régulo mepóva



Raul Viana



Itoculo



Num destes dias visitei um dos nossos Régulos (autoridade tradicional macua) numa das nossas Regiões da Paróquia. A finalidade desta visita incidia na apresentação de um pedido de autorização para extrair pedra dentro do território do seu regulado em vista da construção que estamos a fazer no Centro Regional de Xihir.

Este pedido enquadrava-se, também, no respeito e atenção pela «autoridade tradicional», dono desse território. Como chefe territorial, a ele compete as decisões relativas à exploração da terra.
Acompanhado de um animador cristão, aproximei-me da casa, pedindo licença para entrar. Na varanda da casa estava ele deitado na sua quitanda (cama típica dos macuas) muito recolhido e com familiares à volta. Estava mesmo doente.

Como habitualmente fazemos, começamos pela saudação e respectiva partilha de novidades. Logo ele iniciou apresentando o seu estado doentio, bastante visível. Trocamos algumas palavras e disse-lhe que estava disponível para o trazer ao Centro de Saúde de Itoculo, para fazer um tratamento medicamentoso. Porém, recusou dizendo que o seu estado iria melhorar. Nesse caso adiantei que o carro voltaria a passar nesse caminho dentro de dois dias e, caso não melhorasse, podia seguir para o hospital. Essa seria a nossa colaboração, visto que a sua casa dista do centro de Itoculo cerca de 15km.

No meio de tudo isto ainda hesitei apresentar o pedido que me levava aí sobre a extracção de pedra dentro do seu regulado. Mas ele insistiu no porquê da visita e então apresentei a questão, à qual deu uma resposta imediata e positiva. Nada havia a impedir a não ser a debilidade do seu estado de saúde. E assim falando em macua, disse que podíamos extrair essa pedra, visto que se trata de uma construção que também vai servir o seu povo. Agradecendo a colaboração concedida, nos despedimos desejando as melhoras e rápida recuperação.



Passados dois dias o carro da missão voltou a passar nesse caminho e logo foi mandado parar para informar que o Régulo não podia seguir para o hospital porque primeiro tem de consultar a «Tradição». Ou seja, tem de ir primeiro aos curandeiros e adivinhos, como mandam as regras locais. E assim uma vez mais ficou adiada a sua vinda para o hospital central.

De facto, a situação agravou-se. E a primeira coisa a fazer é recorrer à «tradição» consultar as «forças locais». Deste modo não foi de estranhar a notícia da sua morte passados poucos dias. Tratava-se apenas de uma infecção urinária ou prostatite, que o hospital central podia resolver.

Este Régulo Mepóva é apenas um exemplo dos inúmeros casos que acontecem neste meio sócio-cultural macua. De facto, a «tradição» é muito forte e inflexível, e é a primeira a ser procurada. Posteriormente se recorre aos serviços do centro de saúde e/ou hospitalar. Esta prioridade local é por vezes uma solução eficaz, quando se trata de pequenas doenças que a medicina natural resolve. Mas na maioria das vezes, apenas agrava a situação dificultando ou mesmo impossibilitando a sua cura. Noutros casos, como aconteceu com este Régulo, termina com a morte do paciente.

Mesmo disponibilizando tempo e meios, o peso da «tradição local» dificulta o nosso trabalho pela qualidade de vida deste povo. Isto que se verifica no campo da saúde, cujos os casos são imensos, também se verificam no campo da Pastoral Paroquial. Na verdade, trata-se de um verdadeiro desafio à evangelização que estamos realizando, o qual nos faz ver que a inculturação do Evangelho é ainda um caminho muito longo a percorrer, um processo que requer tempo e entrega.


É assim mesmo, que a Missão continua.

Comentários

Anónimo disse…
é com pena que recebo esta noticia, pois este senhor era um verdadeiro amigo dos missionàrios e se enteressava ao bem do povo.
paz à sua alma
Edmilson

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