O meu Bom Dia

Existem várias coisas que me fascinam aqui no povo Macua, algumas é um fascínio bom, outras é mais incredulidade, mas uma das coisas que mais gosto neles é o Bom Dia, aqui cada pessoa tem direito ao seu Bom Dia, não existe um Bom Dia geral, se passamos por 5 pessoas, devemos dizer 5 bons dias.


Se repararmos no simbolismo que isso representa nasce o fascínio, a admiração, nós somos suficientemente importantes para termos direito ao nosso bom dia, quantas vezes nos cruzamos com alguém que conhecemos e até o Bom dia nos custa a sair, perdemos o interesse e a motivação em nos aproximarmos do próximo, do outro, deixamos de ter tempo uns para os outros.

Aqui se há coisa que existe é tempo, tempo para estarmos uns com os outros. Se pela tarde formos passear pelos bairros, vamos perceber que os vizinhos estão nas varandas uns dos outros simplesmente sentados a conversar, só isto e isto já é tanto. Talvez a culpa desta disponibilidade seja a inexistência de Instagrams, de facebooks, de distrações que nos dão a ilusão de que temos uma vida social ativa.

A acompanhar o Bom dia vem o Iháli? (Tudo bem?) e esta pergunta vem com verdadeiro interesse em saber a resposta e quando retribuímos a pergunta respondem com tanta sinceridade, contando de verdade o que se passa na vida deles, que muitas vezes a resposta é desconcertante, está tão carregada de verdade que na maior parte das vezes não sei o que responder. Este pequeno gesto surpreende-me porque onde eu vivia há 6 meses atrás não havia tempo, nem disponibilidade, para verdadeiramente responder a esta pergunta, nem verdadeiro interesse na resposta que nos poderiam dar.

Pode parecer um clichê barato, mas aqui damos muito mais valor às coisas banais da vida, damos mais valor à companhia uns dos outros para contar as novidades mais corriqueiras do nosso dia, damos mais valor à vida, porque sabemos o que custa sobreviver, damos mais valor ao amigo, à família, porque o tempo custa a passar sem companhia.

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