14 de julho de 2009

olaxérya

Pedro Fernandes
Itoculo



Os últimos tempos, para mim, têm sido de despedida: olaxerya. Deixo Itoculo e Moçambique ao fim de quase treze anos de permanência, depois de tanta coisa acontecida e de tantas experiências que me foi dado fazer. Neste sinuoso rio que é a nossa vida, o momento actual é, assim, de dizer adeus.
Todas as situações da vida são significativas –todas sinalizam Deus e os outros- e esta situação das despedidas também é assim. Não é das mais agradáveis, mas recorda algo de essencial, absolutamente necessário para que a vida não perca sabor: nada é nosso. A tendência humana mais natural é apropriarmo-nos da nossa vida, dos nossos projectos, do nosso trabalho, do nosso pequeno universo de relações, de sucessos, assenhorearmo-nos do nosso chão, de todo esse conjunto de “posses” que nos faz sentir seguros e no nosso lugar. Despedir-se recorda algo de fundamental na vida cristã, que lhe confere todo o seu dinamismo e esperança: estamos a caminho, não temos aqui –qualquer que seja esse “aqui”- morada permanente, precisamos de ter as malas feitas e alicerçar as nossas seguranças em algo de mais fundo que num capital pessoal a que chamamos “nosso” e radicarmos no único absoluto, o único que permanece e que dá sentido a tudo: Jesus Cristo, Deus. Dessa maneira, mesmo as coisas mais simples e aparentemente insignificantes ganham uma áurea de eternidade e tornam-se fonte de alegria, não porque são nossas, mas porque, pelo contrário, nos ajudam a ser mais livres, mais nós mesmos, mais de Deus.
Hoje fui à comunidade de Mavule, que me tinha pedido para não ir embora sem lá celebrar antes uma “missa de despedida”. Lá encontrei muitos cristãos, mas sobretudo muitos testemunhos de serena reconciliação com o facto de que tudo na vida muda e que o perder faz parte do crescer. É frequente, nas despedidas, dizerem-me, de um modo ou de outro, que devo levar cumprimentos daqui para lá, aonde eu vou. Para os macuas, partir não é só deixar, é levar, é comunicar algo do que ficou para trás, mas inevitavelmente nos acompanha. E é nisso, afinal, que consiste a missão, que é a partilha de um dom recebido, e passa pelo anúncio de um Palavra antes escutada, uma apresentação de uma presença antes experimentada.
Na minha terra, antes da partida de um missionário ou missionária, é frequente organizarem-se “missas de envio”, cerimónias em que a comunidade eclesial se compromete com o missionário, dizendo-lhe que ele não vai só, mas é enviado e leva a Igreja toda consigo. Hoje, em Mavule, percebi que aqui é exactamente assim, a minha “missa de despedida” foi, talvez mais, uma “missa de envio”. Serena, discreta, sem nenhuma pretensão de enviar para longe o nosso padre, para ele lá ir como salvador ou solucionador, mas nessa mansa e fraterna atitude de partilha, de deixar partir guardando, no entanto, o único essencial: a comunhão. E a comunhão está para além da presença física, ela ultrapassa tempos e espaços porque bebe o seu ser no próprio ser de Deus. A comunhão é eterna.
Por isso, despedir-se é, afinal, transfigurar a separação, dar-lhe sentido e transformar as partidas e chegadas numa permanente festa da missão. Estamos sempre a partir, estamos sempre a chegar; estamos sempre a acolher, estamos sempre a despedir: gente, experiências, situações... tudo vai e tudo vem. E na vida tudo permanece naquilo que em nós transformou e nos impulsionou a transformar à nossa volta.
Há um mês, um pouco antes da partida para férias do meu irmão Damasceno, organizou-se, no centro da paróquia, um festa de alcance paroquial, para a minha despedida e para a apresentação oficial do novo pároco, o P. Damasceno. Também aí a mesma intuição: a missão é a partilha de uma peregrinação, de uma caminhada em Cristo, para Cristo e com os irmãos, que não nos pode deixar quietos, mesmo quando nem mudamos de lugar. Nessa ocasião foram várias as manifestações de amizade e solidariedade, todas a recordar-nos esse essencial que permanece: o amor.
Peregrinar é uma questão de amor, partir ou chegar só faz sentido se for vivido como caminho feito em comunhão: sair com os outros, para os outros e pelos outros. E isso é que é a alma da missão: partir por amor, chegar por amor... A única força capaz de realmente transformar alguém, ou alguma coisa, é o amor. Só o amor desinstala de si, só o amor nos faz sair de nós mesmos, só o amor dá sentido e fecundidade às perdas e separações. Nisso consiste o amor. E é por isso que, como nos diz Paulo, só o amor permanece... Só no amor podemos acreditar, só nele podemos esperar, só o amor tem futuro, só o amor salva: esse único e irrepetível amor de Cristo na Cruz.
As despedidas são um dos grandes ícones da grande despedida, que é também a grande chegada: a morte. A peregrinação da nossa vida é feita de mortes e ressurreições, e é, por isso mesmo, a experiência que nos é dado fazer da morte e Ressurreição de Jesus, na qual participamos pela fé e na esperança. Esta experiência pascal é, enfim, a alma mesma da nossa vida: nada se perde, de nada nos separamos definitivamente, tudo se transfigura, como é transfigurada a Cruz em glória e a morte em ressurreição. Mas não há ressurreição sem morte, como não há, neste mundo, amor sem dor. Quem quer amar, deve caminhar e sentir a dureza do caminho.
A missão é, afinal, uma questão de amor... Deixo Itoculo com essa convicção e essa esperança. E é por isso que, olhando o futuro, só o amor e a confiança em Cristo podem dar força e sentido a novos investimentos. A missão é uma questão de amor...

25 de junho de 2009

GPS missionário de itoculo


Raul Viana
Itoculo

Ao entrar directamente na pastoral paroquial de S. José de Itoculo, ainda que principiante, partilho aqui alguns elementos de carácter geral, e outros de índole particular, sobre o local onde me encontro. Trata-se de uma simples partilha que visa consciencializar-me melhor da realidade onde estou inserido.

Enquadramento sócio-político e religioso
Olhando o mapa geo-político, a Paróquia de S. José de Itoculo corresponde à área do Posto Administrativo de Itoculo com cerca de 1227km2. Este Posto depende civilmente da Administração Distrital de Monapo (a 25km) que por sua vez está dependente do Governo da Província de Nampula (a 170km).
Itoculo tem uma densidade populacional que ronda os 70 mil habitantes, quase que exclusivamente de etnia Macua (a maior do país). A grande maioria da população vive da agricultura tradicional e familiar (cultura do milho, algodão, gergelim, feijão, mandioca, caju, etc…).
No campo religioso, há também uma grande diversidade, como vemos pelos diferentes centros de culto. A predominância está na religião Tradicional, no Islão e no Cristianismo. Entre os cristãos há, também, uma grande variedade de Igrejas Protestantes e Seitas. Neste contexto plural e de respeito situam-se os Católicos que rondam os 8 mil praticantes, o equivalente a 12% da população local.

Situação paroquial
A Paróquia de S. José de Itoculo tem uma história muito recente. Foi erigida canonicamente em 19 de Março de 2004 por D. Germano, integrando as 24 Paróquias da Diocese de Nacala. A Paróquia divide-se em três Regiões (Congo, Djipwi e Xihire) em vista a facilitar o trabalho pastoral, mas tudo está em função de uma única Comunidade Paroquial. Por sua vez, cada uma destas 3 Regiões subdivide-se em Zonas (15), e estas em Comunidades Cristãs locais (77).
Enquanto Equipa Missionária (Padres e Irmãs) a nossa missão passa por dar formação aos animadores dos diferentes sectores da pastoral no Centro Paroquial e em cada Região. Cada semana há formação para os diferentes grupos de animadores ou catequistas, anciãos, jovens, casais, mamãs, professores, animadores de justiça e paz, saúde, vocações, infância missionária e comunicação social. Mensal ou bimensalmente todos estes animadores recebem formação para dinamizarem os demais cristãos no seu compromisso baptismal.

Objectivos pastorais para o biénio de 2008-2010:
Em comunhão com toda a Diocese, também aqui se dá atenção à problemática das pessoas jovens em união de facto; à implantação da Obra da Infância e adolescência missionárias; aos problemas pessoais e injustiças sociais, tais como: alcoolismo, gestão do trabalho e dos seus frutos, auto-estima e dignidade pessoal, violência doméstica, aborto, abusos de poder político e judicial, abusos dos serviços sociais e das entidades patronais, e comércio justo.
É neste enquadramento social, cultural e eclesial (e com o GPS assim alinhado) que me situo e nele procuro viver o meu ministério sacerdotal. Na sequência de um trabalho pastoral já efectuado, procuramos ser sinais vivos do Espírito que continua a derramar os seus dons sobre cada um dos filhos de Deus que em Jesus Cristo têm um irmão e um amigo impar.

4 de junho de 2009

falar sonhando ou sonhar falando...

Raul Viana
Itoculo



No momento em que termino o curso de língua macua, dou-me conta que isto foi apenas uma introdução geral, a qual vai exigir de mim mais esforço e continuidade. De facto, todos nós que participamos no curso, tivemos acesso ao estudo da gramática, à leitura ritmada, ao conhecimento e significado de muitas palavras… Porém, o verdadeiro estudo começa agora, nos encontros de cada dia, no contacto com a realidade do povo que vai ensinar e formular o conteúdo desta língua completamente nova e exigente.

Contudo, este primeiro contacto deu para começar a ler em macua, mesmo que gaguejando! Na segunda etapa vou procurar entender o que as pessoas falam. Posteriormente, tentarei dialogar, começando a falar em macua. Por fim, (já depois de muito saber!!!) será a parte dos sonhos em macua. Portanto, sequencialmente e sem limite de tempo, assumi este programa: ler, entender, falar e sonhar.

Só para perceber um pouco, os macuas são o grupo étnico mais numeroso dos povos que integram Moçambique. Por isso mesmo, a língua macua é também a mais falada neste país, concretamente, na região norte. Abrange uma área geográfica considerável: Províncias de Nampula e Zambézia, e partes das Províncias de Cabo Delgado e Niassa. Isto faz com que haja também algumas diferenças dialectais (macua do interior, macua-meto, macua-lomwe, macua do litoral…), mas tudo parte de um mesmo tronco comum.

Tanto quanto pude perceber, o macua é uma língua que precisa de ser estudada e estruturada pelos linguistas e outros especialistas. Foram feitos alguns trabalhos neste sentido, mas revelam-se insuficientes. Este parece ser um dos pontos que dificulta a aprendizagem da língua, pois falta uma gramática e um método próprio, válido e consensual e, ao mesmo tempo, gente capacitada para o ensinar. No entanto, parece haver sinais de um futuro promissor.

No meio de tudo isto, não podemos esquecer que o esforço de muitos Missionários neste campo foi, e continua sendo, bastante considerável. A eles se deve muito do que existe na actualidade e que são bons instrumentos para quem quer aprender. Por outro lado, as publicações existentes em língua macua são prevalentemente de carácter religioso (bíblico e litúrgico e pastoral). Na verdade, são poucos os escritos nesta língua, o que faz pensar que a língua macua existe para ser falada mais do que para ser escrita.

Sinto que tenho um grande trabalho pela frente (ler, entender, falar e sonhar em macua) em vista daquilo que me faz estar nestas terras. Por outro lado, olhando a realidade envolvente à paróquia de S. José de Itoculo, regozijo-me e aprecio os meus colegas e confrades (PP. Pedro e Damasceno) que, neste esforço de aproximação, conseguem falar fluidamente a língua do povo. À excepção dos padres diocesanos autóctones, não são muitos os que conseguem fazer semelhante proeza. Portanto, uma rica e bonita herança para quem fica por estes lados.

22 de maio de 2009

três três três...
DIFICULDADES SÃO DESAFIOS


Raul Viana
Itoculo


Ao completar 3 meses da minha chegada a Moçambique, no 3º Domingo da Páscoa, nós os 3 Padres de Itoculo fomos celebrar em 3 zonas diferentes da Paróquia e para isso precisamos de 3 carros. Saindo de manhã cedo chegamos a casa pelas 3h da tarde... Não vou fazer aqui uma reflexão sobre o número 3, até porque o carro que conduzia apenas tinha 4 rodas!

Desta vez a Celebração Dominical era numa zona relativamente perto e com caminho acessível, e por isso dava para arriscar afim de que a comunidade não ficasse sem celebração, embora o carro que levava estivesse sem pneu sobressalente. Com todo o cuidado para que tudo rolasse bem, fiz uma viagem tranquila e cautelosa. Mas ao chegar junto da capela, precisamente ao estacionar, ouço um ruído forte de ar. Fui ver o que era e em pouco tempo percebi que se acabaram as esperanças de regressar a casa de carro.

Saudamos os cristãos aí presentes, preparamos e iniciamos a Celebração. Diferente dos outros Domingos, neste dia eram apenas 3 catecúmenos apresentados para os Sacramentos de Iniciação (Baptismo, Crisma e Eucaristia), sendo que 2 deles também celebraram o Matrimónio. Este reduzido número condiz com a fraca participação das 4 comunidades desta zona. Uma realidade que precisa de ser revista!

Após o almoço, como se faz no fim de cada Celebração, apenas restava regressar a casa. Entretanto, o Animador da Comunidade insistiu para que visse o espaço para a construção da nova Capela. Talvez esteja aqui um dos factores da reduzida participação. Lá nos deslocamos, pensando que encurtávamos caminho, apenas retardamos e não resolvemos nada, pois não havia consenso unânime na escolha do terreno.

Por fim, lá nos metemos a caminho de casa. Os 20km percorridos com o carro, eram reduzidos a cerca de 12km de corta-mato. Seguindo com quem conhece o caminho, com o sol no seu esplendor, os passos eram decididos, apesar do espanto de alguns transeuntes. Fatigado da caminhada para a qual não estava devidamente equipado, logo que cheguei procurei refrescar e recobrar as energias que deram espaço a novo alento.

Enfim, tudo isto para partilhar alguns imprevistos da vida e da missão, onde nem sempre tudo corre bem, mas onde é preciso seguir de forma decidida. Por outro lado, tudo isto me fez pensar no que aprendi nos últimos anos: «Dificuldades sempre haverá… o importante é fazer delas verdadeiros desafios». Ou seja, descobrir em cada imprevisto, dificuldade ou problema um desafio ajuda a superar obstáculos e a progredir no caminho, permite enfrentar cada situação com espírito positivo e renovador. Assim se vai vivendo por estes lados!

8 de maio de 2009

A missão é uma festa


Edmilson Semedo
Itoculo


Esta frase não é minha, já alguém tinha descoberto esta verdade muito antes de mim, mas isso não me impede de usar este slogan, pois estou a viver neste momento a experiência disso mesmo.
Desde que cheguei nesta terra maravilhosa, encontrei coisas diferentes, e mesmo estranhas, mas aconcheguei-me na abertura e simplicidade de um povo manso e bom: As crianças sempre simpáticas, querendo pegar na mão do “irmão Edmilson”, ou dar um “tá-tá” (adeus) quando passo na estrada. A festa grande é mesmo quando paro para perguntar “ihali?” (novidades?). Os gestos de simplicidade não ficam por aqui. Vou relatar um episódio recente:
Estava a voltar do campo de futebol e encontrei a irmã Adelaide a conversar com umas crianças que vinham da escolinha. Então pus-me a conversar com elas, apesar de não ser capaz de o fazer em macua por muito tempo. Depois comecei a ver os seus desenhos e a elogiar a capacidade artística de cada uma delas. No fim segui para a casa, com a irmã Adelaide, depois de dar os “tá-tás”. Elas começaram a saltar e a cantar “patiri, patiri” (padre, padre), em dois coros, e a acenar.

Estes gestos simples é que nos ajudam a fazer de cada momento um convívio que faz a missão ser festa sempre e em cada dia. Estes momentos não nos deixam indiferentes e por isso, sentimos uma grande alegria interior, que nos ajuda a superar os momentos menos agradáveis e a superar as saudades. Resumindo, isto nos faz sentir bem onde estamos. Muitas vezes, temos a tentação de esquecer e não valorizar estes pequenos gestos, mas são estes sinais que fazem a nossa festa.
Os adultos têm a sua maneira de se expressar e de comunicar, mas também nós, as crianças, o fazemos à nossa maneira, não menos importante que os adultos. Eu reconheço a grandeza destes gestos dos pequeninos, porque de outra forma é quase impossível a comunicação, porque não compreendo macua e elas não sabem “ekunha” (português). Nestes casos a linguagem simbólica assume um papel indispensável, pois torna possível a nossa festa: A MISSÃO.

30 de abril de 2009

biblioteca
Paróquia S. João de Deus


Os espiritanos de Nampula instalaram recentemente uma biblioteca na paróquia de São João de Deus. Quem dirigiu estes trabalhos foi o Ronan e a maior parte dos livros foram conseguidos através de uma campanha organizada pelos Jovens Sem Fronteiras em Portugal. Deixamos algumas fotos que dão conta dos vários trabalhos de remodelação/readaptação do espaço do centro paroquial S. João de Deus que serve agora de biblioteca.






















antes

















depois



















22 de abril de 2009

a minha primeira Páscoa em macua


Raul Viana
Itoculo



Na alegria de Jesus Cristo Vivo e Ressuscitado partilho a vivência da minha primeira Páscoa entre os macuas e em macua. Não há nada de especial, apenas em jeito de simples partilha missionária marcada pelo curto tempo, mas intensamente vivido, deixo aqui algumas palavras sentidas nesta Páscoa.

Na verdade, já lá vão dois meses e meio, por isso, começava a ser tempo de arriscar. A ausência inesperada de um padre colega aqui na paróquia fez com que tivesse de assumir as Celebrações da Semana Santa e da Páscoa. Quando recebi esta notícia estremeci, pois não me sentia minimamente à vontade para presidir às grandes Celebrações Pascais numa língua completamente nova. Mas com treino intensivo lá fui afinando o ouvido e a língua de forma a ser entendível! Só sei que no Domingo de Páscoa à noite dormi muito bem!!!

Tudo isto começou no Domingo de Ramos. Aqui celebrei a minha primeira Missa em macua, que coincidia com o Encontro Paroquial de Jovens. É verdade que este tempo agora ainda é quente e húmido, mas a transpiração não era devida apenas ao clima!...

Na Quarta-feira Santa tivemos a nossa Missa Crismal na Sé Diocesana da cidade de Nacala com o nosso Bispo D. Germano e todo o Clero (32 padres Diocesanos e Missionários). Celebramos o dia do Sacerdócio que culminou com um almoço convívio entre todos nós: asiáticos, latinos e norte-americanos, europeus e africanos. Esta diversidade geográfica, cultural e juvenil dos sacerdotes, foi um dos pontos que me chamou a atenção.

Quinta-feira Santa: Presidi à Celebração da Última Ceia que teve como particularidade a Consagração Eucarística que posteriormente seria distribuída por toda a Paróquia. O altar ficou cheio de Cibórios que, depois, no sábado seriam distribuídos pelas diferentes comunidades cristãs que iriam celebrar a Vigília Pascal sem Padre. Foi uma sensação de muita comunhão que apenas Jesus Eucaristia é capaz de fazer.

Na Sexta-feira Santa, a Celebração da Paixão do Senhor foi às 15h numa comunidade do interior, a 45km do centro da Paróquia, para o qual foram precisas 2:30h de viagem. Uma grande comunidade de cristãos nos esperava à sombra de uma Mangueira onde decorreu a Celebração, para a qual também foram precisas mais 2:30h. Já de noite regressamos a casa para um descanso merecido.

No Sábado Santo, de manhã, fui levar o Santíssimo à região de Djipwi a 30Km do centro. Aí nos aguardavam os Ministros da Comunhão que receberam devidamente os Cibórios e logo partiram para as suas comunidades para celebrarem a Vigília Pascal. À noite na sede da Paróquia presidi à Vigília Pascal onde os cristãos se congregaram à volta do Lume Novo, da Palavra de Deus, da Fonte Baptismal e da Eucaristia da Ressurreição.

No Domingo de Páscoa todas as celebrações foram nas comunidades do interior da Paróquia. Nesta altura as capelas são demasiado pequenas, por isso nos reunimos sempre debaixo de uma Mangueira, sentados no chão ou em troncos de árvores. Foi a minha primeira Celebração Eucarística em macua com Baptismos e Primeiras Comunhões. Ao fim da tarde, após um tempo de Adoração Eucarística, toda a Equipa Missionária de Padres e Irmãs nos reunimos para o jantar pascal onde não faltou a alegria e uma mesa mais recheada que o normal.

Enfim, esta partilha apenas tem de especial a novidade do primeiro impacto de quem é novato nestas terras e para quem se deixa surpreender com pouca coisa! É uma impressão inicial, que vale apenas por isso mesmo. Outras coisas me vão interpelando, tais como o rigor e exigência que pedem a cada cristão que na sua simplicidade acatam e colaboram. Da mesma forma, o esforço que fazem para participar na formação e celebrações cristãs, revela um bom e grande compromisso com Jesus e a Sua Igreja. Ressalta ainda uma grande dependência material, que mais parece um vício adquirido no passado, contra o qual estamos lutando no sentido de buscarem formas de auto-sustento. Mas na verdade, são imensas as limitações e muitas dificuldades por que este povo passa, que de forma resignada vai aceitando as contrariedades da vida.
Termino com uma saudação muito fraternal e de plena comunhão na Vida e na Missão. Que Jesus Cristo Vivo e Ressuscitado tal como apareceu e se encontrou com seus Discípulos também nos encontre reunidos como Igreja viva e comprometida com a causa dos mais desfavorecidos e com vontade de O seguir generosamente. Seja Ele a iluminar cada um de nós e cada família na fé, esperança e caridade.

26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...