17 de dezembro de 2018

MAIS UM ANO QUE TERMINA


Com o Natal que se aproxima também chega o final do ano civil. Para nós, aqui na Missão de Itoculo, é também o fim do ano pastoral e as férias grandes da escola. Em Janeiro de 2019 começa o novo ano civil, pastoral e escolar.

Como sempre, quando termina um ano, é tempo de fazer o balanço e avaliar o que se fez e como se viveu. Aqui há sempre muita coisa a dizer e muito mais a fazer e refazer. É assim o dinamismo da vida missionária. Principalmente, muito a agradecer.

O acolhimento da voluntária Cristina Fontes, a visita fraterna do P. Tony Neves, a Ponte JSF, os Votos Perpétuos da Ir. Tatiana, com a vinda do novo Bispo de Nacala à nossa missão, entre outras coisas, foram momentos de grande animação.


Os mais de 350 baptismos celebrados, 180 Primeiras Comunhões, 27 Matrimónios e vários Crismas integrados nos Sacramentos da Iniciação Cristã, marcaram a prática sacramental deste ano. A par disso estavam mais 3000 catecúmenos (crianças, jovens e adultos) e seus 225 catequistas. Somando a tudo isso estavam ainda animadores de cada uma das 79 comunidades, das 15 zonas e das 3 regiões, a nível dos diferentes ministérios (ancião, família, jovens, mamãs, caritas e saúde, justiça e paz, comunicação social, vocações…). Cursos paroquiais (total de 30) e formações nos centros regionais (cada semana) preencheram muitos dos nossos dias de pastoral.

A preocupação pela educação escolar no lar de estudantes Daniel Brottier e na Biblioteca paroquial foram também grandes momentos de entrega missionária. Tudo isto sem esquecer o ATL das tardes com as crianças do bairro. Os encontros com jovens estudantes e o apoio para a realização dos seus estudos em Itoculo e no Monapo, foram outros sinais positivos da nossa missão.


A montagem e equipamento de uma moagem eléctrica, a construção de um aviário (em fase de conclusão), a abertura de quatro furos de água (três nas comunidades e outro no lar de estudantes), o apoio a 1000 famílias mais carenciadas com rolos de plástico para a cobertura das suas casas caídas pelas chuvas intensas de Janeiro, os 150 mil paus de mandioca distribuídos por Itoculo inteiro, o projecto de segurança alimentar com a criação de caprinos e produção de hortícolas… Foram também acções concretas da nossa presença missionária.

Enfim, para viver e fazer tudo isto, contamos com a bênção de Deus que nos deu saúde e paz, e bom espírito de coordenação. Além disso, também foi grande a comunhão e solidariedade missionárias. A todos os que partilharam connosco um pouco das suas economias, queremos manifestar o nosso sincero agradecimento. Sem essa generosa colaboração muito do nosso trabalho ficaria por realizar. Muito obrigado a todos e todas do fundo do coração.


Novo ano 2019 está achegar e com novos desafios e novas aventuras, mas a mesma fé e o mesmo compromisso missionário. Isso mesmo queremos depois partilhar ao longo do novo ano. Agora resta desejar BOAS FESTAS com um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo 2019.

17 de novembro de 2018


Desabafo  de madrugada, na magia de uma visão!














Tenho medo de acordar:
e repetir os passos de ontem,
e ver tudo igual,
e não ver mudanças,
e ver os meus sonhos a ser engolidos pelas sombras da noite!
e não ter o chão debaixo dos pés,
Ver para alguém e não ver ninguém,
Ter a certeza de que não estou certo nas minhas certezas!
 e não respirar a vida,
Ver-me arder nas brasas da ilusão,
e ser cinza da verdade!

Quero acordar:
num mundo onde a irmandade é o talismã,
para agradecer o ontem e acolher o hoje
num mundo em que há um céu,
onde todos beneficiamos do mesmo sol e da mesma sombra!
num mundo onde o amor é a dinâmica das relações humanas.

Tenho que acordar:
Para remendar a verdade,
dizer ao meu vizinho: está na hora de caminhar;
enfrentar o dia e os  meus medos,
quebrar as correntes,
beijar o dia, abraçar a minha sombra,
e seguir o meu destino!
Parar de sonhar, acolher a minha realidade,
Abraçar a minha cruz e pôr-me a caminho,
Confiar em quem me pôs aqui, na chamada à vida;
Atar as correias das sandálias, e caminhar sem medo de quedas!

“Hoje temo viver, mas mesmo assim arrisco viver porque ninguém pode viver a minha própria vida por mim; se assim fosse, não era eu! Viver só por facticidade não quero. A minha esperança fracassa, sinto uma escassez de forças atordoando os meus sonhos, quando olho para o meu país e a sua política. Nasci num país que, segundo a constituição, o estado é democrático. Democracia? Ainda a ignoro, nunca a vi, os “boss” nunca a testemunharam. Como todas as crianças, queria apoderar-me da minha liberdade, crescer, ganhar asas, voar nos sonhos, mas hoje rastejo na terra. Sem impulso não consigo; o medo dos “caçadores dos sonhos”, aspetos negativos da minha cultura, parte as minhas asas. Sou mais um pássaro que sonha voar; sou mais uma criança entre tantas que sonha e se interroga a si mesma: até quando vou sair do berço da pobreza? Não há ninguém aqui nas redondezas capaz de ver que os meus pés anseiam por caminhos de uma infância digna, porque na falta deles estou condenado a este berço. Licença, dotados de inteligência, permitam-me dar umas dicas, mesmo não tendo diplomas como vocês: “criança é flor que murcha na falta de água”. Isto de dizer nos grandes palcos que, uma maneira manhosa e muito engenhosa de cativar os inocentes, «criança é flor que nunca murcha», não passa de um conjunto de palavras anémicas, marcadas pela carência da autenticidade e da verdade na minha realidade, e não passam de uma falácia. Quer entender melhor o que estou desabafar contigo? Mude de ângulo, deixe o miradouro e percorra, faz um contacto direto com o que tanto miravas de um extremo para o outro.
Sabe, nos meus tempos livres, o chão, os dedos, os paus são os meus materiais que uso para fazer uma simulação de um verdadeiro ATL propiamente dito. Falo-te da minha escola; a minha escola está aos pedaços; os paus, ruídos pelos vermes, já não aguentam; as chuvas quando vêm levam a metade das paredes, que na verdade são feitas de lamas, e na falta de apoio fica assim mesmo, uma “barraca-escola”; o professor aparece quando lhe apetecer; não há carteira e já estamos cansados de sentar nos troncos, outrora no chão para assistir aquela preciosa aula quando o professor aparece na escola; os meus livros não tardam muito a estragar, porque é no chão que os pouso… Façam algo de jeito, Senhores! Um certo dia passei na praça para a deposição da coroa de flores em homenagem aos antigos combatentes da pátria, ouvi discursos que ainda cultivam ódio, raiva, rancor no coração daqueles que ainda não despertaram do sono; discurso de massacre ao bode expiatório, colonos. Já passaram 43 anos, mas ainda nos sentimos no cativeiro. Afinal o que aconteceu há 43 anos atrás? Foi realmente o êxodo da minha nação? Um irmão mais velho disse-me que ainda somos colonizados, isto abolou todos os meus fundamentos. Façam algo de jeito, Senhores!


Tenho sede, Senhores! Quero água limpa, Senhores! Dizem nos slogans por aí “A água é vida”. Sim, mas hoje entre viver ou morrer de sede, sou obrigado a beber daquela água que, lentamente, à medida que sacia a minha sede, vai matando a minha vida. Na minha realidade, pouco se sabe de uma tal “água potável”, porque é de onde lavamos as roupas, tomamos banho, é que tiramos água para beber e confecionar o alimentos. Isto te parece normal? Façam algo de jeito, Senhores.
Antes de entrar na sala de aula cantamos orgulhosamente “pátria gloriosa”, mas onde está a glória da minha pátria? É isto que chamamos pátria gloriosa? Eu e os meus amigos ouvimos dizer que no nosso país somos ricos em recursos naturais, ouro, carvão mineral, pedras preciosas, petróleo, gás, etc. Mas estamos tristes sabendo da existência deles e dos seus usos constantemente e nós ainda continuamos a viver nesta pobreza crónica e a ter de suportar todos os dias condições menos humanas. Senhores, nós não estamos a beneficiar do que é nosso, porquê?
Sabemos que nas vossas mesas há lautos banquetes e os restos vão para o lixo, que também se bebe a meia e deita-se fora, enquanto aqui em casa há dias em que não vemos nada na mesa e, para que saibam, nem mesa temos; o nosso copo anseia por algo diferente daquela água suja. Não temos bola nem campo em condições e, quando queremos jogar, como qualquer um que vive em condições normais, improvisamos uma bola de balão (preservativo). Façam algo de jeito, Senhores!
Aqui na zona temos um grupo de amigos missionários, na verdade são verdadeiros amigos, preocupam-se connosco e com o nosso bem-estar, e dentro daquilo que são as suas capacidades ajudam-nos imensos. Atenção, não nos dão ofertas ou prémios, dão-nos pistas para lá chegar. A eles, os nossos agradecimentos de coração; o mesmo dirigimos à ONGD SOLSEF que, em cooperação com Cssp, nos trouxeram o oásis, no meio deste mato, este pedacinho de terra, Itoculo, desconhecido pelos Senhores da casa. Graças a eles, hoje somos crianças e jovens de esperança, de sonhos! À mana Helena e à mana Cristina sejam dirigidas as nossas honras, pois ensinam-nos a ler, escrever, contam-nos histórias, mostram nos filmes, ensinam-nos a sonhar, mostram-nos o mundo que qualquer criança como nós deseja alcançar. Elas fazem-nos sentir meninos e meninas! Na conversa com eles, falam-nos das grandes dificuldades que têm, devido aos sistemas burocráticos do país, para ter o visto de residência, assim como as taxas que devem pagar para tal efeito; isto é-nos incompreensível, sendo que a intenção deles é simplesmente vir ajudar-nos sem receber nada em troca! Façam algo de jeito, Senhores! O primeiro passo para a solidariedade é destruir as fronteiras. Estamos exultantes de alegria na esperança de que algo de jeito seja feito um dia, mesmo não sendo nós a usufruir dele, mas que seja feito, Senhores!"
Hoje é uma necessidade ser voz dos que não a têm! Calar perante as injustiças e abusos dos direitos humanos significa que somos cultivadores dos mesmos. Dar a vida pelo outro, é manifestar a vontade de ser vitorioso, querer a maior de todas as vitórias registada na história. Vemo-la na cruz. Desabafo da madrugada chama a atenção às “políticas esquizofrénicas” e “politicas abstratas” a que estamos habituados. Desabafo na madrugada é um “post-it” de não esquecer-se dos “primeiros”, segundo grau de necessidade. É também um grito em sinal de vida e convida a todos a um olhar mais abrangente. É um toque nas portas do coração, é um “ainda estou aqui, não se esqueçam de mim”, que requer uma lembrança especial, lembrança essa que nos leva às periferias, proporcionando um contacto face a face com os que realmente precisam de ti. É um apelo à promoção do bem-comum, da justiça e paz, e dos direitos humanos que nos são inalienáveis.
Pobreza? Facilmente ouvimos expressões como esta: sou pobre, mas feliz! Parece fácil, mas não é; porque consiste na aceitação do que somos, que é um desafio enorme hoje, das circunstâncias que nos envolvem, também apoiado na esperança de que o amanhã tudo vai melhorar. O pobre feliz é aquele que clama (sal. 34). Hoje fala-se muito da pobreza e no seu combate. De facto, este fenómeno chamado pobreza, como tal, é uma ameaça à vida e torna-se um perigo quando penetra nas estruturas humanas. Mas, humanamente falando, somos todos pobres independentemente das investiduras, títulos, estatutos, castas, bens etc. somos pobres por essência (Gn 2,7). Ao ouvir falar da pobreza, a tendência é de pensar já numa pobreza materializada, e arranca de nós a interjeição: «oh, coitadinhos; Não têm roupas, sapatos, dinheiro, casa, carro, etc»; face a isto, movidos pelos sentimentos de pena, leva-nos a fazer aquele tipo de “caridadezinha”, dando aquela “avassaladora oferta de consumo” (Papa Francisco) que não passa de um serviço social; isto é naufragar os pobres na pobreza. Esquece-se de uma dita “pobreza de ideias!” Esta é perigosa, pois encerra as presas num ciclo de impotência abismático. Na sua presença, vemos e ouvimos, face a qualquer situação, algo parecido: “ah, somos pobres, não podemos fazer isso ou aquilo”. Isto acontece quando o vírus da pobreza contamina o próprio cérebro, eis o perigo da pobreza. Combater a pobreza é mostrar aos pobres e fazê-los sentir que a pobreza não é o fim, pelo contrário, é o começo de tudo (…).
Gilberto Borges, Itoculo aos 30.10.18, in pro-missão IV.

15 de novembro de 2018

Qualificativos


Os adjetivos qualificam os nomes de pessoas e objectos. Têm a função de atribuir uma qualidade a determinado nome e por isso podem engrandecer o desfavorecer essa pessoa ou objecto. Assim, em agosto deste ano acolhemos a Ponte JSF e num dos textos finais apareceram dois adjetivos desqualificativos: mísero e obsoleto.

O primeiro está referido a um «mísero órgão». Trata-se de um instrumento musical pequeno, cor preta, electrónico, com quatro escalas musicais… próprio para quem está a aprender. Isto é, um órgão musical. Foi caracterizado de mísero. Não sabemos o que está por detrás desta classificação, embora saibamos que para uma catedral europeia não passa disso mesmo. Mas aqui não temos outro. Ele é muito bom, ouve-se muito bem no espaço para o qual foi adquirido, e, bem tocado, ajuda bastante na animação litúrgica.


O segundo adjetivo refere-se a seis aparelhos, «alguns obsoletos», dos quais quatro são portáteis e dois de mesa. Funcionam com o Windows 7. Uns foram adquiridos e outros oferecidos. Agradecemos aos doadores. Mas também foram classificados de obsoletos. No entanto, para quem está a dar os primeiros passos no acesso às novas tecnologias, são máquinas que respondem perfeitamente às necessidades locais. Não caíram em desuso nem são arcaicos, apesar de haver muita e grande novidade nesta área das novas tecnologias, e de muito rapidamente serem ultrapassados por novos modelos no mercado digital.

Quer para um caso, ou para outro, acima classificados de mísero e obsoleto, importa dizer também que estamos abertos a acolher novas ofertas. Não ambicionamos acumular nem fazer negócio, mas queremos contribuir para gerar novos conhecimentos, facilitar o acesso às novas tecnologias, possibilitar novas aptidões, favorecer um primeiro contacto a quem não tem outra possibilidade. É pequeno e são poucos, é verdade. Podiam ser maiores e melhores, perfeitamente de acordo. Mas não interessa desconsiderar nem desprestigiar.

É sempre bom ter um olhar crítico, mas também que seja realista. Queremos continuar a acolher pessoas que nos visitam e partilhem connosco um pouco da vida missionária, com experiências de curta e/ou longa duração. Também queremos que valorizem e contextualizem o que encontram. Na vida não faltam ajustes e desajustes, diminuições e exageros, reacções e contradições… mas os adjectivos qualificam e dão atributos. Se não valorizamos, pelos menos não diminuímos o que já existe de esforço e dedicação.

Enfim, com aquilo que temos e usamos na missão, tanto na área do saber e como do lazer, da animação como da formação, são instrumentos e aparelhos normais, não são o «último grito» do mercado, nem de longe. Também não queremos nem estamos interessados em tal rigor e qualidade de produto. Ainda somos principiantes no uso desses instrumentos, e o nosso poder de compra é bastante limitado. Mas a nossa vontade é grande.

21 de outubro de 2018


Brados de Alegria!

“A minha vida é um barco, o destino é Jesus Cristo, o ressuscitado, as suas palavras é o mar, os remos são as minhas orações!”

Sabes o que acontece quando depositas a tua total confiança em Deus e te pões ao serviço dos mais frágeis, mais débeis, mais necessitados? Brados de Alegria. Não se trata de uma alegria qualquer, como estamos habituados hoje em dia: uma alegria do disfarce, enganosa, manipulada, forçada, ora sim ora não. É uma alegria pura, que perdura, nasce espontaneamente do coração, da residência do amor; pois é um brado influenciado fortemente pelo "amor cáritas". É uma alegria que não surge como escapatória perante as dificuldades que nos fazem sentir tristes, aborrecidos, magoados, etc. Pelo contrário, é uma alegria que vem a partir da aceitação destes sentimentos que provoca uma certa frieza na vida de todos os viventes. Ela possui um poder transformador, converte o pranto em júbilo, e obriga-nos buscar a razão do dom privilegiado, único e irrepetível, o dom da vida na face da terra, prefiro gloriar-me mais disto do que o resto. Isto fazendo-o no encontro com os rostos de Deus, variados nas suas formas. Há passos na vida que só se dá morrendo; de facto “se o grão de trigo cair na terra não morrer, sozinho vai ficar; se morrer dará muito fruto”. A experiência dessa alegria é uma graça, da qual somos chamados ininterruptamente a receber. Não posso afirmar que sou feliz, sabendo que a minha “ausência” faz de muitas vítimas de insignificância. Hoje temos uma sociedade mais “ausente” do que “ciente”, perante os sinais dos tempos que já estamos a ver e que ainda há-de vir. Um dos problemas é porque estamos a registar progressos extraordinários nas ciências, pensamos que estamos acordados. O mundo adormeceu o pior sono de todos os tempos: o sono do egoísmo, egocentrismos, racismos, comodismo, etc.

Sou feliz por ser parte integrante dos operários da messe do Senhor. Após um ano do meu primeiro contacto com a missão, missão de Itoculo, queria expressar a minha enorme gratidão ao meu Deus, por tão grande e sublime amor que tem por mim, revelando-o no chamamento que me fez a esta missão, que é vida, que é estar ao serviço dos pobres, que é levar a boa noticia a todos os cativos, oprimidos, aos que não tem vozes, nem vez e nem lugar. Reza o salmo: “a obra do Senhor é perfeita, reconforta a alma; os preceitos do Senhor são firmes, dão sabedoria aos simples”. Os simples reconhecem que há um criador, um Senhor do céu e da terra, reconhecem um Deus, e não têm medo de o anunciar. Isto é a sabedoria, que acaba por ser uma espécie de escada que dá aos simples o acesso às portas do paraíso. Esperas algo melhor que isso? Descobrir Deus em ti e experienciá-lo no outro, reconforta a alma. A minha experiência missionária tem sido isso. Daí, de alma reconfortada, vem o brado de alegria! Mas na missão nem tudo é rosa, nem tudo é perfumado, e nem tudo brilha, apesar do trabalho árduo dos missionários, pessoas que deixam a casa, família, amigos, para se dedicarem aos mais necessitados. A todos os missionários no campo da missão e aos que já terminaram a sua missão por determinadas situações, aproveitando o mês missionário, merecem uma intenção especial nas orações de cada comunidade cristã, e de cada crente, em particular, que reza. Dizia a pouco que nem tudo brilha na missão, e é verdade, mas não obstante estamos rodeados de brilhos de Deus, isto é, quando reconhecemos que cada um de nós é uma missão, é uma criação, tem um toque de Deus. O homem é pecador por essência, mas nesse mesmo homem, outrora pecador, desobediente, perverso nas suas ações, encontra-se um brilho genuíno, que é Deus, e que o faz brilhar como estrelas do mundo (cf. Fil 2, 14-15).

Por conseguinte, esta experiência fez-me descobrir um tesouro que está escondido no campo da missão e no precioso coração de cada missionário, a esperança. De facto a missão nasce, cresce, dá frutos a seu tempo, alimentando da esperança. A esperança é um dos caminhos, entre a fé e a caridade, que nos introduz imediatamente no grande mistério, vida para além da morte, a ressurreição, vida eterna. Eis um recurso indispensável para aqueles que dedicam a vida às grandes causas a fim de ganhar uma morada no reino dos eternos. Que a Virgem Maria, mãe de esperança, interceda por nós junto do seu filho, Jesus Cristo. Após estes minutos de aprendizagem, diria que missão é muito mais que deixar o lar paterno, amigos, pessoas queridas, para ir ao encontro dos pobres durante um tempo, a missão é partilha de vida, a missão é servir, é lavar os pés dos pobres, é transferir Deus em cada aperto-de-mão, em cada palavra, em cada sorriso. É pôr todos os dons, qualidades em comum. É rejeição do meu “eu”, dando lugar a um “nós”. Quando sentes que estás em missão inteiramente, é quando perceberes que nada do que fazes é por teu agrado pessoal, mas sim é para o bem comum, e para a vontade de Deus. Aprendi muito e continuo aprender, recebi mais do que aquilo que dei, e que estou a dar. Sabem os que já o fizeram, e os que o fazem. Desilusão? Sim. Foi mau? Não, foi bom! É preciso ter coragem para dizer isso. Aprendi que não vivo para mim mesmo, daí algumas ideias, pensamentos tive que mudar. Quando estamos nomeados, ou pretendemos fazer alguma experiência missionária numa missão, a tendência é subir alto nas espectativas, mas pouco resulta. Quando há esse choque fica sempre a sensação que estamos a perder o nosso tempo, mas não, é aí que estamos a aprender como se deve fazer. Não é prudente projetar, edificar megas ideias, sonhar alto sem antes ter um primeiro contacto com a missão, proceder de maneira contrária, haverá sempre desilusões. A missão não é muito de ilusão. Muitas experiências missionárias tornam-se amargas por causa desses pequenos detalhes. Mas também, vale a pena sublinhar, que é nos tais choques que vem o impulso de Deus, nos dá força, nos levanta e nos faz caminhar no caminho da verdade. Dizia São Paulo e com razão: “quando sou fraco, então é que sou forte”. Sou feliz, porque disse sim ao chamamento de Deus, que é o mesmo dizer: quero ser feliz, quero que o meu coração exulte de alegria; em brados de alegria faço ressoar a alegria que sinto. Não te esqueças que tudo que é bom, tem um preço. Pague o teu, com a tua entrega total aos serviços de Deus de acordo com a tua vocação, e leve-o contigo. Arrisca-te à missão!

Gilberto Borges, Itoculo aos 16.10.18, pro-missão III.


18 de agosto de 2018

O "nó" que nos une!


O “nó” que nos une!


O “nó” cego, que não se desfaz. O “nó” que só se dá em Deus. O nó que nos dá um irmão. O “nó” que rejeita as indiferenças, destrói barreiras e quebras as fronteiras (lembremos dos quantos e quantos que já perderam vida nas fronteiras devido à falta deste “nó cego”).
O “nó” que nos faz olhar na mesma direção. O “nó” que impõe responsabilidades para com os mais pequeninos, pois eles são a porta do reino do céu (Mt 18, 1-14). É deste nó, precisamente, que pronuncio!
O “nó” que nos congrega e nos faz comungar da mesma comunhão, o Santíssimo Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. O nó que faz do inimigo um amigo; que faz de um estranho um conhecido; que transforma um coração pobre, num coração nobre e sóbrio. O nó que nos configura à imagem e semelhança de Deus (salmo 8). É a ausência deste “nó” que, na verdade, o mundo reclama!
O “nó” que protagoniza um amor gratuito, que não exige retorno, irreversível, e que estende até aos inimigos, o amor caritas. Deste, o mundo carece. Perante uma sociedade desenfreada, frenética, egocêntrica, é com urgência que sublinho a precisão deste “nó”. O “nó” que alberga dois em um, torna o «outro» num «eu».

A ausência deste “nó” que já se faz sentir, faz-me crer que, a raça humana está constantemente sob ameaças e, o pior, em vias de extinção. Por isso, o mediterrâneo transformou-se num cemitério de esperanças; basta olharmos para o terceiro membro familiar, embora, é lamentável a maneira com que perdeu o seu espaço na família, vemos homens e mulheres de hoje e do amanhã morrendo, sofrendo, ou passando fome injustamente ou à deriva de melhores condições de vida; curiosamente, por outro lado, vemos grandes banquetes, brindes mascarados, vemos lixo feito de comidas enquanto há milhões de lázaros nos oceanos, nas ruas, ao pé da nossa mesa ou porta, esperando que caiam os restos, vemos lixo e mais lixo produzido pelas políticas manipuladoras, ainda vemos o homem a limpar o sangue nas calçadas da sua vítima feito por um ataque terrorista, uma bala perdida, uma manifestação em massa com recursos à violência, etc. repare nisto tudo, tente pôr-se no lugar destes terceiros, e sinta pelo menos uma ponta do sabor amargo da vida nestas circunstâncias, e depois interroga-te a ti mesmo: será que o homem, supostamente humano, é humano? Onde está o humanitarismo? 

Num mundo muito agitado pelos “medias”, tudo que leva o homem ao encontro de si mesmo, ao encontro com Deus face-a-face, é descartado, posto de lado ou em segundo plano. De todos os tarifários que anda por aí, com objectivos, cada vez mais, de conquistar e chamar atenção usando truques, fazendo roubos consentidos, o menos activado é aquele que é justo e verdadeiro com os seus clientes. Isto não é nada mais que as réplicas de uma nação absolvida pelas suas próprias ideias egocêntricas. O que sobrou desta nação? Nada mais que montões de “Marionetes” dos medias. Ativa Deus na tua vida e desfruta das grandes vantagens, que pode mudar a tua vida. Triste é quando o homem dá por ele pendurado num abismo enigmático. ele procura Deus, talvez mesmo que o encontre, porque quem procura encontra, não o compreende; para estes está reservado cuidados paliativo.
Sim, precisamos deste “nó” que invoca a prudência, que nos faz tomar a consciência da nossa essência! No auge dos novos tempos, em que se fala muito da ecologia, este “nó” dita uma «ecologia humana», ou seja, é preciso ser ecológico nos pensamentos, ideias, ações - visto que há ideias, projetos que por si só são sujos - antes de o ser para com o meio ambiente e a sociedade em geral. O “nó” que nos chama a razão e a uma consciência clara tem de ser dado, caso queiramos ver algo belo no nosso habitat.
O “nó” que nos une, é o “nó” que desvenda os rostos da justiça e da paz, radicadas no amor, não só para alguns, mas para todos, para a humanidade no seu todo. Este amor vem do alto se o procurar; não cai do alto para o encontrar ou tirar à sorte. O “nó” que nos une tem de ser dado, se queremos deixar marcas dignas de honras neste mundo. O “nó” que sara as feridas, alivia a dor dos que sofrem, que acolhe os que não têm lar, que dá ouvidos e acolhe as vozes desabrigadas, pairadas no tempo, na maioria das vezes ignoradas pelos sistemas burocráticas, egoísmo, comodismo, etc. Este “nó” que nos une, une corações despedaçados, fortalece os abatidos e oprimidos pela corrupção, pela ausência da democracia ou uma democracia subornada, regimes políticos, etc. É preciso este “nó” que corta o sabor amargo deste mundo. Acima de tudo precisamos deste “nó” que se dá, também, na solidariedade.

Porque este “nó” existe, e há muitos que o querem dar, a paróquia São José acolheu, no passado dia dois de agosto, um grupo de jovens sem fronteiras: Pe. Damasceno, Dino, Raquel, Ângela, Inês e Martina, que abraçaram o projeto Ponte e, que também abdicaram do conforto e das preciosas férias do verão, para pôr se ao serviço dos outros em Moçambique, Província de Nampula, distrito de Monapo, missão de Itoculo. Com certeza que vai ser um mês dando “nós” em cada encontro, em cada sorriso, e em cada toque da missão. De facto é dando que se recebe, pois o maior ato de fé é a entrega total. Rezemos para que Deus ilumine este grupo de jovens para que possam, influenciados pelo espirito de entrega e partilha, colham frutos em abundância nas suas vidas das “sementes” que durante este mês de agosto vão lançando na missão de Itoculo. “Movidos pela pérola, chamados a partir”. Isto, é aquilo podemos dizer: missão com garra e determinação na aurora do “nó” que nos une.

Gilberto Duarte Borges, in pro-missão 2, Itoculo aos 14.06.2018

26 de junho de 2018

VOZ DA MISSÃO

A Solenidade de S. João Batista celebrada na comunidade de São (santa) Mónica, Murucurucuni!
Entre perdidos e achados, uma viatura com quatro missionários, em vias da evangelização! Transportava uma equipa composta por um Padre, uma leiga, um seminarista e um estagiário. Ora bem, apesar do massacre dos caminhos, supostamente estradas, chegamos e estamos vivos (nakumi).
Chegamos por volta das 7h30m. Eram 8h00, ainda a porta do Senhor, que não habitual, estava fechada para os seus colaboradores. Trabalhar na messe do Senhor não é tão fácil quanto parece! O cenário, quando chegamos foi: a casa do Senhor fechada; uma viatura e quatro missionários; rostos comprometidos e surpreendidos das famílias que vivem ao redor da casa do Senhor, para com a chegada dos quatros missionários, pois era uma celebração não marcada (missa surpresa) e nada estava preparado. A casa do Senhor que, em princípio, seria para louvar o Senhor, estava no modo de celeiro, guardava feijões. Pronto, na ausência de pessoas crentes e participantes, ao menos temos feijões crentes, vigiando o Senhor. O Senhor faz maravilhas, acreditamos!
 Entretanto, o ancião da comunidade, num instante, saiu a correr a chamar os fiéis e, de que maneira, que não tardaram a chegar, mas atrasaram. Enquanto isso acontecia, a equipa missionária encontrava-se espalhada no campo da missão, cada um ocupando a sua posição, bronzeando, no meu caso carbonizando, no belo sol de manhã que estava. Notava-se um sorriso tímido da parte dos aldeões, mas o sol sorriu calorosamente para nós. Nas crianças, o mesmo, notava; mas com o tempo o Pe. Amigo dos mais pequeninos, na verdade, um pai carinhoso para com os mais pequeninos, a seu jeito, deu volta à situação.
Enquanto, as mamãs e papás que vinham à casa do Senhor, pouco me parecia que era o costume ir à casa do Senhor aos domingos, à medida que cumprimentávamos partilhavam as infelicidades, problemas de saúde e as suas preocupações.
O impossível é encontrar alguém, da parte das mamãs e dos papás, que diz: «está tudo bem». Infelizmente há sempre uma queixinha por fazer ou partilhar. A missão que vai ao encontro dos pobres, dos frágeis, dos mais debilitados, resume-se na partilha do pouco e que, curiosamente, acaba por ser muito. O engraçado é que, seja qual for a comunidade, a presença da equipa missionária deixa a comunidade sempre com um sorriso estampado no rosto, mesmo que a comunidade tenha motivos para chorar.
Ponto alto do dia foi quando uma mamã, acompanhada da sua bebé ao colo, falou connosco. Como missionários, sendo amigos do povo e carinhosos para com o povo, perguntamos o nome da bebé, e não é que a mamã já tinha esquecido o nome da sua bebé!? Era só dizer “Florinda Samuel”, mamã!
Reunida a comunidade, com a oração de manhã, apesar de que já tinha passado a hora, momentos de reconciliação e o santo sacrifício (a missa) comungamos da mesma comunhão! No geral a celebração litúrgica, ao estilo “macua”, «corria boa, os jovens animou bem com os cânticos». Terminada a celebração, que é momento de conversar, rezar, cantar e dançar com o povo, aproximava-se a hora de regressar a casa. Mas não podíamos regressar sem antes saudar/saborear a mana “xima” e o mano “caril de frango”. É a missão, é a solenidade de S. João Baptista, é a Igreja, somos nós professando a mesma fé, comungando a mesma comunhão! O certo é que fomos à casa do Senhor, o Senhor fez maravilhas, ficamos maravilhados; então que o digam os que foram, e que vão sempre à casa do Senhor aos domingos. Com o coração inflamado pelo amor do Senhor e uma alegria contagiante, o regresso foi mais suave, apesar do ataque do feijão macaco pelo caminho a alguns membros da equipa missionária! É a Missão…mas NAKUMI!!

Gil. D. Borges, in «pró-missão 1», Itoculo aos 24.06.18


13 de junho de 2018

NOXUKHURU, Sr. D. GERMANO


A diocese de Nacala, desde a sua criação, há 27 anos, teve como seu bispo D. Germano Grachane. Depois de completar 75 anos de idade, como manda o direito canónico, o papa escolheu novo bispo para a diocese de Nacala: D. Alberto Vera.
Chegou, assim, o momento de agradecer o Sr. D. Germano pela vida doada e pelo trabalho feito na nossa diocese, mas, como ele mesmo salientou, não se trata de uma despedida, mas sim de graças a Deus por tudo o que foi feito nestes 27 anos de caminhada diocesana e por esta semente que foi lançada e que marca o início da caminhada desta igreja particular de Nacala.
Para D. Germano, certamente, este é o momento de fazer balanços, preparar mudanças e de perspectivar novos rumos. A diocese de Nacala sente-se na obrigação de parar para um agradecimento profundo àquele que foi o seu primeiro bispo diocesano e que passou tantos anos ao leme desta barca de Cristo. Neste sentido, está-se a organizar nas três zonas pastorais (vigararias) que constituem a diocese uma celebração de acção de graças e de agradecimento a D. Germano. Neste périplo pelas zonas pastorais da diocese, no passado dia 10 de Junho, coube à zona pastoral da Carapira (da qual faz parte a missão de Itoculo) prestar a sua homenagem o bispo cessante.
Foi uma celebração simples, mas bastante viva e sentida, onde todas as paróquias e equipas missionárias da zona pastoral se fizeram presentes de forma muito especial. Além das palavras e das ofertas, ficou bem patente a simpatia e amizade que se criou ao longo destes anos. Como foi muitas vezes salientado, o nome de D. Germano estará sempre marcado na história da nossa diocese e gravado no coração cada membro desta diocese (não fosse ele o seu primeiro pastor): a semente que foi lançada neste cantinho moçambicano vai continuar a crescer e frutificar. Isso significa que estamos numa transição para a nova etapa na nossa caminhada diocesana mas não no fim do caminho; temos pela frente ainda novos horizontes a atingir e desafios a ultrapassar, na construção de um Moçambique melhor.
Termino com uma expressão do próprio D. Germano, na Carapira: “é bonito quando alguém vai para a reforma por causa da idade!” Que este sentimento de dever cumprido o acompanhe sempre e, especialmente, na nova etapa da sua vida.

NOXUKHUR’ELA VANJENE BISPO AHU, D. GERMANO!



26 - A alegria completa

– Netia-Itoculo/2003-2004 «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. […] Pois esta é a minha alegria! ...