2 de março de 2021

13 - Unidade no Espírito

- Netia/1999

«Só isto é necessário: comportai-vos em comunidade de um modo digno do Evangelho de Cristo, para que […] permaneceis firmes num só espírito, lutando juntos, numa só alma, pela fé no Evangelho». (Fl 1,27)

Desde o princípio a vida comunitária foi entendida como essencial para a evangelização, segundo o qual Jesus enviou os discípulos «dois a dois» (Lc 10,1). Como resultado prático do Encontro do Grupo ocorrido no início do ano 1999, as duas comunidades espiritanas foram reestruturadas em vista de um equilíbrio necessário e para apaziguar as hostes conflituosas. Assim, ficavam dois confrades em cada missão com a esperança de serem reforçados mais tarde com novo pessoal missionário. Em Inhazónia ficaram os dois nigerianos (P. Anthony e P. Lawrence) e em Netia os dois primeiros obreiros da missão (P. Alberto e P. Pedro).

Entretanto, no final de Maio o P. Pedro foi de férias a Portugal onde participou na ordenação sacerdotal do Damasceno dos Reis a 13 de Junho. Um pouco mais tarde, viajaram juntos para Netia tendo chegado no dia 11 de Setembro numa aventura de carro (o novo Land Cruiser) a partir de Maputo. A chegada do P. Damasceno permitiu uma nova organização da comunidade espiritana com um ritmo de vida mais regular, com reuniões de comunidade mensais, ficando o P. Pedro como Superior e o P. Alberto como ecónomo da comunidade espiritana, e a pastoral passou a ser mais partilhada entre todos, continuando o P. Alberto como pároco.

Neste mesmo ano a comunidade de Netia foi abordada para acolher estagiários espiritanos em formação. Apesar de ainda haver algumas limitações materiais, as condições humanas e formativas estavam garantidas para esta abertura aos jovens estagiários que marcaram um novo ritmo da comunidade espiritana e se prolongou por vários anos com a chegada de diversos estagiários, jovens espiritanos em formação inicial.

Ao nível da paróquia, pela primeira vez, no dia 1 de Agosto, celebrou-se a ordenação sacerdotal de um candidato natural de Netia, o jovem Graciano Agostinho. No mesmo mês de Agosto, no dia 15, uma jovem natural de Netia, Jacinta Abílio, fez os seus Votos Perpétuos na Catedral de Nampula como Irmã da Congregação da Paz e Misericórdia. Foram momentos de grande alegria mas que duraram pouco tempo, em especial para o jovem padre que a 29 de Dezembro teve um acidente de viação que o vitimou quando ia a caminho de Nampula, perto de Anchilo. O enterro foi na sua aldeia natal em Namixalala-Netia.

Com o ambiente pesado em Netia pelo acidente mortal do jovem padre, os Verbitas convidaram os Espiritanos a celebrar a passagem de ano e do milénio na comunidade de Monapo. Uma iniciativa que fortalecia também a comunhão das duas Congregações Missionárias recém-chegadas à diocese de Nacala.

PRECE: Hoje, Senhor, queremos rezar por todos os jovens que vêm realizados os seus sonhos, e por aqueles que são vítimas de inúmeras situações que trazem a morte física e psicológica. Ajuda-nos, Senhor, a promover a vida e o desenvolvimento de todos, em especial dos mais desprotegidos.

12 - «Tudo nas mãos de Deus»

Grupo/1999 

Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia e dai-nos a vossa salvação… O Senhor dará ainda o que é bom e a nossa terra produzirá os seus frutos» (Sl 84, 8.13)

Este ano 1999 começou com o encontro do Grupo Espiritano de 23 a 27 de Janeiro em Netia, o qual contou com a presença do Conselheiro Geral, o P. Gabriel Mbilingi, vindo de Roma, e permanecendo em Moçambique de 20 de Janeiro a 5 de Fevereiro. No seu regresso ao passar por Maputo encontrou-se com o Cardeal D. Alexandre dos Santos que fez um pedido para ter Espiritanos na sua Arquidiocese. Também no encontro com o D. Jaime, Arcebispo da Beira, recebeu a proposta de uma paróquia a 80km numa zona a norte da Arquidiocese.

No II Encontro do Grupo estavam presentes os três confrades de Netia e o P. Benedito de Inyazónia. O P. Anthony não viajou por razões económicas, mas o P. Mbilingi exigiu a sua presença, e assim se providenciaram as condições para ele viajar e chegar a Netia, o que aconteceu no dia 26 de Janeiro. Neste Encontro, entre outras coisas, falou-se da restruturação das comunidades espiritanas, do coordenador do Grupo e da necessidade de abrir uma terceira comunidade espiritana com a finalidade de trazer mais estabilidade e consolidação ao Grupo. As cidades da Beira e Nampula foram as propostas apresentadas com a finalidade para servir de elo entre as duas comunidades existentes e de apoio logístico, sendo que o Conselho Geral se inclinou para a cidade da Beira, como revela a carta do P. Mbilingi de 13 de Março de 1999.

Na conversa pessoal com cada confrade o P. Mbilingi apercebeu-se das dificuldades de cada comunidade espiritana e mais tarde apresentou uma proposta de restruturação interna das equipas com o aval do Conselho Geral. Daqui resultou que o P. Cangeno deixou Inhazónia e manifestou o desejo de deixar Moçambique, o que aconteceu no final do mês. O P. Lawrence foi nomeado para Inhazónia viajando, mais tarde, a 3 de Maio. O P. Damasceno, em primeira afectação missionária, foi nomeado para Netia. O P. Alberto passou a assumir a tarefa de «pessoa de contacto» com o Superior Geral e o seu Conselho, como refere a mesma carta do P. Mbilingi do dia 13 de Março de 1999.

A necessidade de novos Espiritanos com mais experiência comunitária e missionária e a urgência de um líder para o Grupo capaz de ser ponto de referência e união, era uma maneira concreta de responder à dolorosa experiência comunitária dos primeiros anos em Moçambique. Vários nomes começaram a circular, entre eles o P. Bongo, angolano, o P. John Kingston e P. Paddy irlandeses, e o próprio P. Gabriel Mbilingi também se prontificou a vir para Moçambique logo que terminasse as funções de Conselheiro Geral da Congregação, mas acabou sendo nomeado Bispo de Luwena-Angola ainda antes de terminar o seu tempo de Conselheiro Geral.

Enfim, as coisas começam a mexer no sentido de trazer mais consolidação ao Grupo Espiritano de Moçambique, para que possa dar o fruto desejado, uma vez que a terra é boa e Deus sempre derrama a sua bênção.

PRECE: Hoje, Senhor, queremos rezar por todos aqueles que trabalharam para tranquilizar e harmonizar todas as forças adversas da missão espiritana. Te pedimos que cada um de nós seja sempre um verdadeiro instrumento de paz e concórdia.

15 de fevereiro de 2021

11. «Abençoai-nos e santificai-nos»

 - Netia/1998

«Deus se compadeça de nós e nos dê a sua bênção, resplandeça sobre nós a luz do seu rosto… e chegue o seu temor aos confins da terra» (Sl 66,2.8)

Se o primeiro ano ficou marcado pelo assumir de novas responsabilidades pastorais nas dioceses, neste segundo ano começou a consolidação desses compromissos juntamente com algumas dificuldades de relação interpessoal, o que gerou, de alguma maneira, uma certa instabilidade na Missão e no Grupo Espiritano. Talvez por isso mesmo começou a ser preocupação a necessidade de uma terceira comunidade espiritana que fizesse a ponte entre as duas comunidades de Netia e Inhazónia, requerendo, para tal, novo pessoal e mais experiente na vida missionária.

Em Netia, no mês de Março chegaram duas Irmãs Ursulinas que visitaram Itoculo (Narrupe) para ver a possibilidade de uma nova comunidade religiosa na Diocese. Uma oportunidade para diminuir o isolamento de Itoculo e a necessidade de encontrar soluções para ultrapassar esta dura realidade, o que só aconteceu mais tarde com a chegada das Irmãs Espiritanas em 2005. Pois, quantas mais forças missionárias existem numa determinada área geográfica, mais possibilidades existem para responder com criatividade e dinamismo aos desafios da missão.

A nível de movimentações dos confrades, ressalta-se a viagem do P. Alberto de férias para Angola (20 de Abril a 23 de Julho), sendo uma boa parte do tempo para tratar da saúde essencial à vida missionária. Por sua vez, em Agosto, o P. Pedro foi participar como tradutor no Capítulo Geral de Maynooth (Irlanda). Entretanto, o P. Lawrence já tinha viajado o mês Março para o Zimbabwe e no mês de Julho foi fazer o seu retiro anual ao Malawi. Ainda em Agosto chegou a Netia, com a finalidade de visitar e descansar, o coordenador do Grupo Espiritano, o P. Benedito Cangeno.

A nível da paróquia de Netia, o Bispo Dom Germano fez uma curta vista pastoral nos dias 17 e 18 de Outubro, com celebrações de Crismas, que coincidiu com o dia mundial das missões. Um pouco mais tarde, no dia 1 de Novembro foi ordenado diácono o jovem Graciano Agostinho natural de Netia, fruto de sementeiras anteriores agora colhido pela comunidade espiritana.

Ainda é de ressaltar que no dia 22 de Novembro deu-se em Netia um grande afluxo de gente atacada pela cólera, o que fez com que o Posto de Saúde de Natete ficasse abarrotado sendo impressionante e doloroso ver a quantidade de pessoas a perder a vida por falta de soro fisiológico. A precariedade da vida era uma nota muito saliente no dia-a-dia das pessoas da missão de Netia, e de Moçambique em geral.

Enfim, este segundo ano da presença espiritana, bem como uma parte do ano anterior, ficou ainda marcado por inúmeras formações realizadas pelos confrades a nível da Diocese e nas Congregações Religiosas, com retiros e formações de noviças e postulantes. Concretamente, o P. Pedro e o P. Alberto multiplicaram-se nestes encontros formativos como forma de apoiar a Igreja local. 

PRECE: Hoje, Senhor, te pedimos a bênção para todas as pessoas que se cruzarem connosco e que a nossa vida seja um sinal da tua presença para todos eles. Faz de cada um de nós uma testemunha fiel do teu amor para vivermos intensamente a missão que nos confias aqui e agora. 

10. «Firmes na fé»

Grupo/1997

«Sede sóbrios e vigiai, pois o vosso adversário, o diabo, como um leão a rugir, anda a rondar-vos, procurando a quem devorar. Resisti-lhes firmes na fé» (1Pe 5,8-9)

Algumas contrariedades marcaram os começos da vida espiritana em Moçambique. Uma parte foram aquelas coisas simples de cada dia que exigiram um esforço conjunto de recuperação e organização logística e material. Outras coisas dizem respeito ao relacionamento e convivência entre pessoas que numa ou outra situação criaram grandes feridas e foram difíceis de superar. Mas tudo isso também fazia parte do novo projeto missionário em contexto de internacionalidade e de interculturalidade, onde era preciso estar unidos e resistir «firmes na fé».

Entre os imprevistos e dificuldades que aconteceram, sobressaem a chegada retardada do P. Lawrence, apenas no dia 13 de Janeiro de 1997 com dificuldade de obtenção de toda a documentação para entrar em Moçambique. Além disso a sua mala de viagem ficou perdida no aeroporto, sendo obrigado a seguir para Netia desprovido dos seus objectos pessoais mais necessários. Isto obrigou a novas e posteriores viagens a Nampula, mas não passou de imprevistos normais de quem viaja.

Outras contrariedades aconteceram e se repetiram inúmeras vezes, tais como as malárias em que o P. Alberto foi o primeiro a ser «carimbado» no dia 8 de Fevereiro de 1997. As condições de vida precárias, o alto índice de infeção parasitária da malária em Moçambique, os riscos de quem se adapta e ajusta à nova realidade missionária, entre outras coisas, foram factores que favoreceram inúmeras maleitas ao longo dos anos.

Vivendo ainda uma fase de adaptação, tudo se agravou um pouco mais quando o mesmo P. Alberto depois de ter participado na II Assembleia diocesana de Pastoral na Carapira-Nacala, precisamente no dia 17 de Outubro, foi vítima de uma hemorragia gástrica, uma úlcera rebentada no duodeno. Isto fez com que de imediato fosse levado para Nampula e daqui ter viajado para Maputo onde esteve numa clínica durante dez dias sempre acompanhado pelo P. Pedro. Não conseguindo qualquer resultado os dois continuaram viagem para Johannesburg (África do Sul) onde ficou internado durante oito dias, seguindo depois para a comunidade espiritana de Bethelehem, regressando a Netia apenas no dia 20 de Dezembro já recuperado.

Outro contratempo, em que já se fez referência, aconteceu em Maio de 1997, poucos meses após a chegada a Inhazónia, onde se deu a primeira baixa no Grupo, o P. Domingos Vitorino regressou definitivamente a Portugal. Na verdade, não faltaram momentos e diferentes situações de fraqueza humana e material que pôs em risco a missão espiritana em Moçambique. Interesses particulares, pontos de vista muito pessoais, sentimentos de incompreensão, pouca flexibilidade relacional, e outras coisas, apareceram e algumas vezes dominaram. Apesar de tudo isso a missão evangelizadora continuou e os sinais da presença de Deus nunca faltaram ao nosso lado para nos fazer avançar em frente e chegar onde era preciso chegar.

PRECE: Hoje, Senhor, te apresentamos todas as situações de fragilidade que marcam a nossa vida missionária. Ajuda-nos a enfrentá-las e a vivê-las com fé e sentido de esperança, de maneira a fazer de cada dificuldade um verdadeiro desafio de vida.

3 de fevereiro de 2021

9- Unidos no amor de Deus

- 1997

«Caríssimos, edificando-vos uns aos outros sobre o fundamento da vossa santíssima fé e orando ao Espírito Santo, mantende-vos no amor de Deus, esperando que a misericórdia de Nosso Senhor Jesus Cristo vos conceda a vida eterna. Tratai com misericórdia aqueles que vacilam». (Judas 1,20-22a)

Desde o princípio o projecto missionário dos Espiritanos em Moçambique estava sob a responsabilidade directa do Superior Geral e do seu Conselho. Uma e outra vez ecoaram pedidos de mais presença e proximidade para um maior apoio e animação. Assim, na segunda quinzena de Agosto de 1997 o Superior Geral, P. Pierre Schouver, visitou oficialmente o Grupo de Moçambique e aproveitou para participar no Primeiro Encontro do Grupo em Inhazónia de 20 a 27 de Agosto. Foi uma oportunidade para estar com os confrades e ver no terreno a melhor maneira de levar à frente a missão espiritana de Moçambique. Ao falar com cada confrade percebeu algumas dificuldades que deixou expressas numa carta escrita a partir de Maputo, quando regressava a Roma, onde concluiu que teve uma «impressão muito positiva» do Grupo.

Nesta carta endereçada aos confrades de Inhazónia (Benedito e Anthony) com uma cópia enviada para a comunidade de Netia, dando a entender que as mesmas recomendações são para ambas as comunidades espiritanas, ele partilhou as suas impressões gerais da visita a Moçambique e deixou algumas «exortações» para a vida missionária. Salientou, também, o esforço de aprendizagem da língua portuguesa e das línguas locais, a integração no trabalho eclesial e os arranjos nas respectivas residências. Um outro desafio apontado foi a constituição de «comunidades internacionais e interculturais» como uma verdadeira aventura missionária que é preciso «cuidar e construir» cada dia.

Apoiado nas palavras Jesus quando Pedro regressava da pesca com os seus colegas numa noite fracassada, insistiu que estas mesmas palavras se aplicam aos espiritanos de Moçambique: «volta a lançar as redes» (Lc 5,4). Ou seja, deixou um apelo para não desanimar nas tarefas de cada dia, mas confiar e ter coragem de arriscar de novo para «uma nova pesca». Acima de tudo foi uma forma de incutir mais esperança em quem estava um pouco desapontado com as dificuldades iniciais da missão em Moçambique.

E concluiu com três exortações bem práticas: «continuar os esforços para estar próximo do povo a quem foram enviados, com grande respeito pelos pobres, falando com eles na sua língua, estudando e tomando iniciativas sempre com eles; continuar os esforços de estar perto do Senhor através da oração diária pessoal e comunitária; continuar os esforços para viver juntos uma vida fraternal, tirando tempo para sentar juntos e comunicar entre si».

O apelo a edificar na fé e a manter-se firme no amor de Deus como forma de responder fiel e criativamente aos desafios da missão, foram as palavras e a presença amiga dos outros dois Superiores Gerais, Jean-Paul Hoch (Dezembro de 2010) e John Fogarty (Dezembro de 2019) que visitaram oficialmente o Grupo de Moçambique.

PRECE: Hoje, Senhor, te pedimos que nos envies o Espírito Santo para que nos mantenha unidos no amor de Deus através do serviço generoso e comprometido com os mais pobres, marcados pela misericórdia, a paz e a alegria de viver juntos como discípulos-missionários. 

8- «Servir e dar a vida»

- Inhazónia/1997

«Quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.» (Mt 20, 26-28)

Em todas as situações Jesus nos dá o exemplo de «servir e dar a vida» como forma de viver hoje a missão. Porém, nem sempre isso que acontece com os seus enviados. Os primeiros anos das comunidades espiritanas foram bastante desafiantes e difíceis, muitas coisas bonitas aconteceram, mas também não faltaram momentos sombrios no referente ao relacionamento e testemunho de vida dos seus membros.

No início da presença espiritana em Moçambique, Inhazónia foi a comunidade mais instável. Na verdade, a chegada dos Espiritanos a Inhazónia representou uma grande esperança para as comunidades locais. Uma vasta área de evangelização foi atribuída aos novos missionários. Muito trabalho pastoral foi realizado apesar das grandes dificuldades de coordenação e com um nível de vida comunitária muito longe do exemplo das primeiras comunidades cristãs narrada nos Actos dos Apóstolos. Aquilo que devia ser mais um elemento no processo de evangelização, «falar como quem tem autoridade» (cf. Mc 1,22), tornou-se muitas vezes um contra-testemunho.

As dificuldades de uma liderança impositiva, a falta de coordenação entre os seus membros, a inexistência de diálogo entre os agentes pastorais da missão, especialmente com as Irmãs da equipa missionária, entre outras coisas, parece que provocaram mais estragos que benefícios. Por isso não é de estranhar que o P. Domingos Vitorino pouco tempo depois da sua chegada a Inhazónia passou a viver na comunidade das Irmãs em Reparadoras do Sagrado Coração de Jesus em Catandica, regressando depois a Portugal definitivamente no mês de Maio de 1997. Entretanto, o seu coração ficou ligado a Inhazónia, pois logo que chegou procurou angariar fundos (11 mil USD) para a restauração da igreja paroquial que ia celebrar 50 anos em 1998.

Em Setembro de 1998 um grande desentendimento entre os dois confrades (Cangeno e Anthony) ficou agravado quando se insultaram em público. A vida de comunidade que devia ser libertadora, tornou-se um castigo e opressão. Por estas mesmas razões em Janeiro de 1999 o P. Cangeno toma a decisão de deixar a comunidade e o Grupo de Moçambique e regressar a Angola. Em Maio do mesmo ano chegou o P. Lawrence vindo de Netia para constituir comunidade com o P. Anthony na esperança de uma mudança significativa, o que resultou em parte.

Enfim, parece que os primeiros membros da comunidade espiritana poderiam ter sido bem melhores e mais razoáveis no referente ao compromisso missionário assumido com a missão de Inhazónia. Tudo isto também serviu para entender que a missão é obra de Deus e não dos homens, de contrário tudo teria acabado aí mesmo. Mas Deus não se deixa vencer em bondade e misericórdia, e novos caminhos de vida e missão começaram a surgir ao fim de poucos anos.

PRECE: Senhor, hoje, a nossa oração é para pedir perdão pela nossa incapacidade de serviço e comunhão. Perdoa todas as vezes que não sabemos liderar e conviver uns com os outros seguindo as tuas palavras que nos convidam ao serviço gratuito e à humildade sincera como forma de ser discípulo-missionário.  

7-«Fazer render os talentos»

- Netia/1997

«Um homem ao partir para fora chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu». (Mt 25,14-15)

Em Netia este ano de 1997 ficou marcado principalmente pelos compromissos que se assumiram na diocese. Primeiramente a Paróquia de Nossa Senhora da Assunção de Netia e depois os sectores de Djipwi e Xihire da quasi-paróquia de Itoculo. Como na parábola do Evangelho, foram talentos recebidos para fazer render.

Tendo já sido apresentados aos cristãos da comunidade sede (Natete), no domingo 19 de Janeiro de 1997 os três padres subiram à montanha mais alta para apreciar o território da missão de Netia. Um pouco mais tarde, a 16 de Março, foi a tomada de posse da Paróquia de Netia com uma celebração presidida pelo Sr. Bispo e com a presença do Vigário Geral, P. Firmino Cusini. Nesta celebração foi nomeado o P. Alberto Tchindemba como Pároco em colaboração com o P. Pedro e o P. Lawrence. O Sr. Bispo mostrou-se satisfeito com a presença dos novos missionários com idade bastante jovem e convidou a comunidade paroquial a cultivar um espírito de generosidade missionária educando na fé os seus filhos, falando-lhes também da necessidade de sacerdotes, irmãs e irmãos.

Assim empossados, puderam celebrar nos dias 29 e 30 de Março a primeira Páscoa numa integração total com o povo macua, onde as celebrações foram muito animadas não faltando as batucadas durante toda a noite onde pernoitaram. Foram celebrações marcadas por muitos batismos, casamentos e primeiras comunhões.

Um outro acontecimento digno de registo foi a tomada de posse dos sectores de Djipwi e Xihire em Itoculo. Na verdade, pouco tempo após a chegada a Netia os espiritanos foram contactados para assumir estes dois sectores na área de Itoculo, um assunto que foi abordado na reunião comunitária de 3 de Março de 1997. Através do diálogo e da partilha a nível da Diocese tudo foi ganhando forma e nos dias 11 e 12 de Julho o P. Lawrence e o P. Alberto acompanham o P. Ambrósio e a Ir. Socorro e participam nos conselhos regionais de Xihire e Djipwi em vista de um melhor conhecimento da realidade. Foi uma primeira experiência de inserção onde tiveram de pernoitar «com muito frio, além dos rato e morcegos que tornaram o ambiente nocturno bastante pesado», redige o diarista.

Realizados todos os procedimentos necessários, a 20 de Julho fez-se a apresentação oficial dos sectores de Djipwi e Xihire e a quasi-paróquia de Itoculo B foi confiada aos espiritanos, ficando o P. Pedro como primeiro responsável, apesar de todos sentirem a obrigação de se envolverem visando criar um espírito de trabalho em equipa missionária. Neste dia a celebração da Missa foi presidida pelo Bispo D. Germano e congregou muitas pessoas na comunidade de São João de Deus em Reno.

PRECE: Hoje, Senhor, agradecemos todos os dons que Tu nos dás para o serviço dos irmãos. Faz de todos nós pessoas generosas e criativas para fazer render todos os dons que depositas gratuitamente em nossas mãos.

26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...