4 de julho de 2017

E PORQUE COM OS PÉS TAMBÉM SE REZA…

Este fim-de-semana, vivemos na nossa missão de Itoculo uma experiência maravilhosa de oração, sacrifício e de fé. Realizamos a nossa primeira peregrinação paroquial à comunidade de S. Paulo Monetaca (a primeira capela construída no território que é hoje a paróquia de Itoculo. Foi uma experiência linda fazer aquela caminhada com boa disposição contando e louvando a Deus.


Volvidos cerca de 3h30min estávamos em Monetaca para recuperar o fôlego e continuar com o nosso programa: oração de acolhimento, terço, cânticos e animação, história da comunidade contada pela voz dos mais velhos que a viram nascer. A experiência mais forte para mim foi o tempo de confissões (durante a noite), onde nós os 3 padres atendemos cerca de 500 pessoas que quiseram abraçar a misericórdia e o perdão de Deus através deste sacramento. Mesmo se as condições não garantiram grandes luxos, a noite deu para descansar minimamente e no dia seguinte as 6h00 tivemos a oração da manhã, seguida da Eucaristia às 7h00.

Depois de comer alguma coisinha, pusemos novamente os pés a caminho para os cerca de 20km de regresso a casa. O cansaço e as dores do caminho foram reais, mas a alegria que do coração transbordava não deixava indiferente os que nos cruzavam no caminho. A dureza do caminho foi assim vencida pela alegria, a fé, a confiança, a perseverança e muita oração; porque dos pés brotaram as melhores orações do fim-de-semana e os mais belos hinos de louvor ao Criador… porque com os pés também se reza.

1 de julho de 2017

FORMAR-SE PARA MELHOR FORMAR

A vida é uma escola, onde a morte se apresenta como a graduação. Esta parece ser uma realidade aceite e vivida por todos (principalmente os que já se graduaram). Ora, desde que cheguei a Itoculo, tenho feito esta mesma experiência de um modo intenso, alegre e desafiante. Um dos campos com que tenho contactado muito de perto tem sido o da educação, onde deparamos com alguns desafios e que tentamos dar respostas na nossa missão do dia-a-dia. Quero partilhar, neste pequeno texto, algum do nosso trabalho que acreditamos ser uma pequena contribuição para a construção de um Moçambique melhor e para a edificação de uma Igreja moçambicana que responde aos desafios actuais.
Desde 2009 que a nossa missão de Itoculo conta com um lar feminino que permite, permitiu e, esperamos, continuará a permitir que muitas jovens possam estudar pelo menos até à 10ª classe. Volvido poucos anos, tornou-se evidente a necessidade de alargar essa mesma oportunidade a rapazes que enfrentam os mesmos problemas. Este sonho nosso amadureceu e tornou-se realidade. Estamos a iniciar com o lar masculino que acolhe, este ano, 21 jovens estudantes entre a 8ª e a 10ª classe. Esperamos um número bastante superior a isso no próximo ano.
Esta situação constitui um desafio para mim que, juntamente com o Alexandre, procuro acompanhar estes jovens. Por um lado, apostamos em criar condições para debelar os deficits que possam existir ao nível académico, mas não se esgota aqui a nossa responsabilidade. Reconhecemos que para uma educação de qualidade, precisamos passar da simples instrução (conhecimento académico) para uma formação integral. Este é o nosso grande desafio pois exige-nos uma maior formação da nossa parte ao nível cognitivo, pedagógico, cultural, psicológico e social. Daí que cada dia tem sido para mim uma aprendizagem constante, ao mesmo tempo que vamos procurando incutir nestes nossos jovens os valores humanos, sociais, morais e religiosas (sem proselitismo), que acreditamos ser importantes para a construção de uma sociedade que seja cada dia melhor. A sociedade espera muito de nós e, por isso, todos esperam que os que estão nos lares da nossa missão estejam acima da média dos jovens que estudam aqui mas que estão por conta própria. Somos chamados a ser fermentos na sociedade. Grande responsabilidade a nossa!
Acreditamos que para isso uma educação de qualidade é indispensável. Por isso, sinto a necessidade de me manter sempre aberto para aprender com estes jovens que enriquecem em muito o meu conhecimento e a minha formação humana, cultural, moral, religiosa e académica (e aqui não se pode apoiar na máxima de que «burro velho não aprende caminho»). Esta realidade nos faz sentir vivos, pois constantemente em caminho e visto que os desafios existem para serem superadas, cada dia é, assim, feito de pequenas vitórias (ainda que algumas vezes acompanhada de algumas frustrações). … Assim podemos dizer estamos a fazer caminho!!!

Anima-me saber que procurar respostas para os desafios vale mais do que procurar os limites, pois só quem tem vontade de progredir e de participar no progresso, tem legitimidade para procurar as lacunas e falhas. Que Deus abençoe o pouco trabalho que vamos fazendo.

23 de junho de 2017

Problema n°1

O desenvolvimento de qualquer sociedade deve começar pelo desenvolvimento e pelo fortalecimento do seu sistema de educação, não há outra forma de um país evoluir a não ser pela educação e alfabetização dos seus cidadãos.


Por estes lados, ainda não se chegou a esta conclusão básica, ou melhor, não se interessam por esta condição básica. A educação moçambicana deixa muito a desejar e o pior é que toda a gente tem consciência disso, mas é vantajoso que a população não seja capaz de argumentar, que não seja capaz de fazer perguntas e de exigir mudanças. Enquanto tiverem uma população incapaz de ler e assimilar informação, não vão ter muitas pessoas a questionar as suas acções. Segundo o ministério da educação e desenvolvimento humano 50,4% da população Moçambicana é analfabeta (dados de 2007), o que claramente não é verdade nem agora, nem na altura. Este número é certamente muito superior, porque ninguém "entra" aqui no mato para recolher dados reais.

Agora a grande questão é, assumindo que, esses dados são verdadeiros, será que os 49,6% sabem verdadeiramente ler??? Eu duvido muito, visto que muit@s menin@s chegam à oitava classe sem saberem ler e o mais incrível é que conseguem passar de classe, na realidade os critérios dos professores, são um pouco suspeitos. Passou um notícia no telejornal daqui, em que um professor universitário estava a ser questionado sobre a eficiência dos seus alunos, ao que ele respondeu que os alunos não tinham competências porque não sabiam o hino nacional!! O que é isso tendo em conta que esses alunos não sabem fazer um interpretação crítica de um texto simples!

O nosso trabalho por cá

A escolinha da irmã Adelaide é um dos projetos da missão que tenta combater a péssima qualidade deste sistema de ensino. É um pré-escolar que primeiro começa por familiarizar as crianças com o português o que já é um grande passo para uma melhor aprendizagem das letras, depois começa por ensinar as cores, os números, algumas letras, ensina a tarefa básica de pegar num lápis, muitos menin@s chegam à minha biblioteca sem sequer conseguir segurar direito um lápis.


É urgente combater estes sistemas de ensino que beneficiam com a ignorância dos seus alunos, é urgente combater a corrupção na profissão do professor que muitas vezes, aceita tangerinas, aceita capim, aceita dinheiro e entre outras coisas para simplesmente passar os alunos, nesta que devia ser uma das profissões mais nobres, não é bonito ensinarmos alguém a crescer? A desenvolver o seu sentido crítico? Não há maior fonte de riqueza que uma boa educação.

"Uma criança, uma professora, uma caneta e um livro podem mudar o mundo" 
Malala Yousafsai



13 de junho de 2017

"Look, this old man cannot speak Macua"

Few days after arriving at my Mission in Itoculo, Mozambique, I decided to have a little chat with some kids one afternoon after lunch. The kids were anxiously waiting under the trees outside our community for their afternoon lessons with Helena Ferreira (a Portuguese volunteer). I asked each of the kids to mention their names after I had introduced myself. But since I could not speak the local language- Macua, I asked the oldest among them to be the translator. However, a small kid about four years old said something and the whole group burst out laughing. I was curious to know what provoked the laughter so I asked my translator to explain. The reason for their laughter was amazing. The small kid said, “Look, this old man cannot speak Macua”. I was surprised at the statement but after reflecting for sometimes, I said the boy was right. I am above thirty years and yet could not speak a language that even a two year old boy could speak fluently. These kids could not comprehend why an African like me, with a skin colour similar to theirs could not understand or speak Macua. This experience, however, reminded me of a huge task ahead of me- to learn and speak the local language.


My encounter with these kids also reminded me of a discussion I had with my immediate former Superior General Jean-Paul Hoch in Saverne, France in 2015. I asked him to tell me the secret of a successful missionary life. One of the indispensable elements he mentioned was the learning of the local language. One cannot underestimate the importance and the necessity of local language in the evangelization process.

Effective evangelization necessarily implies the rooting of the Gospel message into the culture of the people in such a way that Christ becomes the principle that guides decisions and transforms the lives
of people. To understand the “soul” or the core values of a people, one must speak and understand their mode of communication. As such, language is the gateway to a comprehensive understanding of the worldview of a people. Without it we cannot render the Gospel more meaningful and more practical to people. Any attempt to evangelize people in a foreign language without taking into consideration their local language is an attempt to evangelize people outside their culture; it is like soaking a stone in water, the water does not penetrate through the stone.

Learning a new language can be a humbling experience but could also be very frustrating; sometimes, we are stretched to the limits of our capabilities. Learning a new language needs a lot of time, patience and courage. Kindly pray for me so that in the shortest possible time, “this old man” can understand, speak and evangelise in Macua. Counting on your prayers and support. Remain Blessed.
Vincent Ntrie-Akpabi C.S.Sp.

1 de junho de 2017

Com o Espírito Santo

A vida cristã com a luz e a força do Espírito Santo tem uma marca particular e diferenciada. Atenágoras, patriarca ortodoxo de Constantinopla, no seu poema/oração sobre o Espírito Santo ajuda-nos a ver isso mesmo, e confirma-se a partir de Itoculo.



SEM O ESPÍRITO SANTO:

- «Deus fica longe». Os adivinhos, a feitiçaria e os santuários tradicionais tomam o primeiro lugar.

- «Cristo permanece no passado». Os costumes e ritos tradicionais impõem-se à novidade cristã.

- «O Evangelho é letra morta». A mudança é difícil, e ouve-se sempre o mesmo refrão: «somos pobres!».

- «A Igreja é uma simples organização». Tudo está em função dos números e estatísticas. Até os Sacramentos são por interesse.

- «A autoridade é poder». Quem manda é aquele que tem o cartão do partido, e os outros são inimigos a abater.

- «A missão é propaganda». Não há formação gratuita para quem dá, nem para quem recebe: «o que vou ganhar com isto?».

- «O culto é uma velharia». Também o material litúrgico é descuidado (livros estragados, imagens desfiguradas, capelas descuidadas, etc...).

- «O agir cristão, é uma obra de escravos». Repetem-se os casos de poligamia, adultério, divórcio, desânimo… destruição das famílias cristãs.




COM O ESPÍRITO SANTO:

- «O mundo transforma-se em Reino de Deus». Os sinais de Deus acontecem, como foi o caso do casal infértil que recebeu a imagem da Sagrada Família e foi abençoado com um filho.

- «Cristo ressuscitado torna-se presente». Aquele recém-nascido (e já órfão de mãe) é acolhido na família e recebe o apoio do centro-nutricional.

- «O Evangelho faz-se vida». Aqueles que não sabem ler, começam a soletrar, é o efeito imediato do apoio aos estudantes. Uma aposta no desenvolvimento.

- «A Igreja realiza a comunhão com Deus e com os irmãos». Estar com os mais pobres quando chegam os megaprojetos (agronegócio) e usurpação das terras.

- «A autoridade transforma-se em serviço». Trabalhar por uma Igreja ministerial que ganha mais força quando todos têm um serviço na comunidade.

- «A missão é um Pentecostes». A proposta é clara: «Jesus Cristo é o Senhor», lê-se na parte da frente de um mini-bus.

- «A liturgia é festa». Cantos e danças, ao ritmo do batuque bem animado, num colorido cheio de vida e juventude, onde o tempo não tem limite e a alegria se espelha no rosto de todos.

- «O agir humano é um agir de filhos de Deus». A fé e a fidelidade a toda a prova, como aquele marido que acompanhamos e tudo faz para que a sua esposa volte ao lar: perdão sem limites.

Assim, valorizando a ação do Espírito Santo, trabalhamos para que as situações onde Ele está ausente se transformem em vida nova. Alguma coisa vai acontecendo porque também temos a ajuda e colaboração direta de muitos amigos e benfeitores da Família Espiritana e outros. Para todos os que partilham e sintonizam com a Missão em Itoculo invocamos o Dom do Espírito Santo para continuarmos unidos, firmes e fortalecidos. Obrigado.



25 de maio de 2017

Uma introdução à casa comum

Confesso que, sempre ignorei ou evitei ter conhecimento sobre o estado em que realmente se encontra a nossa terra. O documentário recentemente produzido "Before the flood" continua em lista de espera, até que tenha coragem para enfrentar aquela realidade e ignoro porque é um assunto que me assusta e inquieta verdadeiramente. Mas recentemente a irmã Adelaide pediu-me para dar formação aos grupos da Cáritas e saúde, sobre o tema do meio-ambiente com especial enfoque na carta "Laudato Si" do papa Francisco, que também continuava em lista de espera até que a coragem chegasse.

Acontece que, falar desse tema a Moçambicanos é verdadeiramente desafiante, pelos simples motivo de que a maior percentagem de poluição ambiental não pode ser atribuída a estas países e se efetivamente queremos ver sinais de esperança e de mudança não são estes países que têm de passar por mudanças drásticas.

Uma das perguntas com que iniciei os temas, foi para que me dissessem qual a diferença que os papás e as mamãs sentiram no meio ambiente, ou na casa comum (forma magnífica que o Papa Francisco adoptou para a referência ao meio ambiente), desde que nasceram até ao momento actual. As respostas foram unânimes, menos animais, já não há impalas, já não há gazelas, já há poucos macacos, já não há leões, mais calor e menos chuva, a tão preciosa chuva.

A chuva, uma das coisas que me impressionou quando cheguei, foi o facto de as pessoas estarem à espera da chuva, só isto, esperar que chova para que haja a possibilidade de terem comida durante o ano (na época das primeiras chuvas não tinha chovido), é angustiante assistir a essa espera, imagino vivê-la... Aqui depende-se da chuva para sobreviver, sem chuva não há comida, e os anos estão a passar e a chuva a escassear, portanto aquelas pessoas que me dizem que as alterações climáticas não existem e que o aquecimento global é uma invenção, simplesmente me irritam e dizer que me irritam sou eu a ser delicada. Por isso, querido Trump, se quiseres vir viver aqui, 2 ou 3 anos, e vires esperar que chova, teremos todo o gosto em te provar que o aquecimento global é uma realidade, mas como muito recentemente te encontraste com o nosso querido Papa Francisco e ele te deu um exemplar dos melhores "livros" que li atualmente, só posso desejar que o leias e que aprendas alguma coisa.

Podias-vos continuar a falar da forma difícil de combater o aquecimento global por estes lados, devido à corrupção, devido ao corte desenfreado de madeira, devido à venda de terras para exploração estrangeira, mas já me estiquei na conversa, por isso convido-vos a lerem a encíclica "Laudato Si", independentemente da religião que tenham, ou que não tenham, é uma leitura agradável e elucidativa. E talvez um dia com mais inspiração volte a esta temática.




19 de maio de 2017

Aproxima-te

É este o convite e o desafio que qualquer missionário é chamado a viver no seu dia-a-dia.
E nós por missão em Moçambique concretamente em Itoculo não estamos indiferentes a esta causa do aproximar e apresentar o que de mais precioso temos.

Esse aproximar do povo, entrar na vida do povo, na sua cultura e falar a sua própria língua expressa também um outro desafio que qualquer missionário enfrenta quando é enviado para um “mundo desconhecido”.
Mas graças a Deus nunca faltam pessoas para te fazer “ritos de iniciação” e te introduzir na riqueza cultural do povo.
O mais difícil é dar o primeiro passo e o resto é tudo resto. E nesse aproximar o nosso exemplo é e deve ser Jesus Cristo que o Evangelho de Lucas nos explica e muito bem através da parábola do “Bom Samaritano”. Aqui o ter compaixão manifesta uma maneira de viver e aproximar, decidir sempre amar o irmão, e qualquer cristão só na medida em que tem a coragem de despojar de si próprio para ajudar o irmão é que se identifica com Deus.
A alegria do encontro e identificação com Deus é que te conduz ao encontro do outro. E como se costuma dizer ninguém dá aquilo que não tem e nós não podemos ser evangelizadores se primeiramente não fomos evangelizados. Só quando configuramos com Cristo é que recebemos o olhar adequado para o testemunhar.
E por Itoculo no meio do povo macua temos os diferentes ministérios (ancião, catequista, animador dos casais, animadora das mamãs, animador dos jovens, animador da cáritas, animador da justiça e paz, animador das vocações, animador da saúde, animador do ecumenismo, infância missionária e animador da comunicação social) que exterioriza esse aproximar do povo, mas sempre proclamando a realidade de Deus às pessoas não só com palavras mas também com ações concretas.
E esse fazer-se próximo que não é só físico mas também espiritual que expressa através de atividades paroquiais, atividades nas regiões, visita e celebração nas comunidades, visita às salas de catequese, curso de formação aos animadores, et cétera et cétera.

Com tudo isto Cristo deve ser a primeira bússula que nos orienta e conduz. E esse fazer-se perto é e deve ser a maneira viva de ser e agir de Jesus e é uma forma de tornar presente o passado.
A outra bússula que nos conduz é a fraternidade e a vida em comunidade. A vida em comunidade constrói também uma parte da nossa identidade e é ao mesmo tempo o símbolo mais expressivo daquilo que somos. É também uma maneira de viver a missão e é onde encontramos a força para o viver de cada dia.


As nossas ações espelham aquilo que somos. Independentemente disso e daquilo que fazemos a iniciativa parte sempre de Deus e ele propõe-nos um caminho e garante a sua presença e muitas vezes nem nos damos conta. E aquilo que Deus nos pede é realizável, é possível que tem as suas dificuldades e os seus desafios, mas como o homem não foi feito para os desafios, mas os desafios para ele e Deus certamente que nunca abandona aqueles que ele escolheu e com Ele tudo venceremos. Glória ao Senhor também por isso. E para terminar uma dica só, esse verbo aproximar convida-nos a ser “o rio que passa pelo coração do homem e que tem a sua foz no coração de Deus”.

26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...