21 de outubro de 2018


Brados de Alegria!

“A minha vida é um barco, o destino é Jesus Cristo, o ressuscitado, as suas palavras é o mar, os remos são as minhas orações!”

Sabes o que acontece quando depositas a tua total confiança em Deus e te pões ao serviço dos mais frágeis, mais débeis, mais necessitados? Brados de Alegria. Não se trata de uma alegria qualquer, como estamos habituados hoje em dia: uma alegria do disfarce, enganosa, manipulada, forçada, ora sim ora não. É uma alegria pura, que perdura, nasce espontaneamente do coração, da residência do amor; pois é um brado influenciado fortemente pelo "amor cáritas". É uma alegria que não surge como escapatória perante as dificuldades que nos fazem sentir tristes, aborrecidos, magoados, etc. Pelo contrário, é uma alegria que vem a partir da aceitação destes sentimentos que provoca uma certa frieza na vida de todos os viventes. Ela possui um poder transformador, converte o pranto em júbilo, e obriga-nos buscar a razão do dom privilegiado, único e irrepetível, o dom da vida na face da terra, prefiro gloriar-me mais disto do que o resto. Isto fazendo-o no encontro com os rostos de Deus, variados nas suas formas. Há passos na vida que só se dá morrendo; de facto “se o grão de trigo cair na terra não morrer, sozinho vai ficar; se morrer dará muito fruto”. A experiência dessa alegria é uma graça, da qual somos chamados ininterruptamente a receber. Não posso afirmar que sou feliz, sabendo que a minha “ausência” faz de muitas vítimas de insignificância. Hoje temos uma sociedade mais “ausente” do que “ciente”, perante os sinais dos tempos que já estamos a ver e que ainda há-de vir. Um dos problemas é porque estamos a registar progressos extraordinários nas ciências, pensamos que estamos acordados. O mundo adormeceu o pior sono de todos os tempos: o sono do egoísmo, egocentrismos, racismos, comodismo, etc.

Sou feliz por ser parte integrante dos operários da messe do Senhor. Após um ano do meu primeiro contacto com a missão, missão de Itoculo, queria expressar a minha enorme gratidão ao meu Deus, por tão grande e sublime amor que tem por mim, revelando-o no chamamento que me fez a esta missão, que é vida, que é estar ao serviço dos pobres, que é levar a boa noticia a todos os cativos, oprimidos, aos que não tem vozes, nem vez e nem lugar. Reza o salmo: “a obra do Senhor é perfeita, reconforta a alma; os preceitos do Senhor são firmes, dão sabedoria aos simples”. Os simples reconhecem que há um criador, um Senhor do céu e da terra, reconhecem um Deus, e não têm medo de o anunciar. Isto é a sabedoria, que acaba por ser uma espécie de escada que dá aos simples o acesso às portas do paraíso. Esperas algo melhor que isso? Descobrir Deus em ti e experienciá-lo no outro, reconforta a alma. A minha experiência missionária tem sido isso. Daí, de alma reconfortada, vem o brado de alegria! Mas na missão nem tudo é rosa, nem tudo é perfumado, e nem tudo brilha, apesar do trabalho árduo dos missionários, pessoas que deixam a casa, família, amigos, para se dedicarem aos mais necessitados. A todos os missionários no campo da missão e aos que já terminaram a sua missão por determinadas situações, aproveitando o mês missionário, merecem uma intenção especial nas orações de cada comunidade cristã, e de cada crente, em particular, que reza. Dizia a pouco que nem tudo brilha na missão, e é verdade, mas não obstante estamos rodeados de brilhos de Deus, isto é, quando reconhecemos que cada um de nós é uma missão, é uma criação, tem um toque de Deus. O homem é pecador por essência, mas nesse mesmo homem, outrora pecador, desobediente, perverso nas suas ações, encontra-se um brilho genuíno, que é Deus, e que o faz brilhar como estrelas do mundo (cf. Fil 2, 14-15).

Por conseguinte, esta experiência fez-me descobrir um tesouro que está escondido no campo da missão e no precioso coração de cada missionário, a esperança. De facto a missão nasce, cresce, dá frutos a seu tempo, alimentando da esperança. A esperança é um dos caminhos, entre a fé e a caridade, que nos introduz imediatamente no grande mistério, vida para além da morte, a ressurreição, vida eterna. Eis um recurso indispensável para aqueles que dedicam a vida às grandes causas a fim de ganhar uma morada no reino dos eternos. Que a Virgem Maria, mãe de esperança, interceda por nós junto do seu filho, Jesus Cristo. Após estes minutos de aprendizagem, diria que missão é muito mais que deixar o lar paterno, amigos, pessoas queridas, para ir ao encontro dos pobres durante um tempo, a missão é partilha de vida, a missão é servir, é lavar os pés dos pobres, é transferir Deus em cada aperto-de-mão, em cada palavra, em cada sorriso. É pôr todos os dons, qualidades em comum. É rejeição do meu “eu”, dando lugar a um “nós”. Quando sentes que estás em missão inteiramente, é quando perceberes que nada do que fazes é por teu agrado pessoal, mas sim é para o bem comum, e para a vontade de Deus. Aprendi muito e continuo aprender, recebi mais do que aquilo que dei, e que estou a dar. Sabem os que já o fizeram, e os que o fazem. Desilusão? Sim. Foi mau? Não, foi bom! É preciso ter coragem para dizer isso. Aprendi que não vivo para mim mesmo, daí algumas ideias, pensamentos tive que mudar. Quando estamos nomeados, ou pretendemos fazer alguma experiência missionária numa missão, a tendência é subir alto nas espectativas, mas pouco resulta. Quando há esse choque fica sempre a sensação que estamos a perder o nosso tempo, mas não, é aí que estamos a aprender como se deve fazer. Não é prudente projetar, edificar megas ideias, sonhar alto sem antes ter um primeiro contacto com a missão, proceder de maneira contrária, haverá sempre desilusões. A missão não é muito de ilusão. Muitas experiências missionárias tornam-se amargas por causa desses pequenos detalhes. Mas também, vale a pena sublinhar, que é nos tais choques que vem o impulso de Deus, nos dá força, nos levanta e nos faz caminhar no caminho da verdade. Dizia São Paulo e com razão: “quando sou fraco, então é que sou forte”. Sou feliz, porque disse sim ao chamamento de Deus, que é o mesmo dizer: quero ser feliz, quero que o meu coração exulte de alegria; em brados de alegria faço ressoar a alegria que sinto. Não te esqueças que tudo que é bom, tem um preço. Pague o teu, com a tua entrega total aos serviços de Deus de acordo com a tua vocação, e leve-o contigo. Arrisca-te à missão!

Gilberto Borges, Itoculo aos 16.10.18, pro-missão III.


1 comentário:

Raul Viana disse...

E outras coisas podiam ser ditas... mas basta acreditar e confiar em Deus. Com Ele tudo vale a pena. Boa missão.

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