por terras de moçambique


Pe. Joaquim Dionísio

Pároco de Penajóia – Lamego


As estradas têm sempre gente que caminha: para vender ou comprar, arranjar lenha ou conseguir água, ir ao médico ou participar nas celebrações cristãs... A estrada ou o carreiro no meio da vegetação são pontos de passagem, de encontro e de busca. As boleias são uma alegria que não chega a todos. As bicicletas e as motos já aparecem, mas os carros estão ausentes, nesta terra onde o salário mínimo ronda os 40 euros (mais ou menos 2.000 meticais).

As construções são simples e utilizam materiais locais: a terra vermelha para fazer tijolos, a madeira para suportar a cobertura de capim que não livra totalmente da chuva. No interior, há esteiras para o descanso da noite e alguns utensílios para o dia-a-dia. Tudo o resto precisa ser encontrado algures. E assim se passam horas e se gastam forças, em busca da água que refresca, da lenha que possibilita cozinhar e do alimento que sustenta. A “machamba” já está limpa, o fogo vai queimando arbustos e ervas e deixará cinzas para a próxima sementeira e plantação (milho, feijão, mandioca), quando a chuva chegar e saciar esta terra forte e seca.

A fé à sombra da árvore

O fruto das árvores é procurado, consumido e comercializado. Mas há outra realidade que a árvore grande oferece: a sombra que protege do calor intenso e que congrega à volta de realidades comuns. Ali se conversa, se observa quem passa, se espera a chegada de alguém e se celebra a fé em dia de festa. E todos os domingos são dias de festa. A capela é pequena, mas tem por vizinha a árvore frondosa, à sombra da qual se juntam os fiéis. Sentam-se em pequenas pedras, em pequenos troncos ou no chão e ali estão durante horas, sem cansaço nem ruído, livres de agendas cheias ou de telemóveis indesejados. Homens de um lado, mulheres do outro e as crianças e jovens à frente, com as suas vozes, os seus tambores e um ritmo singular. Algumas mães carregam filhos às costas, a quem amamentam com naturalidade. Há fiéis leigos com responsabilidades ministeriais nas comunidades que se organizam para que tudo esteja pronto, para liderar celebrações, organizar reuniões, fazer avisos, anunciar iniciativas paroquiais, convidar para a formação, mas também para que não falte a água, a “chima”, o feijão ou a galinha nos dias de encontro.

Carências evidentes

O contacto directo com as populações mostra-nos necessidades evidentes por parte desta gente que tem tão pouco e que ainda não tem o hábito de se organizar para exigir ou de se juntar para reivindicar direitos e denunciar práticas menos democráticas e injustas. O silêncio está presente nos pais impotentes perante a doença do filho cuja cura existe longe e também naquela mãe que já perdeu oito dos treze filhos… Há organizações internacionais que gastam muito do que recebem para se manterem a si mesmas e que nem sempre trazem o mais óbvio ou urgente para as populações… Há empresas que exploram quando não pagam o preço justo ou quando subornam para manterem monopólios… Estamos longe da cidade e dos centros onde a realidade começa a ser diferente, mas estamos perto de um povo que não desiste.


O mar ali tão perto

Itoculo não está muito longe do litoral, onde encontramos a Ilha de Moçambique, capital deste país até há pouco mais de um século. Ali encontrámos o forte que permitiu defender estas terras dos corsários holandeses e também a primeira capela cristã edificada no hemisfério sul. Aqui paravam marinheiros e missionários a caminho da Índia, buscando especiarias e anunciando o Evangelho. Mas aqui chegaram também mercadores orientais que se fixaram e levantaram mesquitas para rezarem a Alá. O Oceano Índico estava calmo, reflectindo cores claras e convidando para um mergulho nas águas quentes que molhavam a areia branca.

Nesta ilha encontrámos o Palácio do Governador, onde funcionou um Colégio dos Jesuítas e onde agora está sedeado um museu. O passado dos portugueses pode ter algumas páginas menos agradáveis, mas apresenta-nos muitas outras que nos deixam entusiasmados e orgulhosos. Um pequeno país, com pouca gente e escassos meios fez coisas grandes que continuam a merecer a nossa atenção e a serem motivo de visita por esse mundo fora.

Comentários

Anónimo disse…
Que saudade desta linda terra que é Moçambique
Que saudade do sorriso e do ta ta das crianças
Que saudade do "ihale" e das novidades dos animadores das comunidades
Que saudade da simplicidade e da alegria do povo "itoculense"
Que saudade de ouvir os alunos a catarem o hino
Que saudade do bater ritmado dos tambores dos jovens, dos "lulos" das mamas e das "aleluias" dos papas
Que saudade das refeições da equipa missionária
Que saudade do mergulho em Chocas
Que saudade do calor moçambicano
Que saudade dos tempos que vive em Itoculo
Elson Lopes
Anónimo disse…
Eu estou a ver que o Damas està cada vez mais apto à vida de Itoculo... Gostei da foto.
Saudações fraternas a toda a equipa missionària.
Edy

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