7 de junho de 2013

Vida e Missão CSSp 2013

Vida e Missão CSSp 2013


P. Raul Viana
Itoculo

O Grupo Espiritano em Moçambique realiza no mês de Junho o seu Conselho Alargado. Decorridos três anos da realização do seu primeiro Capítulo (Beira 2010), chegou a vez de voltar a congregar todo o Grupo para assim reler e avaliar as orientações assumidas, bem como ajustar e incluir as novidades de Bagamoyo (Capítulo Geral 2012), tendo em conta os desafios do atual contexto missionário espiritano em Moçambique.

Envolvidos pela realidade sociopolítica de Moçambique vemos que a par de uma considerável movimentação económica, marcada pela indústria de extração mineral (carvão, gaz natural, petróleo, etc.), vive-se atualmente alguma agitação política interna. Sinal disso são os incidentes ocorridos no início de Abril deste ano (em Muxungué) entre as forças policiais e os militantes do partido político da Renamo. No dizer destes, uma vez mais a oposição foi humilhada e maltratada pelos militares da polícia de intervenção rápida, sob a direção da Frelimo, partido no poder.

A opinião pública, a voz da Igreja Católica e do Conselho Cristão de Moçambique, bem como a intervenção imediata do Presidente da República, manifestaram o seu desagrado por tal incidente e apelaram ao diálogo fraterno para manter e solidificar a paz. Esta paz conseguida em 1992, com o fim da luta armada, é o caminho do desenvolvimento que permite sonhar e trabalhar por um futuro próspero. Só respeitando e acolhendo as diferenças, e juntos trabalhando pelo bem comum, se pode conseguir um Moçambique melhor para todos.


No final de Abril, a Localidade de Murutho - Posto Administrativo de Itoculo, uma das nossas Regiões Paroquiais, acolheu o Presidente da República na sua «visita presidencial aberta e inclusiva» de 2013. Além do frenesi que estas visitas comportam, foi um momento para a população fazer ouvir a sua voz. Os problemas da má governação e corrupção local, a carência de condições sanitárias, as dificuldades na educação, a falta de água potável e outros bens de primeira necessidade, a inexistência de indústria local, a comercialização injusta dos produtos agrícolas, os inúmeros casos de injustiça pessoal e social, entre outras coisas, foram assuntos de interesse comum apresentados à visita presidencial.

Como missionários nestas terras e com este povo ficamos satisfeitos por serem falados os reais problemas do povo local. É louvável esta oportunidade de expressão concedida àqueles que estão longe e não têm meios de se fazerem ouvir juntos das autoridades competentes. Este é o Moçambique real, muito distante de Maputo, onde as pessoas sofrem e lutam pela sua sobrevivência, face ao qual não podemos passar indiferentes. Faz parte da nossa missão atender a estas situações e trabalhar para minorar as dificuldades deste povo.


Assim, enquanto Grupo Espiritano, a nossa missão está marcada pela evangelização, propriamente dita, e por diferentes projetos de desenvolvimento. A par da assistência pastoral às paróquias que nos são confiadas (Inyazónia, Itoculo e Nampula), procuramos intervir na educação informal com apoio direto às escolas comunitárias, na organização e manutenção de lares estudantis para os mais desfavorecidos, na criação de bibliotecas e centros de estudo. Estamos ainda a possibilitar o acesso às novas tecnologias com cursos de informática, capacitando também homens e mulheres para o mundo laboral de corte e costura, criando incentivos para a prática agrícola, possibilitando um melhor acesso à água potável. Paralelamente, ministramos cursos e encontros de formação humana e cristã, formando líderes nas áreas da saúde, justiça e paz, cáritas, comunicação social, etc… Como resposta mais imediata e urgente, atendemos também a situações de desnutrição, especialmente de crianças.

Enfim, com base nesta realidade local e conscientes do verdadeiro sentido da vida missionária queremos continuar a marcar a nossa presença espiritana nestas terras segundo a inspiração dos nossos Fundadores, Cláudio Poullart des Places e Francisco Libermann, e de acordo com a orientação missionária mundial, que sempre nos convidam a unir o Evangelho com o Desenvolvimento integral «do homem todo e de todos os homens».

27 de maio de 2013

Fundação da Missão

Fundação da Missão 

por Bento Veligi

«Foi no ano 2002, depois de uma Missa na comunidade de S. José de Itoculo que o P. Ambrósio disse-me para esperar receber os Padres que haviam de vir de Natete comprar um terreno para a fundação de uma missão dentro da área da Sede do Posto. Depois de sair o Padre fiquei ainda sem saber qual seria a data da chegada desses Padres.

Mas depois de alguns dias vi três jovens estrangeiros que entraram no meu quintal depois de pedirem licença, e admiti-os a entrar. Admirei quando vi aqueles jovens com cara de pessoas amigas, e lembrei-me da tarefa dada pelo Padre Ambrósio, sorri também para eles para que não me achassem uma pessoa estranha.

Servi lugar de sentar, eles olharam-se e sentaram. Eram três Padres: P. Pedro Fernandes, P. Alberto Tchindemba e P. Damascenos dos Reis. Em menos de 15 minutos saímos para as zonas que por mim haviam sido reconhecidas e reservadas para a fundação da nova missão. Começamos pela área da serração com uma extensão de 100m por 100m. Depois seguimos para a área da velha fontanária que era também como a primeira. Por último, fomos na área que me pertencia juntamente com o sr. Cassimo Mosuade. Foi esta que os novos Padres acharam ser suficiente e pretendida.

Assim, fomos falar com o sr. Cassimo, sentamos numa sombra, negociamos com ele e aceitou vender tudo o que lá existia, e eu também aceitei vender a minha área. (onde está a casa da missão era dosr. Cassimo e onde está o Centro Paroquial era do sr. Bento). Então os Padres encarregaram-me de contar as plantas que mereciam vender, e depois eles viriam pagar. E de facto, no dia seguinte apareceram e pagaram a cada um de nós segundo o número dos seus bens. Os bens foram vendidos a preço amigável, que até não foi preciso consultar a agricultura.




No terceiro dia de trabalho fomos ao chefe do Posto que indicou alguém do seu gabinete para medir a área. No dia da medição estava eu, dois da administração e os três Padres. Eu com a minha catana abria as picadas que limitavam a área. Era no tempo seco, o mato estava cheio de feijão-macaco. Quando acabamos a abertura dos limites, dos Padres recebi outra tarefa que era de escolher pessoas para derrubar todo o mato.

Escolhi, então, essas pessoas fazendo-lhes corresponder 1 hectare a cada um deles. Era no ano que sofríamos de fome, por isso preferi escolher só irmãos da igreja. Eu fui encarregado do grupo. Os 9 hectares foram derrubados mas com grandes dificuldades. Ora se queixam do dinheiro ser pouco, ora se queixam do feijão-macaco. Mais tarde descobri que a grande dificuldade era de fome que assolava a zona. Informei os padres e eles trouxeram 10 sacos de farinha de milho o que correspondia um saco a cada um de nós. Assim o trabalho passou a correr normalmente, já havia poucas lamentações e concluímos a derruba e fomos pagos.

Dos Padres recebi outra tarefa de esperar o pessoal da pesquisa de água. O pessoal chegou na minha casa. Logo fomos pesquisar e a primeira descoberta da existência de água foi na zona da Serração, aí colocamos uma estaca. Depois fomos atrás da atual casa dos e colocamos uma pedra e uma estaca de pau-preto. Por último descobriu-se que também havia no cajueiro junto ao atual Centro Paroquial S. Francisco Xavier, onde colocamos uma estaca.



Quando veio a equipa de abertura de furos, preferiram a nossa última pesquisa. Aí abriu um furo em que a quantidade de água não era suficiente. Eu por minha iniciativa conduzi a equipa para perto de um morro de mochem, que pelas características da zona parecia-me haver água. Quando chegamos, viram que realmente existia uma grande quantidade de água, a qual até hoje nunca faltou.

Assim foi o início da chegada dos Padres e a história da água da missão por mim descoberta».

14 de maio de 2013

Pentecostes 2013

Pentecostes 2013

Raul Viana
Itoculo


Desejamos a todos os amigos e colaboradores uma alegre e animada festa de Pentecostes, vivida ao ritmo do Espírito. Que neste dia, e sempre, haja luz e inspiração para todos, para assim nos mantermos «fervorosos no Espírito».



Protagonista da Missão
Espírito Santo de Deus
Novidade de cada tempo
Testemunha da verdadeira fé
Evangelho de cada dia
Caridade em ação
Ousado defensor
Santidade contagiante
Transformação radical
Espírito de Pentecostes
Sopra sobre nós.



Feliz festa de PENTECOSTES
Feliz festa da CONGREGAÇÃO
do ESPÍRITO SANTO

30 de abril de 2013

São José para o Presidente

São José para o Presidente


Damasceno
Itoculo


Aqui deixo a mensagem que acompanhava a oferta que a paróquia de São José apresentou ao presidente na visita do passado dia 27 de Abril:


EXCELENTÍSSIMO SENHOR
PRESIDENTE DA REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE

Em nome de todos os cristãos membros desta paróquia de São José – Itoculo, apraz-nos oferecer a Vossa Excelência uma pequena estatueta representando o santo patrono desta paróquia: São José, pai adoptivo de Jesus e esposo da Virgem Maria.

Esta estatueta foi esculpida por um artista desta terra. Por um macua. Este povo não tem tradição nesta arte. Mas, é um povo com um coração enorme e uma extraordinária disposição para a hospitalidade. Foi este atributo que tornou possível o estabelecimento de macondes neste território do Posto Administrativo de Itoculo. E esta convivência permitiu um enriquecimento mútuo, no qual se inclui esta aprendizagem na escultura do ébano por parte de alguns macuas. Significativo é igualmente o facto de o escultor ser muçulmano. Apesar de professar uma religião diferente, tem contribuído de forma regular com trabalhos que lhe são solicitados pela comunidade cristã. Tudo isto revela uma atitude extremamente delicada e cordial do povo macua que muito tem contribuído também para a concórdia da Nação. Damos graças a Deus por isso.

São José inspira em todos os cristãos uma grande ternura pela forma humilde e dedicada, discreta e solícita com que desempenhou o seu papel de chefe da sagrada família de Nazaré. Pela fé, sabemos que ele intercede por nós junto de Jesus para que o nosso país possa continuar a caminhar na prosperidade e na paz, e para que todos aqueles que exercem o serviço da autoridade o façam com um zelo sempre renovado e incessantemente busquem o bem de todo o povo moçambicano.

28 de abril de 2013

visita presidencial a ITOCULO


visita presidencial a ITOCULO

Itoculo
Raul Viana

Sábado, 27 de Abril de 2013, o Presidente da República de Moçambique, Armando Guebuza, acompanhado de alguns Ministros do Governo, autoridades governamentais de outras Províncias e secretários dos Comités da Frelimo, aterraram na Localidade de Murutho, Posto Administrativo de Itoculo (Monapo). Aterraram porque chegaram de helicóptero (5), enquanto um bom grupo chegou de carro ou camião, e a grande maioria chegou a pé, pois é o único meio de transporte que possui.


Um mar de gente aguardava a visita do Chefe de Estado. Tudo estava enfeitado com bandeiras nacionais, panos coloridos, pedras caiadas… Os grupos artísticos e tradicionais (jovens, crianças e mamãs) executaram os seus cantos e danças. O protocolo e a segurança também cumpriram bem as suas tarefas e tudo correu bem.



Após as formalidades iniciais, com a plantação de uma árvore (m’baua) e a inauguração dos novos espaços da Localidade (Secretaria e Casa do Chefe da Localidade), seguiu-se o «Comício da Presidência Aberta e Inclusiva». Iniciou-se, então, com uma oração cristã e muçulmana feita pelos respetivos responsáveis (pároco da comunidade católica – P. Damasceno – e o xehe da comunidade maometana).

De seguida o Presidente saudou a população e agradeceu o acolhimento e as ofertas recebidas, justificando a sua presença nesta Localidade de Murutho. No seu discurso à população salientou duas coisas: a necessidade e o empenho pela paz e a luta contra a pobreza.
  
Podemos dizer que não foi por acaso que escolheu estes dois temas. De facto, a população local durante a guerra civil dos 16 anos sofreu muito com a guerrilha, pois esta Localidade de Murutho situa-se a meio-caminho entre as duas forças rivais (o centro da Frelimo em Itoculo e a base militar da Renamo em Mariri). Lendo um pouco do «diário de guerra» do P. Gino Pastor, então Pároco de Itoculo, de imediato descobrimos a grande quantidade de mortos, pilhagens, incêndio de casas, medo… e muitas outras atrocidades da guerrilha que aí aconteceram. Assim, quando o Presidente perguntou quantas pessoas tinham sofrido com essa guerrilha, muitas foram as mãos levantadas, e todas manifestaram a vontade de manter a paz alcançada.

Se para manter e trabalhar pela paz o Presidente pedia o empenho de todos, também para a «luta contra a pobreza», tema insistente do atual Governo, se exigia a colaboração de todos. Na verdade, «ninguém nasceu para ser pobre, mas todos devemos viver bem», insistia o Presidente. A riqueza do solo e subsolo moçambicano deve permitir uma maior qualidade de vida para todos: a nível da saúde, da educação, das vias de comunicação, da produção agrícola, etc… «Este será o caminho do desenvolvimento do país», concluía.

Outros pontos foram ainda falados quando o Presidente passou a palavra à população. Assim, além das 35 apresentações por escrito, 10 pessoas usaram a palavra para apresentar as suas preocupações. Sem medo de falar, corajosa e frontalmente, apresentaram a real situação da localidade: má governação e corrupção a vários níveis do Chefe da Localidade (aqui aconteceu a maior ovação de toda a visita presidencial), necessidade de mais e melhores escolas, urgência de um posto de saúde e de uma maternidade, facilitar o acesso a água potável, dificuldades nos salários em atraso, questões de justiça por resolver, necessidade de uma indústria local, etc…

Ouvidos os parlantes, o Presidente resumiu as apresentações feitas e, ponderadamente, disse que esses assuntos serão analisados pelos membros do Governo ali presentes. E com isto terminou o Comício agendado seguindo-se depois um tempo de encontro com as autoridades para averiguar as preocupações apresentadas.



Enfim, tirando algumas vozes «frelimistas» que ainda se fizeram notar por alguns membros dos comités presentes e que continuam a criar confusão entre Partido no poder e Governo, bem como a proibição de tirar fotografias no decurso de toda a visita presidencial, podemos concluir que a visita foi simples e simpática. A população acolheu a visita do seu Presidente, ouviu os seus apelos, expressou aquilo que sentia (falando sem rodeios), e agora aguarda novidades resultantes deste acontecimento.

25 de abril de 2013

visita do Presidente da República


visita do Presidente da República


Itoculo
Raul Viana


O Presidente da República, Armando Emílio Guebuza, visitará no dia 27 de Abril a localidade de Murutho (1º de Maio), no Posto Administrativo de Itoculo – Monapo. Esta visita enquadra-se na edição 2013 da «Presidência Aberta e Inclusiva». Segundo informações gerais, o objetivo desta visita é contactar a população procurando conhecer o grau de execução dos planos de ação de combate à pobreza do Programa Quinquenal do Governo.



Na verdade, tudo está mexendo para que esta visita aconteça. De há um mês para cá a movimentação de carros não cessa de circular por estes lados. Assim, no dia 17 de Março a Governadora da Província de Nampula entrou no local para se inteirar da situação. No mesmo sentido, o Administrador do Distrito de Monapo também não poupa esforços para verificar que tudo esteja conforme às necessidades de acolhimento de tal visita. E cada dia outras entidades passam com escolta policial.



De facto, num curto espaço de tempo novas instalações foram criadas que aguardam a inauguração do Presidente: Secretaria da Localidade de Murutho – Distrito de Monapo; Casa do Chefe da Localidade; Casa de Visitas; palanques para palestras e apresentações artístico-culturais… diversas tendas desmontáveis. Entretanto a escola primária que estava sem chapa por ter sido desviada para outros fins, já está composta, apesar de inacabada. Também os acessos de terra batida estão sendo melhorados, pois há uma grande comitiva a acompanhar, sendo que o Presidente chegará de helicóptero.



Não é fácil perceber o alcance destas visitas. O dinheiro despendido para que tal aconteça é muito, senão demasiado. Em pouco tempo o centro de uma localidade fica completamente transformado. O que poderá aproveitar a população local além de receber a visita do seu Presidente? Penso que a resposta virá posteriormente, aguardamos.

Mas os problemas e preocupações da população são reais e urgentes:
- Falta de escolas e pessoal docente, bem como irregularidades dos mesmos na execução da sua tarefa educativa;
- Falta de condições básicas de saúde: poucos medicamentos nos hospitais e comercialização dos mesmos nas feiras; grandes distâncias entre os centros de saúde existentes;
- Vias de comunicação deficitárias para circulação de bens e pessoas;
- Empregados (onde os há) com salário abaixo o mínimo nacional;
 - Falta de controle nos criadores de gado que devastam as machambas dos pequenos agricultores;
- Concessões de terra a estrangeiros (30 mil hectares) sem considerar a população local;
- Etc…



Evidentemente que a par de tudo isto também existem outras coisas que são boas e positivas, e que mereciam ser ressaltadas. Mas, a vinda do Chefe de Estado faz com que os olhos estejam mais atentos àquelas necessidades que urge dar uma resposta mais imediata e assim conseguir vencer a pobreza que assola esta zona do país. Isto esperamos!

19 de abril de 2013

breve história de ITOCULO
(PARTE III)
por Bento Veligi

10.       Os usos e costumes:
Quando morresse um Mwene o tratamento do defunto era diferente de qualquer outra pessoa. No enterro do Mwene tinha que se preparar farinha de mapira que cada membro familiar punha um pouco na mão do falecido, e cada um pedia o que quisesse, desejando-lhe boa receção no Deus dos deuses. Pois reconheciam a existência do Deus verdadeiro. O último interveniente nesta cerimónia era o sucessor do falecido, e, até hoje, é a pessoa que guarda a ephepa (farinha de cerimónia) que existe em cada tribo. A sucessão no trono pertencia à parte materna (sobrinhos e irmãos), mas nunca aos filhos. Portanto, uma linha matrilinear.

Falando da resolução de problemas sociais, era da responsabilidade do Mwene deliberar de acordo com a gravidade do caso:

- As relações sexuais com mulher do Mwene tinha um castigo severo, podendo ser assado ou queimado vivo; ou então andar enformado ou despido e circular completamente nu no meio da população, como forma de tornar público o mal cometido.

- Os roubos eram punidos e exigiam a total devolução. Aqui envolvia-se toda a família da parte materna que era obrigada a devolver tudo que tinha sido roubado.

- Todo o homem de sexo masculino tinha de ser submetido aos ritos de iniciação, isto é, ser circuncidado e receber conselhos tradicionais durante um longo período de tempo que podia atingir a duração de um ano ou mais. Aqui aprendia algumas táticas de guerra tribal, o modo como proceder nos enterros, a construção de casas, a resolução de alguns problemas familiares, o modo como tratar um doente; o conhecimento de aspetos próprios da mulher, tais como a menstruação e a gravidez.

Por sua vez, as mulheres também faziam os seus ritos e recebiam uma educação para respeitar as pessoas, em particular o marido. Aprendiam, através de alguns sinais, a maneira de mostrar ao marido quando estavam menstruadas. Por exemplo, o uso de roupa vermelha, o facto de mandar o marido meter sal no caril, e outros sinais que eram do conhecimento dos dois.


11.       O traje e o modo de vestir:
- Os homens vestiam mukotha, ou tanga, que tapava apenas os órgãos sexuais, fixando-se através de um cordel na cintura.
- As mulheres usavam um traje melhor do que o dos homens. A sua roupa envolvia toda a nádega, cobrindo as coxas. Usavam ainda missangas à cintura, enquanto que os homens punham apenas ao pescoço.

12.       As lutas tribais:
Os regulados sempre viveram com lutas de poder. Todos os Régulos tinham a sua tropa local de guarda e ataque. Nas lutas tribais usavam armas locais: flechas com ponta envenenada, pedras, fogo, magias, orações... Como fardamento usavam missangas, tatuagens, pinturas na cara, máscaras, chapéus de palha e de penas de aves.


13.       A religião:
Neste tempo a religião cristã ainda não tinha chegado nesta região. E quando chegou com os colonos portugueses, era considerada «religião dos colonos». Por isso, as pessoas rezavam junto dos embondeiros; nas montanhas; nas grandes tocas; junto dos muros de mochem; nos cemitérios onde estavam enterrados os Mwenes. Para todas as orações nunca faltava a farinha, preferencialmente de mapira (ephepa). Usava-se farinha de mapira porque era um dos mais antigos alimentos desta região.

14.       As fases do crescimento de Itoculo (Nakhuka)
Nakhuka começou por ser habitado pelos portugueses no século XIX, no tempo da grande perseguição ao Mwene Maru-haa. Inicialmente fundou-se um quartel em Cotocwane (Thamela). Aqui era a sede que funcionou durante a luta aberta dos portugueses contra os dois Mamwene: Maru-haa e Mukuthumunu de Namarral. Depois da derrota dos dois Mamwene, os portugueses fixaram-se definitivamente zona de Nakhuka, junto ao atual rio Sanhote. Mais tarde, passou à categoria do Posto Administrativo no ano de 1959, quando era Chefe de Posto um cabo-verdiano de nome Carlos Gamboa Matos. Assim, deixou de ser chamado Chefe de Localidade para passar a ser Chefe de Posto.

15.       Uma tentativa de explicação do comportamento das pessoas da área de Nakhuka
Muitos anos antes da dominação colonial as pessoas de Itoculo sofreram muita opressão. Por exemplo, quando morresse um Mwene, no seu enterro tinha que se arranjar uma donzela (emuali) que se enterrava viva com o Mwene; ou quando o Mwene estivesse a comer por exemplo ao meio-dia ou o jantar, alguns escravos tinham que estar perto para logo que o Mwene terminasse de comer, eles lutassem para tirar pratos de junto dele; da mesma maneira, o Mwene não podia fazer uma cova para defecar, mas eram os escravos que deviam tirar as fezes dele e enterrá-las; noutras situações o Mwene sentava-se em cima da cabeça de uma pessoa viva fazendo dela a sua cadeira; os homens evitavam ter uma mulher mais bonita que a do Mwene, senão ele tirava-lhes a mulher; também quando o Mwene cortava o cabelo, logo arranjava uma outra cabeça de pessoa ou leão para se sentar enquanto lhe cortavam o cabelo; por sua vez, ninguém podia ter relações sexuais com a mulher do outro, visto que esta prática estava sujeita à morte ou ao pagamento de grandes taxas ao dono da mulher e ao próprio Mwene.


16.       Nihimus mais comuns
O povo de Itoculo é de raiz macua. Os nihimus mais comuns são: Mirashi, Laponi, Mulima, Celegi, Mirekoni, Lucagi, Mali, entre muitos outros. Este último, Mali, da zona de Xihire, eram os ‘donos’ (operadores) da circuncisão dos rapazes nos ritos de iniciação. Geralmente este nihimus estão relacionados com os regulados. Por exemplo, Maru-haa é do nihimu Laponi, Thamela, Muripa, Mepova são do nihimu Mirashi.

Conclusão:
Esta é uma breve história de Itoculo feita a partir de um conhecimento local e com base num diálogo simples com as pessoas da zona. A única finalidade é ajudar a avivar a memória e fazer que os mais novos conheçam o seu passado e os seus antepassados.

26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...