TRIVIALIDADES (II)
batuque e panelas

Raul Viana

Itoculo


Para além das capulanas e das bicicletas presentes por todo o lado, temos também os batuques e as panelas que marcam e acompanham a vida deste povo. Dois instrumentos preciosos para qualquer celebração tradicional, religiosa ou outra.

Festa sem batuque é como comida sem sal, ou mais ainda, é como dançar sem música. Simplesmente não é festa. As nossas comunidades cristãs são convidadas a silenciar os batuques durante o tempo quaresmal. Porém, passado esse tempo não mais param de tocar. Um pouco por todo o lado e em todo o tempo se houve o ritmo do batuque que assinala uma cerimónia religiosa ou tradicional.

Com o seu ritmo próprio, cada um dos três batuques acompanha e fortalece o andamento musical e o canto festivo. E tudo isso completa-se com a dança alegre e mexida. Quem já andou por estas bandas de África sabe bem como isto funciona. Todo o corpo vibra e todos vibram com o bater do batuque.

Num destes dias tivemos uma celebração dominical com recepção de Sacramentos, portanto motivo suficiente para uma festa efusiva. Vozes entusiasmadas, palmas bem ritmadas com o corpo embalado ao ritmo do batuque eram sinais de festa. No fim da celebração dois grupos de jovens defrontaram-se a ver qual era o melhor e mais forte no canto e na dança. O entusiasmo era tão grande que nem a chuva os fizeram parar. Os batuques começaram a rebentar pelas costuras, por causa da humidade, mas logo se procuram outros para os substituir. Quando se trata de festa nada nem ninguém faz parar…

Mas só a batucada não chega. É preciso a segunda parte que requer as panelas e seu conteúdo. Assim quando há festa os jovens carregam o batuque e as mulheres levam as panelas e os acessórios. Tudo parece estar bem programado pois tudo acontece de uma forma muito natural e sem grande azáfama. Assim, depois da dança vem a comida e a festa fica completa.

Na verdade quando se marca uma festa de um grupo, comunidade ou ministério logo se tem de pensar no que se segue à celebração: a comida. Não é que seja exigente nem se perca muito tempo com a refeição, pois isso faz-se em pouco tempo, mas estar numa festa e ir para casa com o estômago vazio, não é festa.

É na simplicidade deste povo que aprendemos também a ser simples. Uma realidade que não deixa de ter as marcas de quem ainda vive em busca e preocupado com os bens primeiros e essenciais da vida. Disso são prova evidente os grupos de mulheres que carregam a trouxa à cabeça, o filho às costas e outro pela mão, a caminho de uma qualquer cerimónia.

Enfim, no meio de tudo isto procuramos não ficar fora, mesmo sem muito ritmo para a dança, mexemos um pouco e entramos na festa. Após a celebração entramos também no ritmo do batuque e terminamos com a comida cuidadosamente preparada. Assim nos vamos integrando e interagindo com este povo, pois a Missão também é assim.

Comentários

Anónimo disse…
Mestre, é tão bom ler as suas palvras. é como se volta-se por momentos a Moçambique. Sinto o cheiro, vejo a alegria desse povo (e sinto comichão do feijão- macaco!!!).
Bom trabalho que o Espírito Santo esteja sempre consigo.
Beijinhos da Rita

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