hotini!

Raul Viana
Itoculo
Na língua macua a resposta que se dá a quem pede licença para entrar, é «Hòtini!» (Faça favor!). Com esta permissão dei início ao segundo momento nestas terras moçambicanas, dedicando o meu precioso tempo ao estudo da língua macua. No meio de uma conversa sobre a possibilidade e a disponibilidade de frequentar o curso de língua macua, um missionário experiente interveio justificando a importância do mesmo com uma história muito simples:

«Um certo dia dois jovens foram ao bosque. Era um grande bosque de árvores frondosas cujos ramos podiam ser cortados para suavizar o frio inverno que se aproximava. Em jeito de desafio, apostaram qual deles conseguiria cortar maior quantidade de ramos. Ambos tinham idêntico

instrumento para a sua tarefa: uma simples serra. Deram entre si o sinal de partida e logo treparam por diferentes árvores. Pouco tempo depois começaram a cair os primeiros ramos cortados. Cada um procurava fazer o seu melhor, de tal maneira que os dois em pouco tempo já transpiravam por todo lado. Tomando consciência da sua situação, um deles decidiu parar e descer da árvore. O outro ao vê-lo descer, intensificou o seu trabalho esforçando-se por aumentar o seu número. Entretanto o que descera, sentou-se junto da árvore e estrategicamente começou a limar a sua serra, pensando que desta forma poderia cortar facilmente mais galhos. E assim aconteceu. Voltou a subir à árvore e com menos esforço, dentro do tempo determinado, conseguiu cortar mais rápido que o seu colega. No fim somou maior quantidade de ramos cortados, vencendo o desafio».

Não me foi difícil descobrir a lição desta pequena história. De facto, aquilo que aparentemente parecia ser um atraso na concretização de uma missão, acabou sendo um avanço considerável. A preparação, na sua aparente perda de tempo inicial, pode desembocar num maior e melhor crescimento. Equipar-se devidamente para uma grande viagem permite vislumbrar outras tantas possibilidades para chegar muito mais longe.

Na verdade, esta história fez-me considerar a minha posição actual em relação à aprendizagem da língua macua. Olhando a realidade da paróquia de S. José de Itoculo (Diocese de Nacala), tal como a realidade das demais paróquias do interior, sem o conhecimento da língua local é muito difícil contactar e dialogar com as pessoas. Aqui o português, embora sendo a língua nacional de Moçambique, é insuficiente para fazer qualquer acção pastoral séria e responsável com garantias de algum resultado positivo. «Entender e ser entendido» é um ponto de partida essencial para qualquer acção humana. Assim, também, sinto que preciso de aprender a língua e a linguagem das pessoas macuas.

Não escondo que a tentação é de partir de imediato para o trabalho. Na verdade, são grandes e urgentes as necessidades com que os missionários se deparam a todos os níveis. Já muito foi feito e ainda há muito para fazer. Porém, sem cair no erro de viver num esforço constante mas com reduzida «eficiência e eficácia», se é que se pode falar de evangelização nestes termos, é importante estar bem preparado e apetrechado com os instrumentos necessários.

Como um instrumento de que Deus se serve para visualizar o Seu Amor, sinto-me chamado a viver bem esta missão como uma exigência do compromisso assumido. Para tal preciso de me equipar com os meios necessários para levar a cabo a missão confiada: aprender e ensinar, receber e partilhar, conviver e amar, evangelizar, ser e estar… em «união prática».

Acredito e peço a Deus, Senhor da Vida e da Missão, que nos fortaleça e ajude a viver intensamente este Tempo da Ressurreição que acontece uma vez mais para todos nós. Assim, o silêncio e a morte são vencidos para dar lugar ao canto festivo da paz e da alegria de Cristo Vivo em cada coração.

Empaka nihiku nikina, Muluko ajaliwà! (Até outro dia, se Deus quiser!)

Comentários

Anónimo disse…
"Partir para o trabalho?!"
A sementeira começa com a preparação do terreno.E há quanto tempo,trabalhadores de garra,como vocês,andam por aí de mão no arado!
Boas fainas...

Laura
Anónimo disse…
Mestre que bom saber que se torna uma semente nessas terras moçambicanas.
Força.não se esqueça, Dar as mãos crescer na missão.
beijinhos da rita e cuidado com o feijão macaco
Anónimo disse…
Serra que se afia vai cortar muita lenha e fazer do fogo da Missão uma grande labareda do Amor de Deus. Força Raul e colegas.... Vê-se que a serra já deu para cortar uma bela cruz... !
ze manel s

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