Breve apontamento histórico da Evangelização e da Igreja de S. JOSÉ DE ITOCULO - II
Raul Viana

2. A estruturação e organização das áreas evangelizadas: a quási-paróquia de Itoculo

No final da década de 1960 o centro regional de S. Paulo Monetaca passou a sua sede para S. Pedro Djipui, no regulado de Macui, visto ser mais central em ordem a concentrar os cristãos residentes entre os regulados de Monetaca, Thamela e Chihire. Aí se construiu uma capela grande, uma cozinha e casa para os missionários que vinham de Mueria para as celebrações e as formações locais. Aí pernoitavam também os cristãos vindos de mais longe. Tudo isto aconteceu no tempo do P. Caselli Sílvio, segundo narram alguns cristãos.

Em 1964 é criado o centro regional de Nossa Senhora do Rosário de Chihire, pelos padres Vítor Ruggera, João Cerpelloni e Martinho Moura, para atender os cristãos do lado nordeste de Itoculo. Uma parte da formação dos catequistas e animadores era dada neste centro em Chihire, outra parte era dada em Djipwi, considerado um centro maior, onde parece estar em vista a construção de uma sede paroquial. A partir do centro regional de Chihire outras comunidades foram surgindo desde o rio Mariri ao norte, até ao rio Namalima ao sul, uma área que inclui 6 Regulados (Natuto, Namicopue, Chihire, Mepova, Mpira e Minhalaca).

Entre o rio Namalima e a estrada principal alcatroada (N8), que liga Nacala a Nampula, criou-se o terceiro centro regional de Itoculo, chamado mais tarde S. Carlos Luanga - Congo. Todos estes centros regionais dependiam da paróquia-missão de Mueria, onde estão registados todos os Batismos, Casamentos e alguns Óbitos.

Em 1978, após a adoção do regime político nacional (leninista-marxista), agravou-se a confiscação dos bens da Igreja e a proibição de celebrações públicas dos cristãos (Nota: A lei sobre as nacionalizações é de 24 de Julho de 1975, seguida de reforços legais no ano seguinte. Assim, a confiscação dos bens da Igreja acontece nesta altura, agravando-se 1978.). Ou seja, as estruturas dos centros regionais de Djipui e Chihire ficaram a pertencer ao Governo para o serviço público de escolas e outros interesses governamentais. Mais tarde, durante a guerra civil, o centro de Chihire ficou abandonado por ser uma zona onde predominavam as forças armadas da Renamo, enquanto o centro de Djipui passou a ser um local de comando local da Frelimo. Com o fim da guerra estes centros voltaram a ser propriedade da Igreja e aí recomeçaram as formações de animadores dos diferentes ministérios.

Entretanto, no decorrer de todo este tempo do conflito armado, os centros regionais passaram a formar a quási-paróquia de Itoculo, dependendo agora da Missão da Carapira. São criados livros próprios de registos com a seguinte divisão: Itoculo B compreendia as regiões de Djipui e Chihire; e Itoculo A compreendia apenas a atual região de Congo.

De acordo com o primeiro livro de registo, que inclui Itoculo A e B, a pessoa que inaugura o primeiro volume está registado com o nome de Tiago Sicola, filho de Sicola e Maria Npuatha, celebrado na capela do centro de Thamela (Murutho Velho) no dia 10 de Julho de 1979.(Nota: Neste mesmo dia 10 de julho, na mesma capela de Thamela, seis casais recebem o Sacramento do Matrimónio, sendo o primeiro registo com o nome de Agostinho Muaquia e Filomena Saleva.) Trata-se de um homem adulto nascido em 1942 que teve como padrinho o Sr. João Nacaia, e foi batizado pelo P. Gino Pastore. No mesmo dia foram batizadas mais três mulheres (Rosa Mário de 20 anos; Cecília Paiola de 27 anos e Elisa Múquina de 24 anos). Os registos seguintes são do dia 18 de Outubro de 1981, também da zona de Thamela (Maria Manira de 57 anos; Angelina Namaruso de 58 anos; e Gracinda Sitah de 64 anos). (Nota: Aqui encontramos apenas batismos de pessoas jovens e adultas, mas nos registos de 1982 há já bastantes batismos de bebés (crianças de colo), uma prática frequente nas famílias cristãs.)

Este número reduzido de registo de batismos mostra que estamos num tempo de transição, onde ainda parece haver muitos registos efetuados em Mueria e Carapira. Contudo, em 1982 o número total de batismos já atinge os 250. A partir de 1983 estes números sobem em flecha, com duas quebras em 1990 e 1993, até atingir o máximo de 1321 batismos em 1998. No ano 2000 sofre uma quebra acentuada, e a partir de 2002 vai ganhando uma estabilidade à volta de meio milhar de batismos anuais, como se pode ver no gráfico abaixo.

De maneira geral não havia muita diferença percentual entre homens e mulheres na receção dos sacramentos. Apesar de ser significativo os 44 registos de 1981 (dia 1 de Novembro) onde são batizados 9 homens e 32 mulheres na capela de Muhalacani (com catecúmenos oriundos de Nacololo, Namicopue, Robusini, Namuana, Natutu), nos anos seguintes esta diferença acentuada deixa de existir. Isto verifica-se ainda mais, quando alguns destes catecúmenos recebem também o Sacramento do Matrimónio, o que significa uma maior proximidade percentual.(Nota: Em 1979 há registo de 4 batismos; em 1981 há registo de 44 batismos; em 1982 há registo de 250 batismos. O mesmo acontece a nível do Sacramento do Matrimónio: em 1979 estão registados 6 casamentos; em 1981 estão registados 26 casamentos; e 1982 estão registados 45 casamentos. Daí para cá todos os batismo são registados nos livros de Itoculo A e B, até 19 de Março de 2004.)

Como já referimos acima, até ao ano 1979 toda a região de Itoculo dependia diretamente de Mueria e mais tarde de Carapira, estando aí todos os registos de sacramentos. Itoculo era parte integrante da missão-paróquia de Mueria. Por isso, toda a sua história se encontra aí registada. Na década de setenta, Itoculo A torna-se uma quási-paróquia, chamada S. Carlos Luanga, e passa a ter livros próprios de registos de Sacramentos, e também passa a ser apoiada a partir da missão-paróquia da Carapira.

Antes da criação da quási-paróquia de Itoculo muitos outros missionários passaram por estas terras vindos diretamente na missão de Mueria, sobressaindo primeiramente o P. Caseli Sílvio e o P. Vítor Ruggera.(Nota: Entretanto há outros nomes mais apontados pelos animadores: P. Martinho Moura; P. Bellini Alfredo; P. Sílvio Greggio; P. João Cerpelloni; P. Luís Malaspina; P. António Mazzucco; P. João Batista Sanzogni; Ir Catarino Basso; Ir Luís Sardi; P. Gino Pastore; P. Ambrósio Reggiore; P. Firmino Cusini.) Nesta nova organização, a quási-paróquia de Itoculo teve como responsável o P. Sílvio Greggio (1970-1978), depois o P. Gino Pastore (1979-1993), sucedendo-lhe depois os P. Ambrósio Reggiori (1993-2004) em Itoculo B, e o P. Firmino Cusini (1997-1998) em Itoculo A.

Assim, a quási-paróquia de Itoculo passou a ter organizações pastorais inteiramente separadas, com conselhos paroquiais diferentes e “párocos” diferentes. Na prática, durante vários anos Itoculo A e B passaram a ser consideradas pelo povo, na linguagem e no modo de funcionar, como verdadeiras paróquias independentes. Embora a ereção canónica nunca tenha acontecido, a verdade é que mesmo os boletins diocesanos e as estatísticas oficiais da diocese, incluindo os relatórios paroquiais, falavam de Itoculo A e B como de duas paróquias.(Nota: Antes de 1978 o pároco da Carapira era também pároco de Itoculo B, enquanto o pároco de Monapo e Mossuril era de Itoculo A. Porém a partir de 1978 com o P. Gino Itoculo passou a ter um único pároco. Este tempo coincidia com o conflito armado no qual também a paróquia de Itoculo tinha apenas um conselho paroquial que reunia em Ramiane, uma vez que em Itoculo era demasiado perto das estruturas do governo e em Djipui a guerra não o permitia. Apesar de as comunidades estarem muito distantes, os temas das reuniões eram para toda a paróquia que clandestinamente se fazia chegar a todo o lado.)

De grande importância é também a participação das irmãs combonianas na evangelização do povo de Itoculo: durante longos anos, elas funcionaram verdadeiramente em equipa com os padres combonianos que trabalharam no território. Com o P. Gino Pastore, trabalhou de modo sistemático a Ir Antónia Solaro. Mais tarde, com o P. Pedro Fernandes trabalhou a Ir. Socorro Ribeiro. (Nota: Apesar das irmãs apoiarem muito a missão na sede, algumas delas se dedicavam a visitar as comunidades acompanhando os padres. Tal é o caso das irmãs citadas e também as Ir. Alma Lomboni vinda de Mueria e a Ir. Assunta Satriani a partir da Carapira.) Para além das combonianas, mais recentemente, trabalharam também as Irmãs Servas do Espírito Santo, concretamente, a Ir Marta Mello que desenvolveu um intenso e profícuo trabalho, em equipa com o P. Ambrósio Reggiori. A ela se deve muito trabalho com catequistas e sobretudo o lançamento das escolas comunitárias. Outras irmãs da mesma congregação trabalharam depois com os espiritanos, quando as irmãs combonianas deixaram Netia.

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