a Biblioteca. Percorrem toda esta área para celebrações e acompanhamento pastoral das Comunidades.

Tive a alegria de viver uma longa e festiva Vigília Pascal, presidida pelo P. Edmilson na Igreja da Missão. Na manhã de Páscoa, fizemos quase duas horas de picada para chegar até Cristo-Rei de Djipwi, onde se celebrou, com muita festa, a Páscoa, presidida pelo P. Raul. Em todas as celebrações pascais houve baptizados e casamentos. Nas paróquias Espiritanas de Nampula e Nacala houve, nesta Páscoa, mais de mil Batismos de catecúmenos! Como sempre acontece em contexto macua, quer no fim da Vigília quer no fim da Missa de Páscoa, houve a tradicional refeição de ‘Xima com frango’, o prato festivo que junta farinha de milho cozida com frango de campo, uma prova forte para dentes que não sejam fracos como os meus!

Na viagem entre Nampula e Nacala (Itoculo) impus paragens obrigatórias nas Missões Combonianas de Carapira e Anchilo para encontrar a Irmã Clarinda e o Irmão Neto. Este trabalha no grande Centro Catequético que publica a revista ‘Vida Nova’. Em Maputo, fui acolhido e mimado pelos Combonianos, os Padres Constantino, Paulo e Albuquerque. Em Nampula, reuni com o P. Benvindo, diretor da Rádio Encontro.

Que Missão agora?

20 anos depois, o panorama está muito mudado. Os Espiritanos mantêm-se em Inhazónia e mudaram de Netia para Itoculo. Foram abertas comunidades em Nampula e na Beira. Sempre com os mais pobres, nas periferias. Tive a oportunidade de visitar as quatro comunidades, encontrar os Espiritanos e Espiritanas que, por terras de Moçambique, partilham o dia-a-dia sofrido dos povos com quem vivem. Celebrei o domingo de Ramos e a Páscoa. Regressei de coração cheio, convencido de que ali se escrevem grandes páginas de Evangelho no meio de enormes dificuldades, mas muitas alegrias. O futuro dos Espiritanos em Moçambique está a gritar por mais presença, mais investimento, mais Missão.

Tony Neves

31 de março de 2018

PASSAR DA MORTE À VIDA

Estamos a viver, nesta semana especial, o acontecimento maior da vida da Igreja. Tal nos convida a dar passos cada vez maiores no nosso compromisso de fé. Cada ano a liturgia nos propõe uma caminhada com Cristo para a morte e a ressurreição contínua. A semana santa, com a sua riqueza incomensurável, nos mergulha com Cristo na sua morte para, de modo tão admirável, nos fazer ressurgir para a vida nova no Espírito Santo.
O tríduo pascal é sem dúvida o ponto alto da semana santa e o culminar da caminhada quaresmal, proposta pela sagrada liturgia romana. A vivência deste tempo forte, na nossa realidade missionária, suscitou em mim esta reflexão que pretendo exteriorizar neste texto em forma de uma partilha informal.
Durante estes dias, entre momentos mais reflexivos e outros mais festivos, a imagem da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo aparece, como nos apresenta São Paulo, como o centro da vida cristã e do anúncio da salvação. E eu me pergunto: será que, numa realidade onde o sofrimento e a dor nos entra pela vista adentro, continua a ser pertinente o anúncio da cruz de Cristo? Ou ainda: num mundo onde cada vez mais se tende a evitar, esconder e olhar para a dor, o sofrimento e a morte como algo quase obsceno, ainda faz sentido um anúncio que leva como estandarte a mensagem do Crucificado? Diante desta inquietação, só uma resposta me pareceu plausível e adequada: hoje mais do que nunca o mundo precisa escutar esta mensagem e aprender a lição da suprema doação materializada na Cruz de Cristo.
A mensagem do Calvário não é anúncio de uma desgraça, da mesma forma que o acontecimento do Gólgota não é nem nunca poderia ter sido uma fatalidade ou o infortúnio de um mensageiro não compreendido pelos seus contemporâneos. Ao olhar para a cruz, o que vemos é um dom incondicional e o amor maior que o ser humano jamais pôde contemplar. É o verdadeiro amor que Deus sempre manifestou para com o Homem, agora, incarnado na doação total do próprio Filho do Altíssimo. É grande este mistério! Não menos importante é a mudança que isto acarreta sobre a nossa maneira de ser e de viver; antes de mais o sofrimento já não pode ser visto como uma desgraça do destino, mas podemos olhar para ele como possibilidade de manifestação do dom. A morte também pode ser o lugar de graça e de esperança. Se, na sua morte, Cristo nos deu a vida, isso significa que a morte pode ser a semente lançada à terra para que a vida germine e cresça.
Se olharmos assim para a nossa vida, certamente, a dor e a morte poderão também encontrar um lugar no seio da nossa existência. Quando conseguimos integrar a morte e o sofrimento na nossa vida e na nossa sociedade, mais facilmente compreenderemos que o único caminho para viver bem e com dignidade não é a fuga, mas a doação. Abraçar a cruz de Cristo é também passar pelo monte das Oliveiras e viver a noite da dor e da solidão em atitude de esperança. O que torna a dor ainda mais insuportável é o desespero e o sentimento do vazio: se não houver a esperança de que ainda resta algo pelo qual eu posso lutar e que está ao meu alcance, a dor se torna desumana e a eutanásia, o suicídio ou outras formas de «não-vida» se apresentam como a única solução viável. Ora, em Cristo aprendemos que a morte não significa «não-vida», mas também é um lugar onde Deus se manifesta. Será que no mundo de hoje já não há lugar para esta mensagem? A nossa sociedade pode ser privada deste anúncio? E se nos omitirmos a esta missão, quem pode levar esta mensagem de vida aos Homens de hoje e de amanhã? Que neste tempo pascal cada um de nós possa levar esta Cruz de Cristo gravada no nosso coração ao encontro dos irmãos. A Páscoa nos convida, em cada ano, a olhar para a cruz e ver, não já o instrumento de suplício, mas sim a árvore que produz frutos de vida divina. A todos uma feliz e santa Páscoa, repleta das maiores bênçãos de Cristo o cordeiro de Deus que nos salva do pecado.

2 de março de 2018

Um mês de Itoculo...


Um mês de sol, de sorrisos, de terra vermelha, de buracos na estrada, de capulanas de cores vivas, de muitos "ta ta vó" a caminho das comunidades, de encontro com Deus, de muitos nomes, de Macua, uma língua que não entendo, mas que começa a tornar-se familiar aos meus ouvidos... Um mês de muitas novidades, "Ihali?", palavra que se repete todas as vezes que nos cruzamos com alguém que, não cumprimenta somente, mas também pára para saber as novidades daqueles que vivem na sua comunidade e fazem parte dos seus dias. " Salama!", "Está tudo bem!", nem sempre é a resposta que se ouve, porque a resposta é sempre sincera... "Normal!, Doença!, Fome! Malária!" são algumas das respostas que diariamente ouvimos por aqui. Acima de tudo, tem sido um mês de muitas pessoas, pessoas que enchem o meu dia e que alentam o meu coração que ainda fica pequenino quando vê as dificuldades do povo e os desafios dos cristãos e sente as necessidades das crianças e dos jovens, que, muitas vezes, agigantam-se de tal forma que parece não haver maneira, não haver lugar para a esperança nos seus corações.

Procuro caminho e em Deus encontro direção para dar o melhor de mim e tentar ser um pouco dessa esperança que parece perdida. Aqui e aí, Deus chama-nos, a todos os Cristãos, para olharmos para o nosso Irmão e colocarmos ao serviço todos os dons com que Ele nos abençoou. Tenho aprendido com aqueles que me acompanham nesta missão que esses dons são sempre mais do que julgamos... podemos sempre dar um pouco mais de nós. Basta voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida, como nos diz o Papa Francisco na mensagem para esta Quaresma, mensagem que ressoa nas palavras dos padres da missão, sempre que falam às comunidades... mais do que ler o Evangelho, Deus quer que O vivamos!

Um mês de Itoculo...um mês que veio transformar a casa me recebeu no meu lar, um lar que acolhe todos os que aqui estão, todos os que por aqui passaram e todos os que nunca estiveram em Itoculo, mas têm o seu coração aqui. O Itoculo do P. Pedro, do P. Damasceno, da Rita, da Xana, da Joana, do Miguel, da Ernestina, da Helena e de tantos outros tornou-se também o meu Itoculo... a missão é a minha casa e eu encontrei o meu lugar! Estamos vivos, estamos juntos e juntos continuaremos a caminhar com e pelo povo de Itoculo. 

25 de janeiro de 2018

UMA DÚZIA

Quem vai ao mercado, ou à feira, pode facilmente ouvir dizer que «à dúzia é mais barato». Aqui na Missão de São José – Itoculo este ano, com a recém-chegada Cristina Fontes, completamos uma DÚZIA de Leigos Missionários Voluntários nestes 14 anos de presença espiritana em Itoculo. Muitos outros Padres e Irmãs Missionários do Espírito Santo, e também os jovens estagiários espiritanos em formação (até ao momento já somam 9 estagiários), ajudaram a embelezar esta Missão, sempre no ritmo missionário de chegar e partir.



Mas com a chegada da Cristina, no dia 23 de Janeiro deste ano, completa-se o total de 12 Voluntários/as que marcaram presença e deram uma parte das suas vidas a esta Missão. Cada um na sua área profissional de formação deu o seu contributo generoso que recordamos com grata memória. A diversidade da acção missionária local acolheu cada um na sua particularidade, e também permitiu descobrir novos talentos que a necessidade obrigou a despontar. Cada um que o diga!

Trata-se de uma lista que começa a meter respeito!

1-Logo no início, vindo ainda da Missão de Netia, estava o enfermeiro Christophe Héveline (francês-2003). E numa missão, não muito distante, estava Natacha, que não esquecemos.

2-Depois veio o Hugo Rodrigues (JSF de Tires-2004) que os alunos recordam como bom professor de português, mas muito exigente.

3-Seguiu-se a Engenheira Celeste Reis (de Lisboa-2006) que ajudou a construir o Centro Paroquial São Francisco Xavier que ainda hoje permite a formação de muitos agentes de pastoral.

4-Depois veio a Joana Pedro (JSF de Monte-Abrãao-2008), também formada na área da engenharia ambiental e animadora de jovens.

5-Continuou com a Ernestina Falcão (de Esposende-2010) professora de biologia e amante dos livros e da leitura, promotora das escolas comunitárias.

6-Outra Joana (JSF de Serzedelo-2012) ocupou o lugar valorizando ainda mais os livros e a biblioteca, não fosse ela arquivista de formação!

7 e 8-Uma dupla, Xana Martins (JSF de Mértola-2013) e Rita Coelho (JSF de Lordelo-2013) e , animaram a juventude e inauguraram a nova biblioteca. Pouco antes tinha chegado a Clemence, enfermeira francesa, mas que não foi autorizada pelo governo moçambicano a trabalhar na área da saúde e regressou.

9 e 10-Seguiu-se a Babuxa (de Sintra-2014) e o Miguel Campos (JSF de Carvalhal-2014) que coordenou os trabalhos na construção do Lar masculino de estudantes para acolher 40 rapazes este ano.

11-Mais recentemente a Helena Carvalho (de Braga-2017), economista de formação mas empreendedora e muito ‘faladeira’ por natureza.

12-E agora a Cristina Fontes (JSF de Fiães-2018) professora de português e inglês e outras coisas que vamos descobrir, e que ainda não podemos dizer…

Uma lista que merece ser continuada pela riqueza da sua diversidade. Se alguém ainda tem dúvidas destes da grandeza e da pertinência destes projectos, aqui fica esclarecido. Também, se alguém ainda hesita em arriscar dar um passo que leva a viver este tipo de Missão, aqui mesmo encontra muitos exemplos de entrega e dedicação. Parabéns a todos/as que por aqui passaram e nesta Missão deixaram as suas marcas. Agora estão um pouco distantes fisicamente, mas tentando sempre ficar próximos. A todos reafirmamos esta certeza que estamos juntos!


Para a Cristina Fontes damos as boas-vindas com votos de boa missão por terras de Itoculo, na Diocese de Nacala.

20 de janeiro de 2018

DEPOIS DAS CHUVAS INTENSAS

O dia começou com uma chamada telefónica do animador de uma zona da paróquia a informar que muitas casas caíram com as chuvas que se fizeram sentir esta semana. Dois dias antes o jovem de uma comunidade informava que na sua comunidade caíram 35 casas. No dia seguinte rectificava e dizendo que subiu para 78, e hoje confirmava serem 85 casas, com possibilidades de aumentar nos próximos dias. Tudo isto resultou de um SMS enviado aos animadores para recolherem os dados e trazerem para o Conselho Paroquial a realizar-se no final do mês.

Após o mata-bicho, juntamente com o jovem Gilberto, seminarista estagiário, demos uma volta pelos bairros, era a sua primeira incursão a fundo por Itoculo. Cruzando pelo espaço da escola fomos na direcção do bairro Sanhote. Encontramos o Sr. Bento que estava a sachar o milho num pequeno terreno junto de casa, onde espera apanhar as primeiras massarocas para comer mais tarde. Saudamos e seguimos rumo à casa do chefe do núcleo de Santa Isabel, que encontramos quando regressava a casa com dois torrões de capim para transplantar e resguardar a sua casa das águas da chuva. Uma planta que serve também para afastar os mosquitos e dá um chã agradável para situações de indisposição. 



Este encontro deu-se quando estávamos a saudar o responsável da família da comunidade de São José, que estava a cortar um cajueiro que caiu em cima da sua latrina. Entretanto chegou um jovem que ia visitar um seminarista e combinar a viagem para Maputo. Também o seguimos nesta visita quando vimos que estava uma conjuntivite há já duas semanas. Saudamos toda a família e continuamos viagem, passando pela casa do Sr. Luís que estava de cama. Entramos para saudar e desejar as melhoras, pois já tinha estado bastante mal, pouco tempo atrás.

Por entre as casas do bairro seguimos até apanhar a estrada principal. Aí encontramos três estudantes que também iam visitar o colega que estava doente. Continuamos mais um pouco e cumprimentamos a mamã Lucinda que estava com a sua criança recém-nascida, também ela com conjuntivite. Descemos mais à frente saudando as pessoas e observando as várias casas caídas ou em risco de cair. O nosso objectivo era chegar à casa do Ancião da comunidade, mas ‘encontramos quando ele lá não estava’.

Na volta, tomamos o lado contrário da estrada e passamos pela casa do Sr. Cássimo onde estava apenas a esposa com as crianças, lamentando-se dos estragos que a chuva causou na cozinha e no celeiro. Continuamos viagem e uma senhora nos interpela para saudar e dizer que está mal da garganta, mas, como tinha entrado no hospital, conseguiu algum medicamento que vai tomar. Desejamos as melhoras e seguimos até ao mercado pela estrada central. Passamos por um grande cajueiro que tombou sobre uma casa e que agora estava cheio de crianças penduradas como num baloiço e em forma de trapézio. Aquilo que era uma tragédia para uns, para estes infantes começou a ser um centro de brincadeira e animação. Talvez seja uma maneira alternativa e mais animada para olhar esta triste realidade.

Daí cruzamos para o cemitério dos monhés que estava fechado. Mais à frente entramos na zona do bairro Novo onde muitas casas também sofreram com as chuvas intensas. De seguida penetramos no bairro de Talalane passando por uma grande mangueira que estava a ser bem abanada nos seus frutos ainda verdes. De tanto abanar se encheu todo o chão de mangas verdes, era a fome e a vontade de apanhar mangas comestíveis. O pior é que amanhã não terão outras mangas para comer, porque tudo ficou estragado no chão. Hoje apanham algumas e amanhã não terão nada, apenas mais fome. Esta é a lógica da pobreza que leva à miséria.

Sofrendo da real pobreza estava uma mamã que se aproximou e nos pediu ajuda porque a sua casa caiu totalmente com as primeiras chuvas. Sem ter onde ficar, abrigou-se provisoriamente na casa da filha. Uma situação que se terá de prolongar no tempo, pois este não é período para novas construções. Uma situação provisória por tempo indeterminado.

Continuamos e avançamos até ao núcleo de São Lucas, onde estava o Sr. Paulo com os seus amigos sentados com sinais de quem está a tomar uma ‘primeirinha’ (aguardente local). Também a sua casa foi danificada num dos lados, mas a sala do núcleo estava intacta. Nada de pânico nem alarme, pois ‘Deus enviará o sol para repor tudo no sítio certo’, dizia ele animado pelo espírito da bebida. Aí encontramos também o jovem Okeya, conhecido de todos pela insuficiência mental, mas muito calmo e simpático. Ele nos acompanhou e era o centro das atenções até chegarmos a casa.



Enfim, foi uma volta rápida e atenta que ajudou a ver o estado da situação provocado pelas chuvas intensas de uma depressão atmosférica vindas do Canal de Moçambique. São muitos casos que precisam de uma acção imediata da assistência do Governo local e central com activação do plano de emergência, mas até agora pouco ou nada se fez. E tudo isto situa-se apenas em Itoculo-sede, pois se considerarmos todos os bairros do Posto Administrativo, certamente que iremos ultrapassar as 2500 famílias desabrigadas.

Como Igreja não temos recursos para socorrer estas situações. Mas vamos pensar um plano que possa ajudar na reconstrução das casas. Não apenas na aquisição de material, mas orientação para um tipo de construção que minimize estas situações, onde prevaleçam as casas com cobertura de quatro águas. Mesmo se a maioria das construções são precárias, com adobes de barro amassado, também é possível que sendo bem-feitas elas possam suportar estes fenómenos naturais, vencendo essa precariedade.


«Que Deus nos ajude e seja favorável». É isto que queremos para este ano 2018, quando somos confrontados com situações imprevistas e bastante danificadoras. Ao mesmo tempo, tudo isto representa para nós um desafio à nossa capacidade rigorosa e eficaz de trabalhar. Estamos vivos. Vamos em frente.

26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...