18 de abril de 2018

Nas periferias da Beira, Chimoio, Nampula e Nacala


Maputo, Beira, Nampula, Nacala…eis as terras por onde passei nesta visita guiada à Missão Espiritana por terras der Moçambique.
Para os Espiritanos, tudo começou em 1996, quando seis Padres foram nomeados por Roma. Três chegaram a Inhazónia, no Chimoio, quase na fronteira com o Zimbabwé. Outros tantos foram para Netia, no interior pobre e abandonado da Diocese de Nacala. A guerra, terminada oficialmente em 1992, ainda ‘mandava’ naquelas paragens, por onde passou com muita violência. O abandono religioso, a que a revolução da independência votou os moçambicanos do interior, fez destas Missões espaços de primeira evangelização, ou quase!

Moçambique a mudar


O país cresce, como quase todos, a diversas velocidades. Os centros das cidades (Maputo, Beira, Nampula…) aceleram o desenvolvimento com novas e modernas construções de bancos, empresas, centros comerciais, hotéis… As estradas que ligam as grandes cidades estão bem e a melhorar, regra geral, como acontece na ligação rodoviária entre a Beira e o Chimoio, dando ligação para o Malawi e o Zimbabwé. Mas as periferias continuam pobres e abandonadas e o interior passa quase ao lado do progresso, sem estradas, escolas, hospitais que valham ao povo simples que ali mora.

Há empreendimentos agrícolas em curso que podem desenvolver o país, é certo, mas que tiram aos pobres agricultores os seus cantinhos de terra. O agronegócio está a ser muito contestado pela Igreja, por causa dos danos colaterais que vitimam as pessoas mais frágeis. A doença do Panamá deu cabo da produção de bananas. As chuvas intensas do início do ano destruíram casas, caminhos e culturas, sobretudo no norte e centro.

A liberdade, nas suas várias expressões, deixa ainda muito a desejar. Não se pode aceitar o assassínio do edil de Nampula nem o rapto e tortura do jornalista Ericino Salema (em Maputo), de que as autoridades judiciais não descobrem os autores. Há muitos postos de recenseamento eleitoral, mas desconfia-se sempre dos resultados das eleições. O mundo da política está envolto em suspeitas graves por causa das ‘dívidas ocultas’ do governo que ninguém quer assumir nem pagar, embora os credores internacionais ameacem.

Nas periferias da Beira

Os Espiritanos inauguraram, há dois anos, uma comunidade nas periferias da Beira que é hoje um pequeno Seminário. Tem seis jovens, apoiados por dois padres (Nicholas - zambiano e Mango - nigeriano) que se encarregam da nova paróquia da Natividade, situada nas periferias pobres e alagadas da cidade. Ali vivi o domingo de Ramos, com uma procissão feita a partir do início geográfico da paróquia, com caminho aberto pelo carro da polícia. Depois, já na nova estrutura que é a Igreja, houve bênção e Missa de Ramos, com a participação de uma multidão de povo, sobretudo crianças e jovens. Nesta mesma Igreja, ali celebrei a Missa de Quinta-Feira Santa, com o lava-pés. Com as chuvas violentas desta época, todos os caminhos e quintais se transformam num charco intransitável e gerador de doenças, dada a proliferação de mosquitos nestas águas sujas e paradas.

A Igreja na Beira continua a celebrar a memória viva do seu primeiro Bispo, D. Sebastião Soares de Resende.

Em Inhazónia e Chimoio

São longas as distâncias que se percorrem em Moçambique. Com o P. John Kingston, percorremos os 200 kms que separam a Beira do Chimoio, para juntar mais 160 até à Missão de Inhazónia, num interior pobre e abandonado, por onde a guerra civil passou e fez muitos estragos. Ali chegamos no meio de uma tempestade tropical que levou a energia, toda ela vinda da barragem de Cahora Bassa. Na área da Missão, os Padres John (irlandês) e Joseph (nigeriano) são apoiados pelas Irmãs do Coração de Maria e Reparadoras do Sagrado Coração de Jesus. Assistem 30 e tal Comunidades, estando a mais distante a 210 kms, por caminhos de terra batida!

De regresso ao Chimoio, a Terça-feira Santa foi de reflexão para todos os padres, Missa Crismal com o jovem Bispo, D. João Carlos, e jantar com o clero.

Presença em Nampula

Nampula cresce para todos os lados, como acontece a boa parte das cidades africanas. Numa das periferias, os Espiritanos tomam conta de uma paróquia com quatro grandes comunidades: S. João de Deus, S. Rafael, S. Simão e Cristo Rei. Foram fundadas pelos Irmãos de S. João de Deus, idos de Portugal, que ainda lá estão a viver e a trabalhar. Ali vivi uma longa Via-Sacra pelas ruas de S. Rafael, em Sexta-Feira Santa, seguida da celebração da Paixão e Morte de Cristo. Foram muitas horas de Fé intensa e transpiração em bica, tal o calor abafado que se sentia neste ambiente aquecido pela concentração de largas centenas de pessoas. Pude visitar, mais tarde, a Escola de S. Rafael e a Creche de S. Simão, espaços pequenos e sem condições para acolher tantas crianças com fome e sede de aprender. A Comunidade Espiritana é muito internacional, com os padres Alberto (angolano), Desmond (irlandês) e Makimba (congolês).

S. José de Itoculo

A Missão Espiritana tem expressões muito plurais porque tem três Padres (Raul – português, Edmilson – caboverdiano, Vincent – ganês), quatro Irmãs (Ir. Eduarda e Ir. Adelaide – caboverdianas, Ir. Paula- angolana e Ir. Tatiana -centro-africana), o jovem estagiário Gilberto e a Voluntária JSF Cristina. Apoiam 79 Comunidades que se estendem por uma longa geografia de terra batida que, nesta época das chuvas, tornam as visitas muito complicadas. As Irmãs dirigem um Lar de 50 meninas que, residindo na vila podem ir à Escola e têm também uma Creche e um Centro Nutricional. Os Padres dirigem o Centro Pastoral (de formação dos leigos), o Lar de Rapazes e a Biblioteca. Percorrem toda esta área para celebrações e acompanhamento pastoral das Comunidades.

Tive a alegria de viver uma longa e festiva Vigília Pascal, presidida pelo P. Edmilson na Igreja da Missão. Na manhã de Páscoa, fizemos quase duas horas de picada para chegar até Cristo-Rei de Djipwi, onde se celebrou, com muita festa, a Páscoa, presidida pelo P. Raul. Em todas as celebrações pascais houve baptizados e casamentos. Nas paróquias Espiritanas de Nampula e Nacala houve, nesta Páscoa, mais de mil Batismos de catecúmenos! Como sempre acontece em contexto macua, quer no fim da Vigília quer no fim da Missa de Páscoa, houve a tradicional refeição de ‘Xima com frango’, o prato festivo que junta farinha de milho cozida com frango de campo, uma prova forte para dentes que não sejam fracos como os meus!

Na viagem entre Nampula e Nacala (Itoculo) impus paragens obrigatórias nas Missões Combonianas de Carapira e Anchilo para encontrar a Irmã Clarinda e o Irmão Neto. Este trabalha no grande Centro Catequético que publica a revista ‘Vida Nova’. Em Maputo, fui acolhido e mimado pelos Combonianos, os Padres Constantino, Paulo e Albuquerque. Em Nampula, reuni com o P. Benvindo, diretor da Rádio Encontro.

Que Missão agora?

20 anos depois, o panorama está muito mudado. Os Espiritanos mantêm-se em Inhazónia e mudaram de Netia para Itoculo. Foram abertas comunidades em Nampula e na Beira. Sempre com os mais pobres, nas periferias. Tive a oportunidade de visitar as quatro comunidades, encontrar os Espiritanos e Espiritanas que, por terras de Moçambique, partilham o dia-a-dia sofrido dos povos com quem vivem. Celebrei o domingo de Ramos e a Páscoa. Regressei de coração cheio, convencido de que ali se escrevem grandes páginas de Evangelho no meio de enormes dificuldades, mas muitas alegrias. O futuro dos Espiritanos em Moçambique está a gritar por mais presença, mais investimento, mais Missão.

Tony Neves

31 de março de 2018

PASSAR DA MORTE À VIDA

Estamos a viver, nesta semana especial, o acontecimento maior da vida da Igreja. Tal nos convida a dar passos cada vez maiores no nosso compromisso de fé. Cada ano a liturgia nos propõe uma caminhada com Cristo para a morte e a ressurreição contínua. A semana santa, com a sua riqueza incomensurável, nos mergulha com Cristo na sua morte para, de modo tão admirável, nos fazer ressurgir para a vida nova no Espírito Santo.
O tríduo pascal é sem dúvida o ponto alto da semana santa e o culminar da caminhada quaresmal, proposta pela sagrada liturgia romana. A vivência deste tempo forte, na nossa realidade missionária, suscitou em mim esta reflexão que pretendo exteriorizar neste texto em forma de uma partilha informal.
Durante estes dias, entre momentos mais reflexivos e outros mais festivos, a imagem da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo aparece, como nos apresenta São Paulo, como o centro da vida cristã e do anúncio da salvação. E eu me pergunto: será que, numa realidade onde o sofrimento e a dor nos entra pela vista adentro, continua a ser pertinente o anúncio da cruz de Cristo? Ou ainda: num mundo onde cada vez mais se tende a evitar, esconder e olhar para a dor, o sofrimento e a morte como algo quase obsceno, ainda faz sentido um anúncio que leva como estandarte a mensagem do Crucificado? Diante desta inquietação, só uma resposta me pareceu plausível e adequada: hoje mais do que nunca o mundo precisa escutar esta mensagem e aprender a lição da suprema doação materializada na Cruz de Cristo.
A mensagem do Calvário não é anúncio de uma desgraça, da mesma forma que o acontecimento do Gólgota não é nem nunca poderia ter sido uma fatalidade ou o infortúnio de um mensageiro não compreendido pelos seus contemporâneos. Ao olhar para a cruz, o que vemos é um dom incondicional e o amor maior que o ser humano jamais pôde contemplar. É o verdadeiro amor que Deus sempre manifestou para com o Homem, agora, incarnado na doação total do próprio Filho do Altíssimo. É grande este mistério! Não menos importante é a mudança que isto acarreta sobre a nossa maneira de ser e de viver; antes de mais o sofrimento já não pode ser visto como uma desgraça do destino, mas podemos olhar para ele como possibilidade de manifestação do dom. A morte também pode ser o lugar de graça e de esperança. Se, na sua morte, Cristo nos deu a vida, isso significa que a morte pode ser a semente lançada à terra para que a vida germine e cresça.
Se olharmos assim para a nossa vida, certamente, a dor e a morte poderão também encontrar um lugar no seio da nossa existência. Quando conseguimos integrar a morte e o sofrimento na nossa vida e na nossa sociedade, mais facilmente compreenderemos que o único caminho para viver bem e com dignidade não é a fuga, mas a doação. Abraçar a cruz de Cristo é também passar pelo monte das Oliveiras e viver a noite da dor e da solidão em atitude de esperança. O que torna a dor ainda mais insuportável é o desespero e o sentimento do vazio: se não houver a esperança de que ainda resta algo pelo qual eu posso lutar e que está ao meu alcance, a dor se torna desumana e a eutanásia, o suicídio ou outras formas de «não-vida» se apresentam como a única solução viável. Ora, em Cristo aprendemos que a morte não significa «não-vida», mas também é um lugar onde Deus se manifesta. Será que no mundo de hoje já não há lugar para esta mensagem? A nossa sociedade pode ser privada deste anúncio? E se nos omitirmos a esta missão, quem pode levar esta mensagem de vida aos Homens de hoje e de amanhã? Que neste tempo pascal cada um de nós possa levar esta Cruz de Cristo gravada no nosso coração ao encontro dos irmãos. A Páscoa nos convida, em cada ano, a olhar para a cruz e ver, não já o instrumento de suplício, mas sim a árvore que produz frutos de vida divina. A todos uma feliz e santa Páscoa, repleta das maiores bênçãos de Cristo o cordeiro de Deus que nos salva do pecado.

2 de março de 2018

Um mês de Itoculo...


Um mês de sol, de sorrisos, de terra vermelha, de buracos na estrada, de capulanas de cores vivas, de muitos "ta ta vó" a caminho das comunidades, de encontro com Deus, de muitos nomes, de Macua, uma língua que não entendo, mas que começa a tornar-se familiar aos meus ouvidos... Um mês de muitas novidades, "Ihali?", palavra que se repete todas as vezes que nos cruzamos com alguém que, não cumprimenta somente, mas também pára para saber as novidades daqueles que vivem na sua comunidade e fazem parte dos seus dias. " Salama!", "Está tudo bem!", nem sempre é a resposta que se ouve, porque a resposta é sempre sincera... "Normal!, Doença!, Fome! Malária!" são algumas das respostas que diariamente ouvimos por aqui. Acima de tudo, tem sido um mês de muitas pessoas, pessoas que enchem o meu dia e que alentam o meu coração que ainda fica pequenino quando vê as dificuldades do povo e os desafios dos cristãos e sente as necessidades das crianças e dos jovens, que, muitas vezes, agigantam-se de tal forma que parece não haver maneira, não haver lugar para a esperança nos seus corações.

Procuro caminho e em Deus encontro direção para dar o melhor de mim e tentar ser um pouco dessa esperança que parece perdida. Aqui e aí, Deus chama-nos, a todos os Cristãos, para olharmos para o nosso Irmão e colocarmos ao serviço todos os dons com que Ele nos abençoou. Tenho aprendido com aqueles que me acompanham nesta missão que esses dons são sempre mais do que julgamos... podemos sempre dar um pouco mais de nós. Basta voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida, como nos diz o Papa Francisco na mensagem para esta Quaresma, mensagem que ressoa nas palavras dos padres da missão, sempre que falam às comunidades... mais do que ler o Evangelho, Deus quer que O vivamos!

Um mês de Itoculo...um mês que veio transformar a casa me recebeu no meu lar, um lar que acolhe todos os que aqui estão, todos os que por aqui passaram e todos os que nunca estiveram em Itoculo, mas têm o seu coração aqui. O Itoculo do P. Pedro, do P. Damasceno, da Rita, da Xana, da Joana, do Miguel, da Ernestina, da Helena e de tantos outros tornou-se também o meu Itoculo... a missão é a minha casa e eu encontrei o meu lugar! Estamos vivos, estamos juntos e juntos continuaremos a caminhar com e pelo povo de Itoculo. 

25 de janeiro de 2018

UMA DÚZIA

Quem vai ao mercado, ou à feira, pode facilmente ouvir dizer que «à dúzia é mais barato». Aqui na Missão de São José – Itoculo este ano, com a recém-chegada Cristina Fontes, completamos uma DÚZIA de Leigos Missionários Voluntários nestes 14 anos de presença espiritana em Itoculo. Muitos outros Padres e Irmãs Missionários do Espírito Santo, e também os jovens estagiários espiritanos em formação (até ao momento já somam 9 estagiários), ajudaram a embelezar esta Missão, sempre no ritmo missionário de chegar e partir.



Mas com a chegada da Cristina, no dia 23 de Janeiro deste ano, completa-se o total de 12 Voluntários/as que marcaram presença e deram uma parte das suas vidas a esta Missão. Cada um na sua área profissional de formação deu o seu contributo generoso que recordamos com grata memória. A diversidade da acção missionária local acolheu cada um na sua particularidade, e também permitiu descobrir novos talentos que a necessidade obrigou a despontar. Cada um que o diga!

Trata-se de uma lista que começa a meter respeito!

1-Logo no início, vindo ainda da Missão de Netia, estava o enfermeiro Christophe Héveline (francês-2003). E numa missão, não muito distante, estava Natacha, que não esquecemos.

2-Depois veio o Hugo Rodrigues (JSF de Tires-2004) que os alunos recordam como bom professor de português, mas muito exigente.

3-Seguiu-se a Engenheira Celeste Reis (de Lisboa-2006) que ajudou a construir o Centro Paroquial São Francisco Xavier que ainda hoje permite a formação de muitos agentes de pastoral.

4-Depois veio a Joana Pedro (JSF de Monte-Abrãao-2008), também formada na área da engenharia ambiental e animadora de jovens.

5-Continuou com a Ernestina Falcão (de Esposende-2010) professora de biologia e amante dos livros e da leitura, promotora das escolas comunitárias.

6-Outra Joana (JSF de Serzedelo-2012) ocupou o lugar valorizando ainda mais os livros e a biblioteca, não fosse ela arquivista de formação!

7 e 8-Uma dupla, Xana Martins (JSF de Mértola-2013) e Rita Coelho (JSF de Lordelo-2013) e , animaram a juventude e inauguraram a nova biblioteca. Pouco antes tinha chegado a Clemence, enfermeira francesa, mas que não foi autorizada pelo governo moçambicano a trabalhar na área da saúde e regressou.

9 e 10-Seguiu-se a Babuxa (de Sintra-2014) e o Miguel Campos (JSF de Carvalhal-2014) que coordenou os trabalhos na construção do Lar masculino de estudantes para acolher 40 rapazes este ano.

11-Mais recentemente a Helena Carvalho (de Braga-2017), economista de formação mas empreendedora e muito ‘faladeira’ por natureza.

12-E agora a Cristina Fontes (JSF de Fiães-2018) professora de português e inglês e outras coisas que vamos descobrir, e que ainda não podemos dizer…

Uma lista que merece ser continuada pela riqueza da sua diversidade. Se alguém ainda tem dúvidas destes da grandeza e da pertinência destes projectos, aqui fica esclarecido. Também, se alguém ainda hesita em arriscar dar um passo que leva a viver este tipo de Missão, aqui mesmo encontra muitos exemplos de entrega e dedicação. Parabéns a todos/as que por aqui passaram e nesta Missão deixaram as suas marcas. Agora estão um pouco distantes fisicamente, mas tentando sempre ficar próximos. A todos reafirmamos esta certeza que estamos juntos!


Para a Cristina Fontes damos as boas-vindas com votos de boa missão por terras de Itoculo, na Diocese de Nacala.

20 de janeiro de 2018

DEPOIS DAS CHUVAS INTENSAS

O dia começou com uma chamada telefónica do animador de uma zona da paróquia a informar que muitas casas caíram com as chuvas que se fizeram sentir esta semana. Dois dias antes o jovem de uma comunidade informava que na sua comunidade caíram 35 casas. No dia seguinte rectificava e dizendo que subiu para 78, e hoje confirmava serem 85 casas, com possibilidades de aumentar nos próximos dias. Tudo isto resultou de um SMS enviado aos animadores para recolherem os dados e trazerem para o Conselho Paroquial a realizar-se no final do mês.

Após o mata-bicho, juntamente com o jovem Gilberto, seminarista estagiário, demos uma volta pelos bairros, era a sua primeira incursão a fundo por Itoculo. Cruzando pelo espaço da escola fomos na direcção do bairro Sanhote. Encontramos o Sr. Bento que estava a sachar o milho num pequeno terreno junto de casa, onde espera apanhar as primeiras massarocas para comer mais tarde. Saudamos e seguimos rumo à casa do chefe do núcleo de Santa Isabel, que encontramos quando regressava a casa com dois torrões de capim para transplantar e resguardar a sua casa das águas da chuva. Uma planta que serve também para afastar os mosquitos e dá um chã agradável para situações de indisposição. 



Este encontro deu-se quando estávamos a saudar o responsável da família da comunidade de São José, que estava a cortar um cajueiro que caiu em cima da sua latrina. Entretanto chegou um jovem que ia visitar um seminarista e combinar a viagem para Maputo. Também o seguimos nesta visita quando vimos que estava uma conjuntivite há já duas semanas. Saudamos toda a família e continuamos viagem, passando pela casa do Sr. Luís que estava de cama. Entramos para saudar e desejar as melhoras, pois já tinha estado bastante mal, pouco tempo atrás.

Por entre as casas do bairro seguimos até apanhar a estrada principal. Aí encontramos três estudantes que também iam visitar o colega que estava doente. Continuamos mais um pouco e cumprimentamos a mamã Lucinda que estava com a sua criança recém-nascida, também ela com conjuntivite. Descemos mais à frente saudando as pessoas e observando as várias casas caídas ou em risco de cair. O nosso objectivo era chegar à casa do Ancião da comunidade, mas ‘encontramos quando ele lá não estava’.

Na volta, tomamos o lado contrário da estrada e passamos pela casa do Sr. Cássimo onde estava apenas a esposa com as crianças, lamentando-se dos estragos que a chuva causou na cozinha e no celeiro. Continuamos viagem e uma senhora nos interpela para saudar e dizer que está mal da garganta, mas, como tinha entrado no hospital, conseguiu algum medicamento que vai tomar. Desejamos as melhoras e seguimos até ao mercado pela estrada central. Passamos por um grande cajueiro que tombou sobre uma casa e que agora estava cheio de crianças penduradas como num baloiço e em forma de trapézio. Aquilo que era uma tragédia para uns, para estes infantes começou a ser um centro de brincadeira e animação. Talvez seja uma maneira alternativa e mais animada para olhar esta triste realidade.

Daí cruzamos para o cemitério dos monhés que estava fechado. Mais à frente entramos na zona do bairro Novo onde muitas casas também sofreram com as chuvas intensas. De seguida penetramos no bairro de Talalane passando por uma grande mangueira que estava a ser bem abanada nos seus frutos ainda verdes. De tanto abanar se encheu todo o chão de mangas verdes, era a fome e a vontade de apanhar mangas comestíveis. O pior é que amanhã não terão outras mangas para comer, porque tudo ficou estragado no chão. Hoje apanham algumas e amanhã não terão nada, apenas mais fome. Esta é a lógica da pobreza que leva à miséria.

Sofrendo da real pobreza estava uma mamã que se aproximou e nos pediu ajuda porque a sua casa caiu totalmente com as primeiras chuvas. Sem ter onde ficar, abrigou-se provisoriamente na casa da filha. Uma situação que se terá de prolongar no tempo, pois este não é período para novas construções. Uma situação provisória por tempo indeterminado.

Continuamos e avançamos até ao núcleo de São Lucas, onde estava o Sr. Paulo com os seus amigos sentados com sinais de quem está a tomar uma ‘primeirinha’ (aguardente local). Também a sua casa foi danificada num dos lados, mas a sala do núcleo estava intacta. Nada de pânico nem alarme, pois ‘Deus enviará o sol para repor tudo no sítio certo’, dizia ele animado pelo espírito da bebida. Aí encontramos também o jovem Okeya, conhecido de todos pela insuficiência mental, mas muito calmo e simpático. Ele nos acompanhou e era o centro das atenções até chegarmos a casa.



Enfim, foi uma volta rápida e atenta que ajudou a ver o estado da situação provocado pelas chuvas intensas de uma depressão atmosférica vindas do Canal de Moçambique. São muitos casos que precisam de uma acção imediata da assistência do Governo local e central com activação do plano de emergência, mas até agora pouco ou nada se fez. E tudo isto situa-se apenas em Itoculo-sede, pois se considerarmos todos os bairros do Posto Administrativo, certamente que iremos ultrapassar as 2500 famílias desabrigadas.

Como Igreja não temos recursos para socorrer estas situações. Mas vamos pensar um plano que possa ajudar na reconstrução das casas. Não apenas na aquisição de material, mas orientação para um tipo de construção que minimize estas situações, onde prevaleçam as casas com cobertura de quatro águas. Mesmo se a maioria das construções são precárias, com adobes de barro amassado, também é possível que sendo bem-feitas elas possam suportar estes fenómenos naturais, vencendo essa precariedade.


«Que Deus nos ajude e seja favorável». É isto que queremos para este ano 2018, quando somos confrontados com situações imprevistas e bastante danificadoras. Ao mesmo tempo, tudo isto representa para nós um desafio à nossa capacidade rigorosa e eficaz de trabalhar. Estamos vivos. Vamos em frente.

27 de dezembro de 2017

Uma Carta de amor

Meu querido Itoculo,

O momento que eu mais temia chegou e tal como eu temia não estou preparada para ele, chegou a hora de me despedir de ti, de te deixar.

Mas antes de ir quero-te agradecer por tudo quanto me ensinaste, sempre com a tua imensa paciência. 
E algumas coisas que me ensinaste são para levar comigo para a vida.
Agora sei que quando as coisas não correm como planeado devemos lidar com isso com naturalidade, se hoje não deu, amanhã dará, no entanto não te habitues demasiado a isso porque pode ser perigoso, podes deixar de querer lutar e trabalhar por aquilo a que tens direito, tens de ser tu próprio a combater a tua pobreza, pois não vai cair ninguém do céu para o fazer por ti, tu mereces melhor só tens de ter consciência disso, tu mereces ter acesso a escolas competentes, a centros de saúde que se importem contigo, tu mereces ter acesso a água potável, a formação, mereces não ter de passar fome só porque num ano não choveu o suficiente, mereces um governo que ame o seu povo.

Ensinaste-me ainda que apesar dos meus problemas ou das minhas frustações devo viver a vida de forma alegre, apesar de não estar tudo bem, está tudo normal e isso é mais que suficiente para uma boa batucada.

Ensinaste-me que quando estamos no mato e muitas vezes não há rede no telemóvel, passamos a dar valor ao que é importante, damos valor à companhia de uma amigo ou de um familiar a uma boa conversa a um bom convívio.

Ensinaste-me que nem sempre precisamos de falar para comunicar, as tuas mamãs Macuas, que muitas vezes não conseguiram estudar porque tu ainda és um "bocadinho" machista, ou porque tiveram que casar cedo, foram umas excelentes amigas e professoras, sempre nas nossas conversas desajeitadas elas me demonstraram amor, preocupação, companheirismo, foram muitas vezes aquele carinho de mãe que precisava.

Ensinaste-me que devemos ser gratos por aquilo que alcançamos na vida, devo agradecer ter acesso aquilo que chamo condições básicas à vida.

E mesmo na recta final, quando eu achava que já me tinhas ensinado tudo, mostraste-me que posso planear tudo, posso ter tudo bem definido, mas tudo que está planeado pode não acontecer, pode sair tudo furado e a única coisa que não aconteceu foram os furos planeados, mas já sei já sei, amanhã havemos de lá chegar.

Mas a lição mais importante foi a de dar valor às pessoas, à família, à vida, se alguém que conhecemos está doente, devemos-nos unir para estar com essa pessoa, se existe um motivo de alegria na família mata-se uma galinha, um porco, faz-se um bom caril e fazemos uma festa, afinal a vida é demasiado curta e incerta para vivermos sempre tristes e zangados com ela.

Espero também te ter ensinado alguma coisa, pois todo o trabalho que fiz aqui foi com o maior amor, entreguei-me completamente a ti, e em quase quase todos os dias dei o melhor de mim.
Sei que em breve já vais ter outra, trata-a tão bem como me tratas-te a mim, sei que ela será muito feliz, e sairá daqui com um coração muito maior e muito mais aconchegado.

Vou sentir muito a tua falta, do teu calor, da tua fruta, do teu Verde selvagem, dos teus embodeiros, do teu castanho no tempo seco, do teu tá tá vô, mas vou sentir mais falta da tua alegria, tens sempre um sorriso para apresentar, tens sempre um Ihali para oferecer, tens sempre alguém a gritar o meu nome no meio do bairro, provavelmente uma criança feliz.

Espero não ter de trabalhar para uma Economia que mata, espero ter diferentes sinfonias nas minhas tardes, espero ter sempre direito ao meu Bom Dia, espero que comecemos a trabalhar para o bem da nossa casa comum, espero ter sempre o prazer do trabalho voluntário na minha vida.

Eu quero muito voltar para casa, mas não te quero deixar, e só tu e eu sabemos o que esta separação vai custar, mas vou fazer de tudo para voltar a ser feliz, assim como tu me ensinaste.

Foi um ano muito feliz,
Mpáka nihíku nikína,
Com todo o meu amor,
Helena











17 de dezembro de 2017

Quando é Natal?

É Natal quando as crianças famintas são trazidas ao centro nutricional e regressam com barriga cheia, levando ainda o leite e a papinha multimistura para a semana seguinte. 
Felizes os que contribuem para alimentar estes infantes.


É Natal quando um grupo de crianças do bairro aprende a socializar, começam a ler e escrever numa sala de pré-escolar ou simplesmente de ATL. 
Felizes os que se dedicam a alicerçar o futuro.

É Natal quando se acolhem jovens com dificuldades de acesso à escola, e juntos traçam um ritmo de vida e de estudo capaz de vencer o insucesso escolar. 
Felizes os apoiam e acompanham os sonhadores do presente.

É Natal quando um jovem termina um curso médio ou superior e é colocado num emprego, depois de muito esforço e privação. 
Felizes os que permitem fazer do sonho realidade.

É Natal quando um doente, um pobre de uma zona interior, é levado ao hospital, medicamentado e tratado com respeito e amor. 
Felizes o que se esforçam por dar mais dignidade à vida humana.

É Natal quando se tenta encurtar as distâncias para conseguir um balde de água, abrindo poços e furos de água. 
Felizes os que conhecem o valor de um copo de água potável.

É Natal quando uma família desavinda aceita ser aconselhada, reconhece o seu erro e vive o perdão mútuo. 
Felizes os promotores da reconciliação e da paz familiar.

É Natal quando se realizam cursos de formação e desenvolvimento, e se abrem perspectivas com novos valores de combate à pobreza. 
Felizes os que aprendem e ensinam à luz do Evangelho.

É Natal quando um grande número de crianças, jovens e adultos recebem os Sacramentos da fé cristã, e as famílias pedem para baptizar os seus filhos, depois de um tempo de formação e catequese. 
Felizes os que alimentam a fé e a vida das comunidades.

É Natal quando, para fazer tudo isso, cada um deixou de pensar apenas em si, nas suas preocupações e nos seus interesses, e se aproximou, acolheu e ajudou o irmão. 
Felizes os que descobriram que o nosso Deus é Deus-connosco em Jesus.

É NATAL quando acontecem todas estas coisas, e muitas outras parecidas, porque o Natal é Vida. E a Vida acontece em Itoculo.

Boas Festas e sê FELIZ neste Natal. 

26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...